No dia em que Rosa soube que era vidente, tinha saído uma vulgar pastorinha de casa, de manhã cedo, para brincar pelo Campo da Eira. Os terrenos de pastoreio pertenciam à família de sua tia, Rosalinda Sereno, mãe dos primos Alzira e Almerindo, e era para lá que todos os dias os três pastorinhos levavam as ovelhas, passavam lá a maior parte da manhã, comiam um pequeno e pobre farnel a meio da manhã, e só regressavam quando a fome apertava e o sol ia alto. As ovelhas, com o seu instinto, pareciam perceber melhor ainda a que hora deveriam regressar ao curral, e acabavam por ser elas quem determinava quando as três crianças regressavam a casa para as suas famílias.

Após deixar os primos em casa, seguiu para o seu lar descontraída, contando com uma refeição agradável e quente. Mas a casa estava demasiado sossegada para um normal dia de semana. Quando entrou na cozinha poeirenta e escura, viu a sombra da sua mãe aguardando por si. Não podia ser bom motivo. Conhecia bem a sua mãe, e o quanto ela era rigorosa na disciplina e na educação religiosa que dava aos seus filhos. Estar ali, àquela hora, esperando por si, só podia significar que, mais uma vez, Rosa tinha violado uma das suas regras, e precisava expiar a culpa.

- Anda cá, tenho que falar contigo! - Gritou a mãe quando a viu.

Rosa perdeu a alegria e, condicionada por nove anos de disciplina física, baixou o olhar e aproximou-se da mãe, tentando atrasar o castigo. Assim que a apanhou a uma boa distância, a mãe agarrou-a pelos cabelos e puxou-a para si.

- Anda cá! Vais-me dizer se é tudo verdade ou mentira!

- O quê, mãe? - gritava a pequena Rosa.- Não sei de nada! Não sei de nada!

- Vais-me dizer se é verdade o que a tua prima anda por aí a dizer! Ai de ti se é tudo mentira e descubro que foste tu quem inventou essa blasfémia!

- Não sei de nada, mãe! - protestava a criança, tentando fugir da mão firme que lhe agarrava os cabelos.

- Não sabes de nada? Ah mentirosa que te vou partir toda!

Atirou a criança ao chão e correu a buscar a vassoura. Levantou-a no ar, fazendo a pequena criança encolher-se de medo pois sabia o que vinha a seguir, que tantas vezes tinha sido sovada, mas a mãe susteve o golpe no ar prestando-se a um último teste.

- A tua prima anda por aí a dizer que vocês viram Nossa Senhora. Ai de ti se for mentira, que te dou uma tareia que te mando para o hospital!

- Não, não, mãe!

- Não viste a Nossa Senhora, desgraçada? Andas por aí a brincar com o nome da Mãe de Cristo?

- Não, mãe, não me batas! - chorava a criança.- Eu não menti, eu não menti...

Soçobrou. Ficou caída no chão sujo e frio da cozinha, dissolvendo a miséria com as suas lágrimas. Mas o golpe não veio. A sua mãe não lhe bateu. Pela primeira vez na sua curta e sofrida vida, conseguira escapar às fúrias selvagens da sua mãe. Tudo o que fizera, fora dizer-lhe o que ela queria ouvir, mas na altura não percebeu isso. Servir-lhe-ia de lição para o futuro próximo.

A mão firme da mãe levantou-a do chão, mas não para lhe bater. Limpou-lhe as lágrimas da cara, e puxou-a para fora de casa.

 

 

Levou-a até à Igreja, calada todo o caminho, e Rosa começava a pensar que sabia ao que ia. O padre Miguel era pessoa austera, das suas palavras saiam as mais penitentes histórias sobre o castigo aos pecadores, nos fogos do Inferno, as histórias que tanto assustaram Alzira quando era mais nova. O padre Miguel faria com que Rosa se arrependesse de joelhos perante o Cristo vivo, julgando-a do alto da Cruz.

Mas o confronto entre o padre e a mãe de Rosa não foi calmo. A comadre Hermínia, assim era o seu nome, estava ali para defender a sua reputação como mãe e como mulher de Fé. Com a mesma convicção com que defendia a virgindade da Santa Mãe de Cristo, foi peremptória que a sua filha nunca mentiria num assunto tão sério, pois nunca fora essa a educação que lhe dera. E obrigou Rosa a assumir, perante o padre, que era verdade que vira Nossa Senhora, como dissera Alzira. Não tinham sido aquelas as suas palavras, mas que diferença faria se todo aquele pesadelo poderia acabar mesmo ali? Agora, era tarde para mudar de ideias. Por isso, repetiu perante o padre tudo o que dissera a mãe: não mentira nunca a esse respeito.

