Enquanto não ultima o próximo romance - um policial sobre a língua portuguesa, com publicação no final do ano -, José Eduardo Agualusa vai-se desdobrando em projectos.
Além da escrita de peças teatrais, letras de canções e um romance escrito em parceria com Mia Couto, acaba de publicar "Pais em nascimento" (Alfaguara), uma compilação das crónicas que escreveu há 12 anos para a revista "Pais e filhos" sobre a experiência da paternidade.
Já sabe como responder a Miguel Sousa Tavares, que, aquando do nascimento do seu primeiro filho, lhe perguntou em que sentido uma criança modifica a vida de um homem?
A relação com o tempo modifica-se. Até ao nascimento do meu primeiro filho não pensava no amanhã. Vivia para o presente. Agora penso muito no futuro, porque é lá que os meus filhos vão viver.
Como foi o confronto com crónicas escritas há uma dúzia de anos?
Um pouco estranho. Já não me reconheço neste livro enquanto alguém que o escreveu. Passou muito tempo e já me tinha esquecido por completo. Por isso, reli-o como se não me pertencesse. Se o livro tem alguma virtude é a de fazer com que os pais se identifiquem com as experiências nele relatadas, nomeadamente os medos e as inseguranças que surgem.
Ter um filho nestes tempos difíceis é uma irresponsabilidade, como afirma um amigo seu no livro?
É preciso ver a que países nos referimos quando falamos nessa conjuntura de crise. Em Portugal isso acontece, mas o Brasil e Angola, por exemplo, têm progredido economicamente. De uma forma geral os tempos são melhores hoje do que há 100 anos. E as crianças ajudam-nos a que queiramos criar tempos melhores.
Um filho devolve-nos à infância, diz. Reencontrou uma certa pureza na forma de ver as coisas?
Sim. Basta ver que podemos brincar como verdadeiras crianças sem que ninguém nos aponte o dedo. São um óptimo pretexto para voltarmos aos jogos de infância. Há ainda outro motivo: uma criança faz-nos olhar o Mundo através dos seus olhos, permitindo-nos redescobrir coisas que julgávamos esquecidas. Até sobre a língua as crianças têm esse olhar inaugural. Para um escritor, é muito importante. A liberdade criativa com que encaram as palavras é muito estimulante. Se estivermos atentos ao que dizem, descobrimos muito sobre a língua. O Manoel de Barros, um dos autores de língua portuguesa que mais tem trabalhado na renovação da língua, dizia que roubava muito aos seus filhos, simplesmente ao ouvi-los tentar falar.
A sua escrita mudou depois de ter sido pai?
O meu romance mais recente, "Barroco tropical", contém vários episódios inspirados em acontecimentos que presenciei e protagonizei enquanto pai.
Não foi um pai precoce (tinha 36 anos, na altura). Frui-se mais a paternidade quando já conhecemos um pouco mais da vida?
Haverá vantagens em termos filhos quando somos muito jovens, mas acho sinceramente que a partir de certa idade, fruto da acumulação de experiências, estamos mais preparados.
Defende no livro a tese curiosa de que Salazar teria sido diferente se fosse pai. A paternidade acentua a humanidade dos indivíduos?
É possível, claro, apresentar exemplos de ditadores que tiveram muitos filhos e nem por isso foram menos implacáveis, mas quem acompanha os filhos dificilmente se perde no passado. Os filhos prendem-nos ao presente e passamos a prestar atenção a fenómenos que nos passariam ao lado se não tivéssemos crianças.
Está envolvido numa série de projectos distintos, da organização do Pavilhão da Língua para a Bienal de São Paulo à criação de uma editora no Brasil. A escrita já não lhe é suficiente?
Esses e outros projectos nasceram de convites que não consegui declinar. Quanto à dedicação plena à escrita, depende de cada escritor. Vemos o António Lobo Antunes, por exemplo, que escreve de forma obsessiva e, por outro lado, há exemplos díspares, como o de Mia Couto, que não abdica de ser biólogo, actividade que lhe proporciona informação utilizada nos livros. Preciso do contacto com as pessoas. Agora comecei a escrever letras para músicas e é uma experiência de que estou a gostar imenso. Tal como a escrita de peças teatrais. Acima de tudo, é muito interessante ver como o que escrevemos se transforma quando há uma adaptação ao palco ou a uma canção.
Como vê a redescoberta de Angola como um El Dorado para tantos milhares de portugueses?
Angola é muito mais difícil do que se possa pensar. Luanda não é o Rio de Janeiro, cidade que se entrega imediatamente. É agreste e ruidosa, tal como o resto do país. Economicamente tem havido progressos, mas no plano político regrediu imenso. Há um ano estava convencido que o país avançava rumo a uma maior democratização. Hoje, o regime tem traços totalitários bem vincados.
Angola é uma democracia com tiques ditatoriais ou uma ditadura com características democráticas?
Não é uma democracia. Se assim fosse, as pessoas poderiam decidir livremente quem as governa, o que, após a entrada em vigor da nova constituição, não acontece. Existem jornais independentes que permitem a livre exposição de ideias e opiniões, mas tudo o resto não existe. Os partidos políticos não têm oportunidade de participar nas decisões. Há uma pessoa que detém todo o poder.
Sentiu pressões? Voltou a viver em Portugal ao fim de vários anos.
Todos os angolanos que, dentro ou fora do país, se assumem como críticos do regime, sofrem pressões de vária ordem.
O tema da ausência da liberdade de expressão voltou a estar na agenda em Portugal. Acredita que há mesmo perigo de censura?
Os portugueses acham sempre que as coisas nunca estiveram tão mal. É o nacional-taxismo. Fala-se com um taxista em Lisboa e pensamos que o país está numa situação horrorosa, o que não é o caso. Portugal nunca esteve tão bem. Até na cultura, apesar de tudo: basta comparar o actual número de bibliotecas e de leitores com os de há 20 anos. Quando vim estudar para cá, em 1980, a oferta cultural era quase nula. Os portugueses têm um olhar melancólico. Faz parte da sua natureza. Até por isso, seria importante que passassem uns dias num regime totalitário para verem as diferenças. O medo, efeito principal causado por estes regimes, distorce o carácter das pessoas.