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Contratadas lesadas por engravidar

Circular contraria incentivo à maternidade. Contratos de trabalho recusados em período de licença de parto

HELENA TEIXEIRA DA SILVA

No momento em que José Sócrates anunciava novos incentivos à maternidade, o Ministério das Finanças divulgava uma circular que limita o direito das mulheres a renovar contratos a prazo durante o período de gozo da licença de maternidade.

Eva é professora contratada há oito anos, tantos quantos adiou o sonho de ser mãe. Julgando-se protegida pelas novas medidas do Governo, decidiu engravidar. O filho tem agora dois meses; ela usufrui, actualmente, do segundo dos cinco meses de licença de maternidade a que tem direito. Mas a situação, afinal, é incompatível. Resultado: perdeu o lugar na escola onde havia sido colocada.

"Se quisesse trabalhar, teria de renunciar à licença de maternidade. Para ficar com o meu filho, fiquei sem a colocação", explica numa carta que endereçou ao grupo parlamentar do CDS-PP.

O deputado centrista Pedro Mota Soares já enviou um requerimento ao Ministério das Finanças a questionar "como é possível que alguém seja lesado por estar a usufruir de um direito social". E exige saber quando é que esta situação, caucionada por uma circular (n.º 1 /DGAEP/DGO/2008) que considera "inconstitucional", será corrigida. "É uma interpretação aberrante da lei, uma vez que é prejudicial e paradoxal. Obriga as pessoas a optarem entre a carreira profissional e a vida pessoal, o que demonstra a falta de sentido global das medidas anunciadas por este Executivo", critica. O JN tentou também obter esclarecimentos por parte da tutela, mas não obteve resposta.

Para Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional de Professores (FenProf), a situação "além de perversa", ilustra "a perspectiva economicista deste Governo, que recusa contratar, temporariamente, dois professores - o que está de licença e o que o substitui - para o mesmo lugar". E insiste, também, na "duvidosa constitucionalidade da circular ".

Bettencourt Picanço, do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado(STE), admite não ter conhecimento de nenhum caso concreto, mas condena igualmente "a ilegalidade da circular que contraria as disposições legais que protegem o direito à maternidade".

A legislação é clara: no momento de assinar o contrato de trabalho, a docente deve estar em condições de o exercer. Se não estiver, não o pode aceitar. A lei é extensível à administração pública.

"Mas os professores são os mais prejudicados", volta Mário Nogueira. "Numa segunda fase de concurso, a docente lesada pode não conseguir colocação, ficando desempregada. Se for colocada, pode não ter horário completo ou para o ano lectivo inteiro. Ou pode ficar colocada numa escola cuja distância não a favoreça".

A situação é ainda mais grave, acentua, "porque prevê três cenários distintos que redundam num quadro de extrema desigualdade". Além do exemplo descrito, em que a mulher, apesar de tudo, pode escolher abdicar dos seus direitos, existe um caso em que ela não tem alternativa. "Se a licença de maternidade estiver dentro das seis semanas obrigatórias por lei, a mulher nem sequer tem direito de opção. Pelo contrário, se iniciar a licença no dia seguinte a assinar o contrato, já não perde o trabalho nem a licença. Isto significa que as professoras têm de fazer contas para que a licença não coincida com a assinatura do contrato".

Recusando comentar o caso concreto, Luís Fábrica, especialista em Direito Administrativo, afirma "não estar convencido de que a circular seja inconstitucional". Explica que "o Direito Constitucional pretende equilibrar dois interesses conflituantes, ambos legítimos, o que dificulta a decisão". O jurista sublinha que "nunca há uma única solução e que é preciso apurar quem acarreta as consequências do facto - no caso, a licença de maternidade - mas, em princípio, será quem o protagoniza: ou seja, a mulher que engravida".

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Comentários
10 Comentários

 
 
     
 
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05.09.2008
13:57
Portugal
Esta situação é o cúmulo! Já não basta ser contratada durante 9 anos seguidos, agora ainda tenho que fazer contas para quando decidir ser mãe usufruir dos direitos sociais, que pelos vistos só beneficiam uma elite... Como é isto possível num país cada vez mais envelhecido? Por que razão o governo não adopta também no campo do apoio à maternidade, o tão aclamado modelo finlandês? Como é que uma circular com estas implicações é levada avante e nao se ouve contestação, dos sindicatos, oposição, juristas, sei lá mais quem? Como é possível o concurso para professores ter ocorrido no início do ano e meses depois sai uma circular que muda as regras, e muito provavelmente mudaria a forma de concorrer de muita gente? Como é possível no mesmo dia, eu receber no meu mail uma mensagem a dizer que Marques Mendes aos 50 anos de idade e com 20 anos de descontos como Deputado, acaba de requerer a Pensão a que tem direito, no valor mensal vitalício de 2.905 euros mensais, e ao mesmo tempo, receber outra mensagem com este artigo, do qual concluo que o Estado vai economizar à custa das grávidas contratadas deste país? É esta a distribuição justa do dinheiro dos contribuintes? Quem souber a resposta que me diga, porque eu estou demasiado desiludida com o rumo que Portugal está a ter para sequer pensar com lucidez... Faço ainda um apelo aos meios de comunicação social, divulguem menos as "novas oportunidades" e os portáteis a baixos custos, e deêm mais importância a estas circulares que são aprovadas em pleno mês de agosto (vá-se lá saber porquê) e constituem um atentado aos direitos da mulher e de ser mãe.

