Só para resistentes
Fraca afluência dominou Festival Super Bock Super Rock, no Porto. Maioria preferiu reembolso
SÉRGIO ALMEIDA
O festival que, para a maioria, acabou antes de ter começado, procurou refazer-se da tremenda desilusão que foi o cancelamento à ultima hora dos Depeche Mode. Ontem, só mesmo os fãs inveterados não faltaram à chamada.
Se dúvidas houvesse sobre o impacto que a notícia da anulação da vinda dos Depeche Mode teve nas 30 mil pessoas que adquiriram previamente o bilhete, o aspecto desolador apresentado pelo Estádio do Bessa neste Super Bock Super Rock ao final da tarde - não mais do que dezenas de corpos alinhados no tapete verde que cobria o relvado - encarregar-se-ia de as dissipar de vez. A tal ponto que a presença de elementos do ''staff" organizativo (dos seguranças ao pessoal do catering) rivalizava, a dada altura, com o número de espectadores.
Com a aproximação da noite, o cenário foi-se compondo lentamente, mas sem se aproximar jamais da lotação esgotada. Cautelosa, a organização furtou-se a revelar o número de espectadores previstos para os dois últimos concertos da noite, Xutos & Pontapés e The Gift. Certo é que, durante a actuação dos Nouvelle Vague, que terminou já depois das 22 horas, a assistência não ultrapassava as três mil almas. Em qualquer dos cenários, os números representam sempre uma descida abrupta face aos ingressos vendidos. Prevê-se, pois, uma corrida aos postos de venda já a partir de amanhã para o respectivo reembolso. Nem a hipótese de assistir aos dois dias de festivais - ontem e no próximo sábado - pelo preço de um parece ter sido alento suficiente para os desistentes.
Dos bravos que se fizeram representar, um estado de alma imperava: a resistência. Era o caso dos irmãos Alexandre e Manuel Oliveira, "veteranos" em matéria de festivais que ainda se recordam com exactidão da primeira edição do SBSR, há quinze anos, em que actuaram Faith no More, The Cure e Youssou N'Dour. "Onde há concertos, estamos lá. Não é um cancelamento qualquer que nos faz desistir", proclamou Alexandre, prontamente reiterado pelo irmão: "Na próxima semana, lá estaremos no Marés Vivas, claro". Apesar do entusiasmo, os dois irmãos não deixaram de lamentar o cancelamento dos cabeças de cartaz do festival, até porque seria "a primeira vez" que assistiriam a um concerto da banda de Dave Gahan.
Motivações diferentes estiveram na origem da vinda de um grupo de adolescentes do Porto e da Póvoa de Varzim composto pela Rosana, José, Pedro e Mauro. Fãs assumidos de festivais de Verão, adquiriram há largas semanas o "music card", um passe que dá acesso aos principais eventos musicais desta época. "Claro que foi um revés, mas o que gostamos mesmo é de festivais", afiançou o Mauro, apostando nos Nouvelle Vague como hipotéticos autores do melhor concerto da noite. Já com viagem marcada para Lisboa no próximo sábado, a fim de assistir ao segunda dia do festival, o grupo espera com impaciência pelo Festival de Paredes de Coura, "sem dúvida o melhor cartaz deste Verão", nas palavras do José.
Em circunstâncias normais, a electrónica minimal dos Motor seria susceptível de agitar as hostes. Afinal, o duo franco-americano- a segunda proposta do dia, logo após os portugueses Soapbox - protagoniza uma sonoridade no limiar do terrorismo, que bem poderia agradar à mole humana desejosa de emoções fortes. Mas nem a violência desta techno-industrial despojada de humanidade foi suficiente para sacudir da letargia os escassos presentes, provavelmente ainda a remoer o inesperado esvaziamento de importância do festival.
Os suecos Peter Bjorn and John confirmaram o que se temia, ou seja, que, exceptuando o tema trauteável que serviu de base a uma campanha de uma marca de telemóveis, são uma banda esquecível que teve o seu quinhão fugaz de celebridade warholiana.
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