Agnès Varda semeou sorrisos e conselhos
ISABEL PEIXOTO
Simpatia e um requintado sentido de humor acompanharam Agnès Varda, ontem, quarta-feira, na passagem por Serralves, no Porto. Figura em destaque da Festa do Cinema Francês, a realizadora deu algumas dicas aos jovens da plateia.
Na presença do decano da Sétima Arte que dá pelo nome de Manoel de Oliveira, respeitosamente tratado por "mestre", a cineasta francesa de origem belga arrancou sorrisos e risos à plateia, maioritariamente composta por jovens. E se é verdade que Oliveira não parece ter 100 anos, também Varda não aparenta os 81 que já leva: parece até que a bengala está a mais, tal é a genica com que sobe ao palco.
Jovial até no simples acto de falar, Agnès Varda lembrou a importância da fotografia no seu trabalho e desvendou a verdadeira força dos filmes: "Sabe-se o que se vê, mas tem-se uma impressão do que não se vê, como num diálogo, em que há sempre o que não se diz". Essa "parte invisível", segundo a cineasta, é depois preenchida pela sensibilidade do espectador.
A propósito do seu filme "Os respigadores e a respigadora", de 2000, Varda disse que, "quando se faz um documentário, está-se ao serviço do tema" e aproveitou para renovar o conselho que dá sempre aos estudantes de cinema e de belas artes: "É preciso recusar deixar-se formatar".
Entre as várias histórias que contou - desde a batata em forma de coração que a fez sentir ternura pelos respigadores ao filme que criou a partir da campa do seu gato Zgougou -, Agnès Varda disse que "o cinema só pode fazer-se de modo natural e orgânico". E acrescentou outros requisitos, como "liberdade na cabeça" e "ter desejo de criar". Além do público, também Manoel de Oliveira estava "encantado" com as palavras da realizadora.
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