Coimbra, 23 Fev (Lusa) - A descoberta de estruturas do antigo Convento de S. Domingos, do século XIII, em Coimbra, forçou a empresa que construía aí um parque de estacionamento a acumular prejuízos e a pôr em risco a viabilidade do empreendimento.
Há mais de meio ano que as obras na Avenida Fernão de Magalhães, uma das mais frequentadas artérias, na Baixa de Coimbra, se encontram praticamente paradas, já com "centenas de milhares de euros de prejuízo", devido aos encargos bancários e com a empresa contratada para executar a empreitada.
"Está em causa toda a sustentabilidade do projecto", declarou à agência Lusa José Gonçalves, um dos quatro sócios-gerentes da empresa promotora, que um dia decidiram adquirir uma antiga estação de serviço, abrir uma cratera entre prédios e construir um parque de estacionamento com cinco pisos abaixo do solo, e um edifício para habitação e serviços.
As obras, que se iniciaram em 2007, implicando um investimento de 3 milhões de euros, há mais de um ano que entraram num ritmo lento devido aos necessários trabalhos arqueológicos, numa obra complexa, a obrigar a constante bombagem de água que aí emerge.
Para construir os cinco pisos de estacionamento abaixo do solo é necessário escavar a 14-15 metros de profundidade, cerca de 10 metros abaixo do leito freático do rio Mondego.
As estruturas de antigas construções foram encontradas a 10 metros de profundidade, e os trabalhos arqueológicos irão desenvolver-se em mais cerca de quatro metros, explicou.
Segundo José Gonçalves, o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) já decidiu que os achados não têm condições para ser preservados, devido ao contexto em que aparecem, no entanto vai obrigar a que prossigam, ainda sem fim à vista, os trabalhos arqueológicos e as estruturas aí surgidas.
"Trata-se de uma parte periférica dos alicerces do que se pensa ser o antigo Convento de S. Domingos", referiu o mesmo sócio do empreendimento, acrescentando que até agora foram aí encontrados pedaços de cerâmica, alfinetes e moedas, cuja datação disse desconhecer.
Mário Nunes, historiador e vereador da cultura na Câmara de Coimbra, disse à agência Lusa que os achados encontrados "são importantes, do ponto de vista arquitectónico, histórico, religioso e social".
"Identifica-se um pedaço da história de Coimbra", frisou, acrescentando que a preservação desses achados "seria o ideal, mas para ficarem à vista os investimentos seriam avultados", exigindo ainda "técnicas avançadas", e o contexto em que surgem "podem implicar os edifícios à volta".
Os trabalhos que levaram à descoberta das estruturas do antigo convento na cratera cavada no solo, segundo José Gonçalves, obrigaram à criação de estruturas temporárias para a sustentação dos edifícios vizinhos, e a uma monitorização permanente da sua estabilidade.
"Uma intervenção de preservação daqueles vestígios seria despropositada pelos riscos e custos que implicaria. Deu-se autorização para a obra continuar", refere o jornal Público na sua edição de hoje, citando declarações de um responsável do IGESPAR, João Cunha Ribeiro.
Para Mário Nunes, não sendo possível preservar os achados, far-se-a "o registo para a posteridade", das estruturas do antigo Convento de S. Domingos, cuja localização exacta se desconhecia, e que teria sido gradualmente tragado pelas águas com o assoreamento do Rio Mondego.
No século XVI esses monges da Ordem Dominicana trasladaram o convento para a Rua da Sofia, que no século XX foi desmantelado para aí surgir um centro comercial. A Capela do Tesoureiro, da igreja desse convento, uma obra do escultor João de Ruão (século XVI), foi trasladada para o Museu Machado de Castro, onde se encontra montada.
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