Crianças em risco fazem vender muitos jornais
Direito à informação versus direitos dos menores em debate no Porto
HELENA NORTE
De quase seis mil textos jornalísticos sobre crianças, publicados em 2008 em quatro jornais portugueses, 65% referiam-se a menores em risco. Conclusão: as crianças são "âncoras emotivas" que vendem muitos jornais.
Exemplos desta realidade não faltam: Joana, Maddie, Alexandra, só para citar alguns. Todos os conhecemos, até pelo nome e, nalguns casos, vimos a sua imagem escancarada nos telejornais e nas primeiras páginas da imprensa.
O direito à informação versus os direitos da criança, como a protecção da sua privacidade, esteve em debate, ontem, num seminário que decorreu, na Fundação António Cupertino de Miranda (Porto), por iniciativa da Comissão Nacional de Protecção das Crianças e Jovens em Risco.
Quando a identificação não é directa - como no caso Esmeralda, em que a imagem do seu rosto foi preservada - a verdade é que foram fornecidos todos os elementos que facilmente tornam a criança reconhecível, desde a imagem dos adultos que a disputavam, ao local onde vivia, à escola que frequentava.
Este tipo de identificação indirecta é também um atentado ao direito à privacidade das crianças, sublinhou Lídia Maropo. A investigadora do Centro de Investigação Media e Jornalismo falou da dualidade de critérios aplicados às "nossas" crianças e às "outras", patente na divulgação massiva da imagem e de todos os pormenores do caso Alexandra, e da diferença de tratamento em função do estrato sócio-económico. A internet introduziu uma nova agravante: os efeitos da exposição mediática agora não têm fronteiras.
Se há disparidades no tratamento jornalístico dado às notícias que envolvem menores, a imagem projectada é também dicotómica: ou são vítimas ou são delinquentes, conclui Sara Pereira, investigadora da Universidade do Minho, a realizar um estudo sobre as representações das crianças e jovens nos média.
Prova disso é que, em 2043 das 5929 peças jornalísticas analisadas, a criança aparece associada a problemáticas de justiça e protecção e em 832 a situações em que provocou distúrbios.
Pedro Mourão, presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, denunciou o facto de "grande parte dos jovens jornalistas desconhecer as regras deontológicas básicas", como a proibição de identificar as vítimas de todo o tipo de crime e abuso, em quaisquer circunstâncias.
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