Casamentos "brancos" com 116 arguidos
Investigadas ligações a Espanha. Megaprocesso temido
CARLOS VARELA
O processo dos "casamentos brancos", feitos a partir da Conservatória de Gondomar, já tem 116 arguidos e as autoridades estão ainda a tentar encontrar ligações entre a presumível rede detectada em Portugal e uma outra descoberta em Múrcia, Espanha, soube o JN.
Em causa está a presumível existência de uma rede, composta por paquistaneses e portugueses, que organizava casamentos fictícios com mulheres portuguesas, na maioria prostitutas, para facilitar a legalização de indivíduos no nosso país, que assim poderiam também aceder livremente ao espaço da UE.
No entanto, o número de arguidos já está a levantar preocupações junto de alguns sectores judiciais, que receiam que o processo venha a transformar-se em mais um megaprocesso do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), o organismo do Ministério Público que detém a titularidade do inquérito.
As investigações estão a cargo da Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo (UNCT), que em Janeiro deste ano fez doze detenções, entre as quais a conservadora de Gondomar e o marido, além de um funcionário da segurança social e três irmãos paquistaneses. Actualmente, estão em preventiva os três paquistaneses assim como o funcionário da Segurança Social, enquanto a conservadora está proibida de exercer cargos públicos. As investigações dão conta da realização de mais de 300 casamentos em 2008, a troco do pagamento de dez mil euros a cada "noivo".
Mas as suspeitas de ligações ao sistema de financiamento do terrorismo, associado à origem ao processo, aberto em 2005, já terá caído, uma vez que as peritagens às contas dos arguidos paquistaneses apenas revelaram a aquisição de imóveis no Paquistão e a ajuda financeira a familiares que se encontram naquele país.
Um dos detidos paquistaneses, tido como o líder da rede, tem sustentado às autoridades que nunca teve qualquer ligação à conservadora de Gondomar. Um dos pontos cruciais da investigação são as deslocações a Espanha, para tentar estabelecer as ligações ao país vizinho, mas não tem sido fácil consubstanciar em provas as suspeitas.
Em Fevereiro as autoridades espanholas realizaram uma operação, em Múrcia, que levou à detenção de cinco indivíduos asiáticos e uma portuguesa. A rede espanhola preparava os trâmites administrativos para a realização dos casamentos em Portugal, eventualmente também em Gondomar, mas não é ainda claro que possa haver ligações entre as duas redes ou se, pelo contrário, haverá uma outra rede a operar no nosso país, essa sim bem mais importante.
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