O moinho de vento fechou a porta
JOAQUIM REIS, LUSA
Trabalhou mais de 40 anos num moinho de vento em São João das Lampas, em Sintra. Durante anos, centenas de crianças estiveram no local em visita de estudo. Hoje, as portas estão fechadas. E Vítor Hugo tem saudades.
Desde que em Dezembro abandonou a profissão, Vítor Hugo continua a visitar o seu moinho de vento para matar saudades de uma casa onde trabalhou arduamente, ao sol e à chuva, durante mais de 40 anos. "Venho aqui muitas vezes, umas venho contente e outras triste. São coisas da vida", disse este antigo moleiro, com 81 anos, que também já foi pastor e cantoneiro e que ainda teve tempo para fazer a terceira classe.
É com tristeza que hoje vê o moinho de portas fechadas. Durante anos, centenas de crianças visitaram o local em visitas de estudo e, Vítor Hugo entende que por essa razão devia receber um subsídio. "Antigamente vinham cá muitas crianças, mas em 2000 deixei de receber subsídios e é difícil manter o moinho a funcionar. Isto não dá lucro nenhum", referiu.
São João das Lampas é terra de campos agrícolas e dos "saloios" que antigamente partiam desta freguesia, no concelho de Sintra, em direcção a Lisboa para vender as verduras que abasteciam a capital. De velas brancas, risca azul e pintado com a branquidez da cal, o moinho de vento de Vítor Hugo ergue-se num monte com vista para o mar, tendo a companhia de mais três moinhos. "Antigamente existiam nestes lados mais de 60 moinhos. Os campos estavam todos cultivados e é uma pena ver que agora estão abandonados", lamentou Vítor Hugo, que admite que nem sempre conviveu pacificamente com os outros moleiros da zona. "Os moleiros nunca se davam muito bem. Íamos beber uns copos e depois lá nos chateávamos uns com os outros", disse.
Vítor Hugo recorda o tempo em que começou a enfrentar o vento que faz girar a mó, que por sua vez mói o trigo e o transforma em farinha. Já nao era novo, diz, mas foi o suficiente para se apaixonar por este moinho. "Este moinho é como se fizesse parte do meu corpo. Isto é amor", recordou, emocionado. Esta profissão secular não vai continuar nas raízes da família. Vítor Hugo tem duas netas e estas já não vão ouvir "a música que os búzios do moinho produzem" nos dias em que o vento toca as velas que dão vida ao moinho. "Nao tenho família nenhuma que queira isto. Tenho pena porque o meu avô costumava dizer que o tinha herdado do avô dele", contou, ciente de que a tradição morre consigo.
"No meu tempo a coisa que mais valor tinha era o pão, quando caía ao chão nós dávamos-lhe um beijinho e comíamos", disse ainda.
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