O pároco foi interrogado durante quase oito horas pelo magistrado do tribunal de Boticas. Fica proibido de comprar e usar armas e obrigado a apresentar-se periodicamente às autoridades.
O padre de Covas, detido, anteontem, por posse ilegal de armas, vai aguardar julgamento em liberdade, mas fica sujeito a apresentações periódicas e inibido de comprar e usar armas. Foi ouvido durante quase oito horas.
Levantou-se às seis da manhã, apanhou a carreira das sete, tirou as fotocópias que tinha que tirar e, às 14 horas em ponto, estava no Tribunal de Boticas. De nada lhe adiantou o esforço. Pouco antes das 19 horas, à hora do último autocarro para a sua aldeia, viu-se obrigado a ir embora sem satisfazer a curiosidade que o levou a estar toda à tarde em frente ao tribunal.
O morador de Alturas do Barroso foi uma das cerca de três dezenas de pessoas que, ontem, se concentraram junto ao Tribunal de Boticas para assistir à chegada do padre Fernando Guerra, detido, anteontem, pelo Núcleo de Investigação Criminal de da GNR de Chaves, por posse ilegal de armas. Ontem, depois de um longo interrogatório, que só terminou já passava das 22 horas, foram--lhe aplicadas como medidas de coacção apresentações periódicas no posto da GNR local e a inibição de comprar e usar armas de fogo.
O pároco foi surpreendido pelos guardas na sacristia da igreja de Covas de Barroso, quando tirava os paramentos. As armas, três pistolas carregadas, três caçadeiras e cerca de um milhar de munições, foram-lhe apreendidas em casa. Na mesma operação, foram detidos mais três homens da aldeia vizinha de Campos, a quem foram apreendidas mais dez armas. Foi-lhes aplicada a mesma medida de coacção que ao padre.
Visita do presidente
O pároco pernoitou no posto da GNR, onde, durante a manhã, recebeu a visita do presidente da Câmara, Fernando Campos. Entrou no Tribunal cerca das 14 horas. Aparentemente calmo. E nem mesmo perante o aparato mediático que se encontrava no local evidenciou alguma reacção.
Os curiosos que se aproximaram da entrada do Tribunal, acompanhavam-no com o olhar, calados. João Barreto, de Couto de Dornelas, antiga paróquia de Fernando Guerra, foi a excepção. Chegou a correr, com medo de perder a entrada do pároco e gritou: "Pistoleiro, pistoleiro. Agora é que se vê quem dava tiros". Fernando Guerra terá acusado João Barreto de ter tentado matá-lo, em Julho de 2005.
A maioria estava contra o padre. "Só é de lamentar que tenha sido agora", criticava um paroquiano de Covas do Barroso. "Ele já quando dava aulas no ciclo, limpava as armas e contava dinheiro à frente dos alunos. Isto é que é um pregador de moral?", questionava um septuagenário de Alturas do Barroso.
Mas também havia quem o defendesse. "Eu só tenho a dizer bem. Era um homem que no altar metia respeito", garantia um paroquiano de Viveiro.
"Pode ser o vício da caça no clero"
Para já, a detenção do padre Fernando Guerra por posse ilegal de armas não terá consequência na Igreja Católica. Ao JN, o bispo da Diocese de Vila Real, Joaquim Gonçalves, disse que jurisprudência canónica também "defende o réu até haver condenação". "Se ficar detido muito tempo teremos que garantir a assistência religiosa ao povo", explicou. Confrontado com o número de armas que o pároco guardava, D. Joaquim lembrou que não se está perante um "arsenal" e referiu que admite a "hipótese" de as armas estarem ligadas "ao vício da caça entre o clero". "Admito que, embora sendo ilegal, ajudasse a fornecer os que caçam. É ilegal, não é bonito, mas, nesse contexto, é humanamente compreensível", frisou o bispo. "Se for além desse fornecimento para caça e se se estiver perante um caso de terrorismo ou de uso para violência, aí o caso é sério e merece ponderação".