Presidente anunciou que irá recandidatar-se para "ganhar". PS exige demissão imediata
Valentim Loureiro não comentou a perda de mandato que decorre da pena a que foi condenado. Mas assegurou que irá ganhar as próximas autárquicas e mostrou-se satisfeito por não se ter provado o crime de corrupção de que era acusado.
Não foi fácil encontrar, em Gondomar, quem acedesse a comentar o desfecho do caso Apito Dourado. "Em off digo-lhe o que penso. Caso contrário podia ser complicado para o negócio", afirmou, ao JN, um comerciante estabelecido no centro da cidade.
Francisco Barbeiro, no entanto, aceitou dar o nome mas não a cara. "Ao longo destes mais de três anos de processo gastaram-se rios de dinheiro e, no fim, tudo se traduziu em penas suspensas. Pensei que a punição fosse exemplar pois o futebol necessita de um abanão bem forte. Todos os dias eram divulgadas notícias sobre o processo e no fim foi o que se viu. Fiquei desiludido", confessou Francisco Barbeiro.
Para o nosso interlocutor, esta foi uma "oportunidade perdida", embora tenha ficado "surpreendido com a perda de mandato".
Opinião semelhante foi expressa por Tiago Fernandes, que mora no Porto mas trabalha em Gondomar. "Fez-se tanto alarido à volta do caso e no fim a montanha pariu um rato. Deveriam ter aprofundado mais o caso. Há ali muitas ligações estranhas e assim parece que os grandes nunca são castigados. Se fosse um de nós a ser julgado tínha ficado logo preso", afirmou o nosso interlocutor.
José António Loureiro, que confessou imediatamente a sua antipatia por Valentim Loureiro, considerou que a pena foi "demasiado branda". "Passam-se aqui muitas coisas esquisitas e esdta gente nunca é culpada de nada", referiu.
"Pouca vergonha" foi como Conceição Machado, residente em Jovim, qualificou o desfecho do julgamento. "Tanto barulho se fez e não deu em nada. Se fosse uma pessoa mais coitadinha tinha ficado presa", considerou, revelando uma profunda descrença na Justiça.
Conceição Machado, um olho no jornalista outro na camioneta que teimava em chegar, indignouse porque "ele [Valentim Loureiro] ainda por cima vai candidatar-se e ganha outra vez". "Está bem que ele ainda fez alguma coisa por Gondomar, mas saiu do tribunal a rir-se, como se nada fosse. Os mundos da política e do futebol andam misturados e isso não dá bom resultado ", sublinhou Conceição Machado.
Maria Mendes, também de Jovim, comparou o processo Apito Dourado com o caso Casa Pia. "Tanto barulho se fez, tanta coisa se escreveu e não deu em nada, tanto num caso como no outro. Isto está bom é para os grandes", afirmou.
O cenário de perda de mandato, no entanto, só se concretizará após a sentença transitar em julgado. O presidente da Câmara de Gondomar, falando à saída do tribunal, considerou ser "incrível que um trabalho em que beneficiei a autarquia fosse considerado como abuso de poder ".
"Os gondomarenses não têm que se envergonhar do que faz o seu presidente. Tenho a certeza que irei ser candidato nas próximas eleições e que vou ganhar. Tenho a consciência de não ter crime ", afirmou Valentim Loureiro.
O autarca, que foi condenado por abuso de poder e prevaricação, estava acusado de ter anulado uma adjudicação em favor da empresa do filho de um amigo, a quem o Tribunal condenou pelo crime de prevaricação. "É mentira. Tudo o que foi dito no tribunal e o que foi ouvido nas escutas não prova nada disso. Vamos continuar cá contra tudo e contra todos", referiu.
O artigo 29º da Lei nº 34/87, de 16 de Julho, sobre crimes da responsabilidade de titulares de cargos políticos, determina a perda do mandato como efeito da condenação definitiva por crime cometido no exercício das suas funções por membro de órgão representativo de autarquia local, com é o caso de Valentim Loureiro.
Para o PS de Gondomar Valentim Loureiro já não tem "condições para se manter à frente da autarquia" e deve demitir-se imediatamente.
"Já tínhamos pedido a suspenso do mandato no início do processo. Agora, ele e o vice presidente [José Luís Oliveira] foram condenados e severamente. Sabemos que ele vai recorrer até onde puder, mas a sentença é clara", defendeu, ao JN, Arménio Martins, presidente da Comissão Política Concelhia do PS de Gondoar.
Para os socialistas o concelho "está ingovernável" e Valentim Loureiro "abusou da confiança que os gondomarenses nele depositaram". "A Justiça funcionou. Ele pôde defender-se quando quis, mas optou por não o fazer durante o julgamento. Isto agora é a fuga para a frente. Não podemos ter à frente dos destinos da autarquia pessoas que a Justiça condenou pelos crimes de abuso de poder e de prevaricação", sublinhou Arménio Martins.
O PS não defende eleições intercalares e o presidente da concelhia afirmou que a lista de Valentim Loureiro "tem muita gente e gente séria". "No caso do crime de prevaricação é curioso constatar que Leonel Viana, antigo vereador, responsável pelo pelouro na Câmara de Gondomar [e líder do PSD local], era acusado pelo mesmo crime e foi absolvido", destacou Arménio Martins.
Leonel Viana, por seu lado, não se quis pronunciar sobre a possível perda de mandato de Valentim Loureiro. "Temos de tomar uma posição colectiva e a seu tempo falaremos", referiu ao JN.