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Mancha conquistada a nado

A aventura de... Miguel Arrobas

PEDRO OLAVO SIMÕES

Desde 1954 que um português não atravessava a nado o canal da Mancha. Miguel Arrobas, que aos 17 anos representou Portugal nos Jogos Olímpicos de Barcelona, cumpriu ontem o sonho.

Trinta e quatro mil e duzentos segundos, isto é, quinhentos e setenta minutos, enfim, nove horas e meia de braçadas sucessivas que levaram Miguel Arrobas de Dover à costa francesa. Assim se cumpriu o sonho de um apaixonado das águas livres, nadador olímpico em 1992, desde ontem o segundo português a fazer a travessia solitária do Canal da Mancha, no que poderá ser igualado, dentro de dias, pelo companheiro de treinos e de aventura, Nuno Vicente.

Cumprir os 34 quilómetros que vão de Shakespeare's Cliff, na costa inglesa, à zona de Calais não é, propriamente, andar por mares nunca dantes navegados, ou nadados, passe a expressão. Muitos são aqueles que, idos dos quatro cantos do Mundo, tentam cumprir a mais mítica das travessias marítimas, em solitário ou em estafeta. Alguns foram, inclusivamente, ultrapassados pelo nadador e jurista de 33 anos, no decurso de uma façanha que até ontem só havia sido conseguida por um português, Baptista Pereira, que em 1954 gastou 12.50 horas.

Já de regresso a Inglaterra, e mesmo interrompendo o sono de descanso a bordo do barco que lhe serviu de guia, Miguel Arrobas tinha na voz a excitação de quem está pronto para outra (o Estreito de Gibraltar é o desafio que se segue, havendo condições), festejando o "sonho concretizado" e a circunstância de ter estado à altura de algo que, basicamente, "é um desafio pessoal". O físico esteve bem. Sentia-se apto para muitas mais braçadas ("consegui manter sempre um ritmo muito forte", diz, o que o levou a ultrapassar o tempo de referência que levava, dez horas) . O enjoo foi, ao longo de uma travessia cumprida essencialmente de madrugada, o principal inimigo - "só consegui comer gel energético" -, a par de algum desalento que soube superar: "A dada altura, diziam-me do barco que já avistavam a costa, mas eu não acreditava. Só vi terra ao fim de oito horas e 15 minutos na água".

Também Nuno Vicente, nadador de Torres Novas e companheiro de aventuras de Miguel Arrobas, está em Inglaterra a postos para o mesmo desafio. "Sou viciado na natação. Adoro o mar e as águas abertas", explica. Só assim fazem sentido os dois anos e meio que já gastou a preparar a travessia.

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