"Isto passou das marcas"
Não vale a pena disfarçar: a democracia portuguesa está doente, muito doente, e nenhuma ironia pode mascarar essa terrível situação. Haverá certamente quem tente retirar proveitos partidários, mas as ambições mesquinhas não são suficientes para iludir os contornos da moléstia: o que está em risco, por muito que pareça exagerado dizê-lo, é o regime - na sua saúde, no seu prestígio, na confiança cega que deve merecer aos cidadãos. Tal como foi dito já, embora com um outro sentido, "isto passou das marcas", ou seja, caminha-se aceleradamente para o "pântano" de que António Guterres fugiu desajeitadamente. E não é uma "questão comezinha", ao contrário do que tentou desvalorizar o patriarca, regressado à fase da condescendência… para com os seus.
A Justiça granjeou a justa fama de ser responsável por grande parte das nossas debilidades. Para ela não há "terapias-simplex" tão ao gosto destes medíocres tempos de faz-de-conta. Também não são soluções (muito menos emergem do exigível sentido de Estado!) as explicações esfarrapadas da "espionagem política" ou do "assassinato de carácter".
Nos últimos anos, o ambiente adensou-se perigosamente. Hoje, sem qualquer dúvida, vive-se uma depressão e, com a gangrena à vista, está-se no fim da linha ou muito perto dele. Nenhum preceito jurídico, ainda que manobrado com a maior mestria, conseguirá anular a realidade política - terreno onde tudo existe logo que parece existir.
As trapalhadas acumuladas (que sempre tiveram a bênção eleitoral dos cidadãos!), conduziram o país a uma enfermidade grave. Com culpas nunca provadas, por si mesmo ou pelos seus amigos, José Sócrates concentrou na sua pessoa uma soma de "casos" que não podem ser desvalorizados. E a tal ponto que, neste momento, o funcionamento das instituições foi afectado e a sobrevivência do regime só é garantida pela integração europeia.
Parece-me temerário ficar à espera da Justiça: o estado de espírito da Nação já a ultrapassou. Por mim, preferia que o presidente da República desse um valente e saneador murro na mesa. Porque, de facto, isto passou das marcas!
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