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* A história das coisas * Para os beijos e para a chuva

Quando o guarda-chuva chegou à Península Ibérica, no século XVIII, tinha atrás de si uma história de 3000 anos. Os chineses, seus inventores, tinham-no utilizado como objecto de ritual da corte e a um fim semelhante àquele a que o haviam destinado os egípcios. Entre estes, o portador do guarda-chuva gozava de grande influência junto do faraó. Na Grécia clássica, só as mulheres podiam utilizar esse objecto. Na Europa medieval, foi completamente ignorado, tendo sido os espanhóis os primeiros a ver guarda-chuvas, em finais daquele período, se bem que, não na Europa, mas, sim, no México. Aí, os nobres aztecas passeavam-se com os guarda-chuvas pela cidade de Tenochtitlan, perante os olhos assombrados de Hernán Cortês. Mais tarde, os ingleses puderam também constatar o uso do guarda-chuva nas colónias americanas do Norte. Os índios, por exemplo, costumavam agredir-se uns aos outros com eles quando, após uma cerimónia, surgia alguma divergência ou contratempo entre os seus chefes. A Inglaterra foi o primeiro país europeu a utilizar o guarda-chuva correctamente: para se proteger da chuva. Esse uso só se generalizou no século XVIII. Para a aceitação do guarda-chuva, houve uma importante e excêntrica personagem da pequena nobreza que teve um papel importante. Foi Jonas Hongway, verdadeiro apóstolo do guarda-chuva. O homem conhecera esse objecto na Rússia. Passou a apreciar de tal modo o seu uso que nunca mais o largou. Apresentava-se de guarda-chuva na mão, quer nos círculos elegantes quer nos bairros operários, sempre alheio aos assobios e insultos dos vândalos da rua, e sem prestar atenção aos protestos dos cocheiros que viam no guarda-chuva uma obscura ameaça. De tudo se defendia o elegante senhor Hongway, brandindo o guarda-chuva e gritando como um iluminado: "Deixem passar os novos tempos..." O guarda-chuva teve, no entanto, uma aceitação reduzida, a princípio, em virtude de as rígidas varetas de cana de que era dotado obrigarem a que tivesse de se manter sempre aberto. Quando Jean Maris inventou o guarda-chuva dobrável, em 1805, as coisas melhoraram. No entanto, em França, esse objecto continuou a ser um mero sinal exterior de prestígio e ninguém pensava em proteger-se da chuva com ele. Limitou-se a ocupar o lugar anteriormente reservado à bengala e, antes desta, à espada, já que o abandono desses dois objectos coincidiu no tempo. Os oficiais ingleses tornaram-se, no entanto, uns grandes apreciadores do guarda-chuva, a tal ponto que o duque de Wellington teve de proibir que o levassem para a guerra, em 1818. Em Espanha, mereceu um bom acolhimento, porque chegava com uma auréola que lhe dava o cunho de objecto de desejo dos cavalheiros elegantes, que com ele se passeavam na corte. Há uma zarzuela onde se canta: "À sombra de uma sombrinha de renda e seda com voz mui queda canta o amor. À sombra de uma sombrinha são ideais os ideais a meia-voz." Quer as sombrinhas quer os guarda-chuvas foram armas a favor dos apaixonados. Quantos beijos foram roubados sob as asas destes morcegos, como Kamón Gómez de la Serna chamou ao guarda-chuva, numa dos suas escritos. Quantos beijos de amor amparou sob os pórticos das praças castelhanas, nos dias chuvosos... É que, a princípio, ninguém vislumbrava outro uso que pudesse ser dado ao guarda-chuva, a não ser para a protecção dos casais a beijarem-se, ou para proteger dos raios de Sol a pele branca das damas...

Editorial Notícias

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