Temo que este país, que eu amo, esteja num avançado estado de autodestruição. Não tenho grandes ilusões sobre o estigma de morte que acaba por atingir todos os seres, todas as coisas e, portanto, as suas próprias instituições. O tempo de vida é que é variável, dadas as condições, as circunstâncias. Na admissibilidade desta lógica é possível conjecturar o desaparecimento de um país. Não quero acreditar que Portugal, país de nove séculos, esteja à beira de um qualquer fim trágico. Aliás, este país sempre viveu sob um certo sentido trágico. Mas creio, e por isso temo, que aqueles a que comummente chamamos "forças vivas" do país, pelo comportamento que estão a adoptar, não alinhem nesta teoria do fim possível das próprias instituições ou dos países.
Não estou contagiado pelas teorias apocalípticas do fim do Mundo, agora de novo em voga pelos arautos de 2012 ou de 2060. Mas confesso que não vislumbro qual seja o desfecho das lutas em que as ditas "forças vivas" deste país estão envolvidas.
E desculpem o meu atrevimento, mas neste conjunto das "forças vivas" incluo todas as entidades da mais alta hierarquia do poder deste país. Desde a cúpula de um presidente da República, a um chefe de Governo, a um presidente do Supremo Tribunal, a um Ministério Público, e a todos os agentes que se movem nestas instâncias. O país está envolvido numa batalha política (político-partidária), numa batalha jurídica, numa batalha de comunicação pública. Mas todas estas batalhas se cruzam. Já não vale a pena disfarçar. Os actos e os discursos públicos têm de ser por si mesmos interpretados como factos. Dispensem-me de enunciá-los.
A situação deste estado de "guerra" não é nova. Mas eclodiu gritantemente com este processo, só por ironia, designado de "Face Oculta". Obviamente que toda esta disputa entre poderes, a que o real poder financeiro e económico assiste oportunisticamente (e não é difícil adivinhar como, no actual contexto, lhe vem a calhar), não poderia ter um melhor e mais elevado motivo (permitam a força do estrangeirismo, um forte "leitmotiv") do que um cidadão primeiro-ministro, de nome José Sócrates. Com todo o respeito que tenho de ter pela figura hierárquica no Poder do Estado e pela pessoa humana de Sócrates, urge reconhecer que, neste trama, Sócrates é que está a ser tomado pelo grande "sucateiro" do regime. Ele é a "presa" perfeita para "justificar" esta pugna. O outro, os outros, os indigitados por eventual prática de corrupção quase que, no desenrolar do processo, estão a ficar na penumbra.
Não escrevo este artigo para tomar a defesa de José Sócrates. Juro que não gostaria de ter à frente do Governo um primeiro-ministro envolvido em actos de corrupção. Juro que nem quero ter à frente de um país como primeiro-ministro um cidadão suspeitadamente suspeito disto e daquilo. Mas provem. Comprovem. De uma vez por todas. Não façam desta sinuosa acusação um labéu para manter a luta político-partidária e a luta entre os vários poderes da cúpula do Estado.
Ao estado a que isto chegou , não está só em jogo o político Sócrates. É o regime. O país. Está enrolado na disputa entre os poderes dos poderes. Do político, do partidário, e até, como é óbvio, das próprias empresas que dominam ou querem dominar a Comunicação Social em Portugal. Não vale ser ingénuo, como podem insinuar, sobre um, nem sobre os outros.