"Estou com muitas fezes", disse a paciente. Comentário da médica: "Ainda bem que consegue ir à casa de banho". O reparo deixou-a de boca aberta: "Doutora, não é isso! Estou muito preocupada".
O diálogo, travado no Serviço de Urgência do Hospital de Beja, envolveu Raluca Saramet, jovem clínica de 28 anos, natural da Roménia, há três anos em Portugal, o último dos quais na cidade alentejana. Raluca nunca mais esqueceu o episódio. "No Alentejo, há expressões que me fazem muita confusão", admite a cirurgiã, para quem a língua portuguesa não é problema. Afinal, foi um dos 14 médicos estrangeiros que "passou no exame da língua" para poder trabalhar cá.
A opção por Portugal deve-se ao facto de em 2005 ter estudado em solo luso, ao abrigo do programa Erasmus. Raluca conta que quando surgem na urgência doentes romenos, é ela quem traduz. Se os doentes não percebem os médicos, Raluca explica pacientemente e acaba por fazer-se entender. Mas na cozinha só usa azeite, porque não consegue pronunciar a palavra óleo. Nem gasóleo, pelo que é o namorado quem atesta o automóvel.
Além do português, o romeno, o russo e o espanhol, são idiomas muito ouvidos no Hospital de Beja, em especial na Urgência. Ilete Esperança, uma das doentes que aguarda na sala de espera, afirma-se "muito satisfeita" com a presença de médicos estrangeiros. "Somos bem atendidos, são muito cordiais", assegura. Com a voz afectada devido à radioterapia, Ilete diz que quando há alguma dificuldade "pedem-nos para falar devagar". Como os médicos também falam, "todos nos percebemos".
Emília Cravinho, natural de Figueira de Cavaleiros (Ferreira do Alentejo), convive há um ano com a língua estrangeira, já que a sua médica de família é cubana. "Pergunta sempre se tenho alguma dúvida, por causa da língua, e explica". Por isso, quando se desloca ao hospital, não lhe causa "estranheza" a presença de estrangeiros. "Eu e o meu marido já estamos habituados", remata.