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Clientes do BPP regressam a casa

GINA PEREIRA

Revoltados por não acederem ao seu dinheiro, ocuparam 10 dias a sede do banco. Dormiram no chão e comeram da solidariedade alheia, em luta pelas poupanças.

Entraram à força e estiveram 10 dias na sede do Banco Privado Português (BPP), em Lisboa. Mas, ontem à tarde, acabaram por decidir suspender o protesto, apesar de manterem a "raiva" e a "revolta" por terem visto desaparecer, de um dia para o outro, as "poupanças de uma vida". Durante 10 dias, circularam pelas divisões do rés-do-chão do palacete como se estivessem em sua casa.

Os clientes em protesto - o número variava consoante as disponibilidades, horas e dias da semana - entravam e saíam do banco quando lhes apetecia, para ir comer ou fumar. Alguns concentravam-se à porta, junto dos cartazes que dão eco à sua indignação. Outros, sobretudo as mulheres e os mais velhos (a maioria das pessoas está acima dos 60 anos), preferiam abrigar-se do Sol e passavam horas a fio sentados no veludo das poltronas e cadeiras à volta da mesa da sala de reuniões, transformada em sala de estar. Na mesa, garrafas de água e bolachas para matar a fome e a sede.

As conversas giravam sempre em torno da "desgraça" que lhes caiu em cima. Pela televisão, sintonizada em canais de notícias - apesar de alguns se mostrarem já cansados da informação repetida à exaustão - esperaram receber uma notícia que lhes desse alento, que mostrasse que haverá "justiça".

"Quero acreditar que as pessoas têm coração e que, em alguma altura, se vão conseguir colocar no lugar dos clientes. Os clientes foram traídos e a traição não pode passar impune". As palavras de Albina Loureiro, 44 anos, residente no Porto, são para o ministro das Finanças, a quem os clientes acusam de estar a ser "conivente" com a "burla" de que alegam ser vítimas e de ter "dois pesos e duas medidas" para uma situação "em tudo idêntica à do BPN".

"Eu não meti o meu dinheiro numa 'Dona Branca'! Eu meti o meu dinheiro num banco, com credibilidade, ligado ao Banco de Portugal". Maria do Céu Machado, 58 anos, dona de uma joalharia no Porto, não cala a dor que lhe vai dentro. "Isto é um desastre. Vai ter um fim trágico", vaticina, incomodada com o facto de "lá fora, dizerem que este é um banco de ricos e que nós somos investidores. Não é verdade".

Todos garantem que, quando depositaram o dinheiro no BPP, lhes disseram que estavam a subscrever depósitos a prazo, com retorno garantido, e nunca produtos de risco. E negam que alguma vez o quisessem. "Como é que eu, um aforrista, ia pôr em risco uma poupança de 20 anos?", clama Artur Barreto, 63 anos, emigrante na África do Sul, Rodésia, Venezuela e Estados Unidos. Garante que as taxas de juro eram apenas "um pouco mais altas" do que as dos outros bancos e acusa os comerciais do BPP de estarem "instruídos para vigarizar os clientes".

Na última semana, Artur Barreto só foi dormir uma noite a casa, no Montijo, para poder tomar banho. Nos outros dias, dormitou pelas cadeiras e no colchão insuflável que alguém trouxe para o banco e onde os sonos se revezavam. Responsabiliza o Governo e a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários pelo drama que estão a viver e admite que, há dias, a sua raiva esteve a muito pouco de se transformar numa agressão a Teixeira dos Santos: "Eles não têm o direito de estragar uma vida de poupanças que eu consegui com muito suor e lágrimas".

Antes desconhecidos, agora os clientes do BPP, metidos à força no mesmo barco, quase parecem amigos de longa data. Durante o protesto, traziam bolos e fruta para partilhar e até a filha de uma cliente, que mora perto, fazia todos os dias uma panela de sopa para o jantar.

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