Vítimas de erro hospitalar estão quase sem ilusões
Hospital de Santa Maria diz que danos não podem ser tidos já como irreversíveis. Tratamentos continuam
EDUARDA FERREIRA
O desalento instala-se nos doentes que continuam a ser submetidos a tratamento no Hospital de Santa Maria, desde que em Julho último perderam a visão por troca de um fármaco. Os clínicos dizem que nada é para já definitivo.
"Tudo igual, tudo na mesma, nenhuma melhora". Ou "A minha vida ficou um trapo, os nervos têm-se apoderado de mim e o coração vem-me desafiando". Estas frases traduzem a falta de esperança de dois dos seis doentes que, em Julho passado, foram injectados numa ou nas duas vistas com um produto tóxico, ministrado por engano, segundo os inquéritos policiais e administrativos apontam.
A Direcção Clínica do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, veio ontem garantir publicamente não ser ainda "possível, com rigor, estabelecer um prognóstico sólido relativamente à evolução da situação clínica dos doentes". Fonte do mesmo hospital disse, ao JN, que os médicos que acompanham os seis pacientes a nenhum transmitiram já não haver cura para o seu caso. E isto, segundo a nota do Centro Hospitalar Lisboa Norte, "porque a enoftalmite (inflamação) que os atingiu não se encontra estabilizada, apresentando até quadros evolutivos significativamente diferentes". Nesse sentido, é afiançado que "não se podem considerar irreversíveis os danos oftalmológicos sofridos por aqueles doentes". Recorde-se que tem vindo a ser aplicado um tratamento preconizado pelo especialista canadiano Miguel Burnier. Este deslocou-se a Portugal, em Agosto, para observar as seis pessoas afectadas pela injecção de substância tóxica que se encontrava nas seringas em vez do fármaco Avastin. Na ocasião, Burnier afirmou que antes de três ou quatro meses não seria possível verificar se o tratamento teria efeitos positivos.
A desesperança está, contudo, a instalar-se entre os doentes, um dos quais continua internado. Maria Goreti, mulher de Walter Lago Bom, afectado nas duas vistas, disse ontem, ao JN, que "não há nenhuma melhoria, nem uma luzinha". O internamento justifica-se dada a frequência dos tratamentos ao longo do dia e que a família não pode dispensar, dado que nenhum dos seus membros pode deixar de trabalhar. Resta "esperar mais tempo, pois eles estão a tentar".
Mais desiludida está Maria Antónia Martins, injectada num dos olhos. "Temos é de tratar muito bem do outro", conta ele que ouviu do médico assistente". Na última consulta, esta doente, diabética, terá perdido alguma da pouca esperança que tinha. Foi costureira até Julho e passa agora os dias entristecida, "com a vida estragada, um trapo", não podendo fazer o que era o seu dia-a-dia em casa nem trabalhar para fora.
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