Novo Governo equipado para tempos difíceis
Estratégia Governo tem de gerir conflitualidade social e parlamentar
PAULO MARTINS E ANA PAULA CORREIA
Adão e Silva valoriza a vertente política - acredita que há áreas em que Governo e Oposiçao podem estabelecer consensos. Já Meirinho Martins admite que o principal problema pode residir na conflitualidade social. As visões de dois politólogos.
Equipado para tempos difíceis, dada a ausência de maioria absoluta e a situação de crise económica, o novo Governo de José Sócrates terá de traçar uma estratégia que lhe permita fazer vingar as suas propostas, em sede parlamentar, atenuando, em simultâneo, a conflitualidade social.
Para Pedro Adão e Silva, são três as áreas "dificilmente negociáveis para o Governo". A saber: as alterações às regras de atribuição do subsídio de desemprego, a convergência das pensões com o salário mínimo e a suspensão do regime de avaliação de professores. Neste caso, o politólogo vaticina que o Governo terá de acabar por ceder, o que, na sua opinião, "seria um recuo excessivo". Disponível, porém, está a possibilidade de passar o ónus para o Parlamento, sempre que experimentar dificuldades na aplicação das medidas que defende.
Em contraponto, Adão e Silva identifica áreas de consenso, negociáveis à Direita e à Esquerda. Será o caso de uma reforma fiscal que dê respostas sociais. "A estratégia de Sócrates poderá ser a de optar por avançar rapidamente para o casamento entre homossexuais para arranjar uma 'almofada' à Esquerda (e com parte do PSD), que lhe permita, a seguir, compromissos com a Direita, por exemplo na área económica".
Outro politólogo, Meirinho Martins, sustenta que o elenco ministerial revela a intenção do primeiro-ministro de não se afastar do rumo que traçou, em declarações públicas após a auscultação aos partidos.
Segundo Meirinho, o Governo está sujeito a uma "dupla pressão" - da Oposição e das corporações. Na sua óptica, porém, a conflitualidade social constitui um risco maior do que a frente institucional. "O principal problema é se os partidos jogam no terreno da conflitualidade social, cavalgando o descontentamento, como aconteceu com a avaliação de professores".
Os partidos da Oposição "estão manietados: nos próximos dois anos, ninguém arrisca fazer cair o Governo", diz. Como a situação é "altamente favorável do ponto de vista da condução da política governativa", Sócrates "não vai baixar a guarda".
É tendo em conta esta leitura que Meirinho identifica um "Governo duplo". Assente, por um lado, nas áreas das Finanças e Economia - entregues a gente de confiança política do primeiro-ministro, "que não mudará ao sabor de pressões" - e, por outro, em sectores onde é preciso aliviar a pressão social, como Educação e Saúde, que no passado recente tantas dores de cabeça causaram a Sócrates.
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