Herta Mueller distinguida com o Prémio Nobel da Literatura. Escritora alemã "pinta a paisagem dos desfavorecidos", afirmou Academia Sueca
A Academia Sueca voltou a surpreender os observadores, ao escolher um nome que não figurava entre os favoritos. A alemã Herta Mueller é a terceira mulher distinguida com o Nobel da Literatura nos últimos seis anos.
A surpresa com que foi acolhida a decisão dos membros do júri pode ser facilmente demonstrada por uma notícia da Reuters, escassos minutos após o anúncio, em que era perguntado directamente quem é Herta Mueller, enunciando em seguida os factos mais relevantes do seu percurso.
A visão excessivamente anglo-saxónica da agência ajudará a explicar o desconhecimento, mas não totalmente: afinal, a autora de "O homem é um grande faisão sobre a terra" (Cotovia) e "A terra das ameixas verdes" (Difel) - os dois únicos títulos disponíveis em Portugal - está longe de ser uma figura literária conhecida do grande público, exceptuando a Europa Central.
Ao distinguir a escritora alemã de origem romena (ler caixa), o júri procurou destacar "a concentração da poesia e a franqueza da prosa" reveladas por uma escrita capaz de "pintar as paisagens dos desfavorecidos".
Se cada decisão da Academia é por norma esmiuçada à luz dos seus hipotéticos significados políticos, a deste ano não é excepção. Em plenas comemorações do 20ª aniversário da queda do Muro de Berlim, é impossível não ver no simbolismo da escolha um apelo ao diálogo intercultural no seio de uma Europa em evidente crise identitária.
"É um caso de escrita europeia. Ela saiu da Roménia antes da queda do Muro de Berlim. Dá uma imagem do que é a Europa antes disso", salientou à Lusa João Barrento, responsável pela tradução de "O homem é um grande faisão sobre a terra", que, pese embora o profundo conhecimento da cultura germânica, destacou a surpresa pela preferência da Academia por "uma escritora relativamente desconhecida".
Quando abandonou o país natal em 1985, Mueller era uma autora acossada pelo regime de Niculae Ceaucescu, cuja podridão denunciou em sucessivos livros. Mas não foi só a literatura que lhe trouxe dissabores com o regime totalitário: depois de se ter recusado a ser informadora da polícia secreta, foi despedida da fábrica onde trabalhava e perseguida pela Securitate.
Ao instalar-se em Berlim, quatro anos antes do colapso comunista, a escritora começou finalmente a ver o seu esforço reconhecido. À clara aceitação crítica seguiram-se vários galardões literários relevantes, tais como o Aspekte (1984) e, em 2005, o Prémio da Literatura de Berlim.
Pelo papel decisivo na carreira de Herta Mueller, a Alemanha exultou com o anúncio do Nobel, como se de uma autora nascida no país se tratasse. Da chanceler Angela Merkel ao ministro da Cultura, Bernd Neumann, os responsáveis políticos foram unânimes na satisfação pela notícia, que dissipa por agora as críticas ao país por uma inserção social dos emigrantes aquém do desejável.
"Berlim afirma-se uma vez mais como uma cidade da criatividade artística e intelectual internacionalmente reconhecida", proclamou o burgomestre da capital alemã, Klaus Wowerei.
Já o presidente alemão, Horst Koehler, destacou a justiça do prémio com o mérito de Mueller "escrever contra o esquecimento".
Receber o mais importante prémio literário do Mundo - no valor de 1.4 milhões de euros, a ser entregue no dia 10 de Dezembro - não foi a única boa notícia que Mueller obteve este ano. O seu mais recente romance, "Atemschaukel, é um dos grandes sucessos literários na Alemanha e deverá conhecer ainda nos próximos tempos, fora das fronteiras do país, um forte impulso de vendas com o anúncio do Nobel.
À estupefacção generalizada pelo prémio não escapou a própria autora, que veio a Portugal em duas ocasiões na década de 90 para participar em conferências na Casa Fernando Pessoa e no Instituto Goethe.
Assimilada a escolha, Herta Mueller adiantou que "quem ganhou não fui eu, foram os livros", reforçando que "estava certa de que não se passaria nada".
Para a romancista, "ter vivido 30 anos sob uma ditadura e fugir dela" foi um pormenor decisivo para o prémio e lamentou apenas a perda de "muitas pessoas que não sobreviveram ao regime".