Os utentes da unidade de saúde familiar de Torre de Dona Chama já não estranham a presença da moldava Sílvia Setpu, de 34 anos, no gabinete. No início, quando os doentes eram informados da presença da nova médica, estrangeira, temiam que a língua fosse uma barreira ao entendimento, mas o receio só subsiste até à entrada no consultório.
Sílvia Setpu fala um português quase perfeito, com ligeiro sotaque. "Na primeira consulta de um casal, a esposa, passados uns minutos, até disse ao marido: 'Estás ver como ela é portuguesa, eu bem te dizia!", conta a médica, que faz serviço em Torre de Dona Chama há três meses, mas vive em Portugal há seis anos.
A preocupação com a língua foi uma constante desde que imigrou. A assimilação não se tem revelado difícil, porque aprende com os dois filhos, ambos em idade escolar. "Eles são umas verdadeiras esponjas, aprendem rapidamente", conta. Tem consciência de que lida bem com os utentes. "Eu gosto deles e eles de mim. Na primeira consulta, noto que têm receio, porque sou estrangeira, mas depois dizem que estão contentes e querem ser meus utentes", acrescenta. Isso mesmo confirmam os doentes. "É simpática e atenciosa", garantem Maria Silva, 70 anos, e Mário Gomes, 78 anos.
A maior parte dos utentes de Sílvia Setpu são idosos, com patologias associadas à idade. "É uma faixa da população muito carente, mas são muito queridos e simpáticos", assegura. População característica de uma pequena e siolada vila do interior profundo, mesmo no contexto do distrito de Bragança.
Quando veio com o marido para Portugal, a adaptação da médica moldava foi difícil. "Da primeira vez, não estávamos legalizados. Chegámos sem nada. Começámos a trabalhar na agricultura, no Algarve, mudamos de emprego várias vezes. As coisas começaram a correr melhor quando tivemos a oportunidade de fazer a equivalência".