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"Crise ainda não chegou aos dadores de sangue"

Reserva permite a cada hospital sobreviver quatro dias. IPS pede mais dadores

HELENA TEIXEIRA DA SILVA

Salvar alguém, não importa quem, é a principal motivação de quem dá sangue.

No primeiro trimestre deste ano, o Instituto Português de Sangue registou um aumento de 5% nas colheitas. É bom, mas não chega.

"Apesar da crise, do desemprego e de todos os problemas que hoje dificultam a vida das pessoas, os dadores regulares de sangue têm aumentado, o que só prova o altruísmo dos portugueses", revela, ao JN, Gabriel Olim, presidente do IPS. "A crise ainda não chegou aos dadores", nota, feliz.

No ano passado, foram recolhidas 90.550 unidades de sangue, o que significa mais de mil colheitas por dia. Os números, que permitem que não haja, neste momento, qualquer défice na resposta às necessidades dos hospitais portugueses - e cada hospital consome, em média, 65 sacos de sangue por dia -, resulta de um intenso trabalho ambulatório. "Cerca de 85% das colheitas são realizadas fora do posto fixo". Sendo positivo, o ideal "era que as pessoas se deslocassem aos centros: poupava-se tempo e recursos".

Os dadores aumentaram, mas o consumo de sangue aumentou muito mais, sendo a dilatação da esperança média de vida o "principal desafio" do IPS. "As pessoas vivem mais tempo, logo, precisam de mais cuidados. Por outro lado, à medida que a medicina evolui, realizando mais cirurgias e transplantes, precisa também de mais sangue", explica Olim. Mais do que as situações de emergência, são as cirurgias programadas e os doentes crónicos e oncológicos quem mais necessitam de sangue.

A procura, com natural tendência para aumentar, motivou a campanha "Dar sangue é segurar vidas", apresentada ontem, em Lisboa, uma acção conjunta do IPS, Associação Portuguesa de Seguradores, Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios, que visa promover acções de recolha de sangue em todo o país. "A colheita nunca pode parar", alerta Gabriel Olim, assegurando que a reserva do IPS permite que cada hospital disponha de sangue para quatro dias de consumo normal quando "o ideal seriam sete dias". Mesmo assim, não reclama. Diariamente são colhidos 1078 sacos de sangue, representando 800 dadores. Além disso, acrescenta, "há uma lista de centenas de dadores prontos para emergências."

Discriminação positiva de dadores

A necessidade de sangue não pode fazer com que os serviços prescindam da sua qualidade. E isso, lamenta Olim, "leva a que os homossexuais se sintam discriminados". O especialista tenta desmistificar a opção de raras vezes serem aceites como dadores: "Parece injusto, mas os estudos demonstram que os resultados não são muito animadores para os homossexuais. Mais vale, de vez em quando, pagar o justo pelo pecador, do que corrermos o risco de transmitir qualquer agente patológico a um utente". Aquilo que Olim designa como "discriminação positiva" não é exclusivo da identidade de género [ver caixa].

No Centro Regional de Sangue do Porto, onde os dadores aumentaram quase 10% - de 68.337 colheitas em 2007 para 76.240 em 2008 -, o JN encontrou fila de inscritos. Inês, 20 anos, tem "medo de agulhas", mas quando atingiu a maioridade decidiu que "o propósito de dar sangue é mais importante que o pânico das agulhas". A aluna de Direito é dadora há dois anos e arrastou o pai. Três vezes por ano vão juntos ao Centro. "É uma obrigação moral. E é o nosso momento de cumplicidade", confessou, orgulhoso, o pai, João Fernando, 50 anos.

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