 
 
 
05.09.2008
13:45
United Kingdom
o sistema de colocacao de professores por concurso publico é ridiculo, moroso, complicado e ultrapassado. Aqui em Inglaterra (o exemplo que eu conheco visto que a minha esposa é professora do secundario) o sistema é completamente diferente e funciona como qualquer empresa, apesar do vinculo ao estado. um professor simplesmente candidata-se a uma escola, vai a uma entrevista e se for aprovado, fica com o contrato sem ter de renovar no ano seguinte e sem passar pelas dificuldades que passam os prof's portuguese, autenticos saltimbancos num país com um estado quase totalitário. Sao este ditadorzinhos que JORGEMIGUEL refere, que tornam Portugal num país com um estado com a obsessao de controlar tudo e mais alguma coisa. No fim de tudo isto, e como este exemplo demonstra, o estado nao dá nada, aliás, dá com uma mao e tira com a outra.

 
 
 
05.09.2008
13:06
Portugal - Porto
Desde já digo que não considero aceitável que se prejudique alguém porque está grávida. No entanto, penso que a noticia foge à verdadeira questão, o problema aqui está na precariedade do contracto de trabalho, que tem de ser renovado todos os anos. Se a docente fosse efectiva no quadro não teria qualquer problema. E agora peço que pensem no seguinte, estes contractos são a prazo, conhecem alguém que contracte uma pessoa que esteja de baixa e por isso, em vez de uma tenha de contractar duas? Uma para o lugar e outra para a substituir? É que simplesmente não faz sentido. Mas só é assim porque existe precariedade... E agora peço que não me caiam todos em cima a dizer que eu acho bem o que se passa, porque não acho! No entanto, penso que a forma como o artigo é apresentado serve apenas as intenções politicas de uns e outros e não resolve nada a ninguém...

 
 
 
05.09.2008
12:46
Portugal - Porto
fazem de nós ignorantes...será que acham que não sabemos protestar contra estas preversidades ou acham que já nem coragem temos para o fazer? eu, por mim, protesto! e pensar que somos nós quem os elege...e sustenta!

 
 
 
05.09.2008
11:10
Portugal - Porto
Estes directores e patrões esquecem-se que nem todos têm 2 e 3 empregadas a tempo inteiro como alguns que conheço.

 
 
 
05.09.2008
10:53
United Kingdom
Isto prova aquilo que muitas vezes digo. Neste Paiz de democratas e demagogos, ainda deteem o poder determinados ditadorzinhos que sabem como contornar a lei e aplicar a sua vontade e mentalidade retrogada. As tantas, se formos investigar, vamos encontrar no passado destes ditadorzinhos, recalcamentos e uma educacao impecavel num quaisquer colegio, onde falhou a sua vocacao eclesiastica. Agora o caminho dos prejudicados serao os Tribunais, mas de quaisquer forma, a suceder, ja ficam assinalados (as) e a sua ascensao profissional sera mais dificil, porque contrariaram Suas Excelencias...Quem sabe se nao e por causa destes elementos anti-sociais que muitas vezes se fala tao mal dos servicos do Estado...? E que e impossivel agradar a Deus e ao Diabo, ao mesmo tempo... Jorge Miguel, Londres, 5 de Setembro de 2008

 
 
 
05.09.2008
10:15
Portugal - Lisboa
Registei-me só para poder comentar este artigo. Este tipo de atitude já existe à muito tempo no comportamento dos empresários e patrões em Portugal. Agora está a ser clarificado, através, ao que parece, de documentos escritos. É um comportamento não só inconstitucional, mas também sem humanismo. Se calhar por serem homens a fazer as leis. Esquecem-se que um dia também foram pequeninos e tiveram uma mãe com as mesmas dificuldades em coordenar a vida familiar com a profissional. Mas se calhar até nem tiveram porque os tempos eram outros e as senhoras antigamente, na sua grande maioria não trabalhavam. Mas não passa pela cabeça de ninguém que uma mãe deixe o seu filho aos dois meses para garantir um posto de trabalho. Trabalhos há muitos... Não fiquei nada espantada com a notícia... Quer Portugal CRESCER em natalidade, economicamente, manter os bons valores na sociedade, assim não vai nunca conseguir...

 
 
 
05.09.2008
09:52
Portugal - Porto
O Ministério das Finanças não é o Ikea, infelizmente.

 
 
 
05.09.2008
08:38
Portugal
PORREIRO, PÁ!!! ass: Maria Portugal

 
 
 
05.09.2008
08:30
Portugal - Porto
Este país está bom para irmos embora, ou para o vender a outro. Já chega a ser surreal o que se vai passando por cá...

 
 
 


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