António Costa vai criar espaços na cidade paraos artistas de rua e punir quem rabiscar fora do sítio
Uma galeria de arte urbana em forma de duas grandes telas foi inaugurada na Calçada da Glória, no Bairro Alto, em Lisboa, para que os grafiters possam dar largas à imaginação sem atentarem contra o património.
Inserida no plano de operação integrada para o Bairro Alto - onde decorre uma campanha de limpeza das paredes e se criaram medidas para punir os prevaricadores - a galeria é composta por uma tela onde os grafiters podem mostrar os seus dotes, e uma outra em branco para aspirantes a artistas ou destinada a todos que queiram rabiscar.
O objectivo é, segundo o presidente da Câmara, António Costa, dar visibilidade à arte urbana de grafitismo e à liberdade criativa, mas num quadro regulado, com respeito pela conservação e manutenção do património arquitectónico urbano.
Pedro Soares Neves, RAM, MAR e Maria Imaginário foram os artistas convidados para inaugurar a tela. António Costa também se estreou nesta forma de arte, empunhando uma lata de spray, ainda que por breves instantes. "Não lhe estraguei a pintura, não?", perguntou a um dos grafiters. "Deixe estar, eu depois eu dou um toques", disse MAR, sossegando o autarca.
A galeria surge na sequência de um protocolo assinado entre a Câmara de Lisboa e o grupo Regojo, através da sua marca Friday´s Project. A JC Decaux fornece os painéis. O passo dado ontem é mais um esforço para anular extremos e encontrar consensos com quem gosta de, na calada da noite, deixar a sua marca, mais ou menos criativa, em paredes e monumentos de Lisboa.
No Bairro Alto, até os chamados "rabiscadores de segunda" admitem que o espaço anda saturado com tanta tinta. Resta saber se as telas, e todos os espaços autorizados que venham a ser criados, têm o mesmo sabor que pintar em espaço alheio.
O fruto proibido ainda é o mais apetecido, admite Pedro Soares Neves, que fez carreira académica em design urbano depois de ter passado anos a rabiscar clandestinamente pelo país e no estrangeiro, coleccionando peripécias que nem se atreve a contar.
Apesar de considerar que a galeria "é uma encenação" e que não tem a mesma "pica" que uma parede, sustenta que é um começo para criar uma nova realidade, mais ordenada e pacífica. "É preciso formar mentalidades, fomentar a ousadia criativa em vez da ousadia destrutiva", argumenta.
O presidente António Costa anunciou que pretende "abrir" mais galerias de arte urbana na cidade, cedendo ainda tapumes e muros em locais devidamente acordados. Em negociação está a cedência de um edifício, ou antes, as entranhas de um imóvel, para os grafiters pintarem.
A tela que desde ontem está exposta na Calçada da Glória, e todas as que vierem a ser pintadas, não serão destruídas devido à rotatividade própria de uma galeria. António Costa, revelou que pretende organizar uma exposição anual sobre esta forma de arte.
A partir da próxima semana, serão instalados, também no Bairro Alto, 30 espaços para a colocação de cartazes, para combater o flagelo da afixação selvagem de anúncios e publicidade que contribui para sujar os edifícios.