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"Cheguei a dormir no galinheiro"

Os episódios de violência surgiram quando Margarida (nome fictício), actualmente com 50 anos e professora do Ensino Básico, estava casada há apenas 15 dias.

Foi nesse período que "levou" pela primeira vez. A agressão aconteceu no meio de uma conversa que teve com o então recém-marido sobre histórias do passado. Este terá perguntado se ela já tinha tido outros namorados, ela disse que não e o diálogo evolui para outros caminhos.

"Veio com uma conversa muito estúpida, sem pés nem cabeça, perguntou se os meus irmãos tinham abusado de mim. Disse que não, o que era verdade, e começou a 'festa'. Deu-me duas ou três bofetadas que me marcaram os dedos na cara".

Desde aí, cenas semelhantes começaram a acontecer quase dia sim dia não. Batia-lhe um dia e no outro pedia-lhe desculpa. "Via-me pisada e pedia-me desculpa, que nunca mais voltava a bater, mais isto e mais aquilo, eu era a melhor do mundo... O certo é que tudo se repetia".

"Ele rogava por todos os santos - confessa Margarida - para que eu não contasse a ninguém e que dissesse que tinha caído ou batido com a cara na mesa".

Hoje, recorda com alguma ironia e revolta as palavras do ex-marido, que repetidamente dizia: "Ó amor, não digas nada aos vizinhos. Ninguém tem nada a ver com a nossa vida". E a verdade é que essa "ordem" foi cumprida durante anos sem conta. Margarida ia empregando desculpas esfarrapadas, umas atrás das outras. As pancadas sofridas fizeram com que perdesse o medo e ganhasse coragem para ir à Polícia. E foi. Apresentou várias queixas e também se submeteu a consultas no Instituto de Medicina Legal do Porto, sobretudo, conta, depois "dele me ter partido a cana do nariz e de ter que ser socorrida no hospital. Nãomorri porque Deus não quis".

O drama prosseguiu entre as paredes de casa durante anos, principalmente nas noites, quando o marido chegava embriagado acasa. Todos os dias a cena repetia-se, apesar de haver uns dias piores do que outros. Nos mais graves, Margarida era violentamente acordada e tinha de fugir para o quintal. Chegou mesmo a dormir no galinheiro, porque o marido gritava que a queria matar. E o certo é que, embrulhada no medo, Margarida tinha de deitar-se na cama com o marido, quando este tinha uma faca por baixo do travesseiro. "Tenho consciência de que se ele não me matou foi mesmo porque Deus não quis, porque o homem às vezes parecia o demónio em pessoa...", acrescentou.

Em muitas dessas noites, as agressões não eram apenas sobre a mulher, mas também se estendiam aos dois filhos, na altura com 14 e 12 anos de idade. Foi a partir dessas cenas de pancadaria que Margarida interiorizou que teria de tomar uma atitude.

Mas a ideia da separação esfriou quando Margarida entrou em depressão e o psiquiatra a acolheu. Frágil, desamparada, acontinuou a viver o terror ao lado do marido por mais 12 anos. Até ao "dia milagroso" (é assim que lhe chama) em que o "dito cujo", numa noite de copos, foi atropelado. "Esse dia milagroso pôs fim ao meu drama".

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