Era, muito provavelmente, a derradeira oportunidade para o público português ver e ouvir um concerto de Leonard Cohen. Com 73 anos, temia-se que a voz estivesse em mau estado - mas os receios cedo seriam aniquilados.
Ei-lo, finalmente, fato justo no corpo elegante, o tronco curvado a fazer vénia ao público, a mão a tirar o chapéu da cabeça. Leonard Cohen num palco ao ar livre em Algés e dez mil pessoas à sua frente. Foi anteontem, à noite.
Ninguém lhe poupa os aplausos, claro, e quando Cohen liberta a primeira frase da noite - "Dance me to your beauty with a burning violin" -, há um estremecimento que nos agita os sentidos: é aquela voz, aquela única voz, a propagar o primeiro dos muitos arrepios da noite.
E ele dá-lhe com a alma e com o corpo. Não raras vezes, arqueia as pernas, ajoelha-se enquanto canta. E o público calado, pasmado, siderado, a ouvi-lo, a chorá-lo. Cedo se percebe que isto é matéria intensa.
O terramoto emocional, outra vez e sempre. "Give me back my broken night, my mirrored room, my secret life", prossegue em "The future", antes de nos cantar "Ain't no cure for love" ou a muito aplaudida "Bird on the wire".
Na assistência, há quem murmure as letras de fio a pavio enquanto os olhos fervem em lágrimas de comoção. Há, acima de tudo, um respeito imenso pelo cantor, um silêncio total, raríssimo em concertos ao ar livre, de quem ali está para absorver cada sílaba que a sua boca desprende, cada subtileza esculpida pelos músicos. Cohen apresenta-os vezes sem conta com palavras certeiras como as que dedicou ao saxofonista: "O mestre da respiração no instrumento do vento".
Isto não é um concerto qualquer e, aparentemente, não há quem se desiluda. "In my secret life" antecede uma estupenda "Who by fire" e uma não menos brilhante "That's no way to say goodbye".
Leonard Cohen anuncia um intervalo e sai do palco aos pulinhos, como uma criança acabada de chegar ao jardim infantil. Mas isto não é brincadeira alguma; muito menos música de meninos. "Well my friends are gone and my hair is grey, I ache in the places where I used to play", de "Tower of song", abre a segunda parte.
A partir daí é um abuso de deslumbre: "Suzanne", "The gipsy wife", "Hallelujah", "I'm your man", "Take this waltz", "Firts we take Manhattan", "Sisters of Mercy" ou "I tried to leave you". Há encores pelo meio, o público esmagado pela magnificência desta música enorme.
Leonard Cohen não mais deverá cá voltar. Felizardos são aqueles que testemunharam tudo isto.