Rosa foi esquecida naquele momento. Pode afastar-se para a porta da Igreja, agora livre do peso do pecado, enquanto o padre e a sua mãe discutiam. O interesse daquilo tudo, excedia já a sua compreensão. A falta de crença do padre em que as duas primas tivessem visto alguma coisa, era visto pela mãe como uma acusação à educação que dera à sua filha. Para o padre, era mais importante a falta de apoio da população em resolver alguns problemas da igreja. O tecto estava a apodrecer, e quando chegasse o Inverno voltaria a chover dentro do edifício santo. Mas insistia a comadre Hermínia, se a sua filha dizia que tinha visto Nossa Senhora, era porque tinha visto Nossa Senhora. E saiu pela porta da Igreja fora, de volta à aldeia, arrastando a filha pelo braço.

As semanas seguintes foram loucas. Sem o saber, Rosa não enterrara o pesadelo, apenas o alimentara e tornara mais forte. A família nunca havia convivido tanto como após se tornar conhecida a Aparição. Até a Tia Maria da Benta, que vivia sempre fechada em casa dos pais de Alzira e Almerindo, apenas saindo para ir à Igreja, começou a aparecer em casa dos pais de Rosa, insistindo na veracidade do que havia acontecido. Claro que ninguém sabia bem o que realmente acontecera, nem quando, nem onde, nem quantas vezes. A própria Rosa recusava contar detalhes daquilo que não podia testemunhar, mas isso apenas alimentava nos adultos a curiosidade em saber o que havia acontecido, e se Nossa Senhora havia dito alguma coisa.

E assim, de desejo em desejo, alimentada de fantasia e vestida de temores, a história foi ganhando corpo e carne. Após uma romaria a Nossa Senhora da Conceição, numa freguesia distante, um dos amigos de família trouxe de lá uma imagem votiva. Era um negócio engraçado, e confortava os corações vir da romaria trazendo uma imagem santa. Por isso, propôs que se mandasse fazer à mesma gráfica na grande cidade, uma imagem semelhante descrevendo a Aparição. E, à falta de sugestões para a Nossa Senhora do Campo da Eira, sugeriu adaptar aquela imagem da Nossa Senhora da Conceição, apenas adicionando a imagem das três crianças, numa posição de respeitosa genuflexão como conviria à piedosa Fé daquelas gentes. A partir daí, sempre foi essa a imagem que o Mundo inteiro conheceu e tomaria como reprodução da realidade.

E Rosa assistia a tudo isto calada. Ficava a um canto, e mesmo quando os adultos a espicaçavam, recusava-se a contar mais do que já havia dito naquela tarde ao padre Miguel. Só o primito Almerindo, um rapaz e por isso mais curioso, continuava a perguntar aos adultos de quem falavam quando se referiam a uma senhora que tinha aparecido numa oliveira. Os adultos riam-se. “Pois quem poderia ser, senão Nossa Senhora?” Almerindo encolhia os ombros. Tomavam-no por néscio, e por seguro que mentia quando dizia nada ter visto, pois ninguém poderia negar algo de tamanha importância. O pequeno não se importava que comentassem em voz alta que não havia entendido a importância do evento, afinal ainda não passava duma criança, sem direito a opinião. E se os adultos lhe diziam que ele também o tinha visto, então ele também o tinha visto.

Apenas a pequenita Alzira falava, e não se conseguia calar. Assustada pelas visões do Inferno que estavam queimadas na sua retina, tão reais como quando saíam da boca do padre Miguel e dos relatos que Rosa lhe fazia nas tardes de ócio, não poderia deixar de falar sobre as Aparições. Não fora uma vez que vira Nossa Senhora, mas várias. E isso assustava-a. Porque achava que Nossa Senhora lhe aparecera porque o Mundo estava em sofrimento. E se aparecera aos pecadores como Alzira, fora para lhes exigir sacrifícios, expiar as culpas pelos males do Mundo. E Alzira tinha que se sacrificar, e pedia a todos que o fizessem, a pedido da Nossa Senhora, para salvar o Mundo da perdição e do castigo que se aproximava, nessa Grande Guerra de que todos falavam, em que máquinas infernais esmagavam e mastigavam a carne e o sangue de tantos jovens e homens crescidos. E quanto mais celeuma e interesse as Aparições provocavam nas populações em redor de Campo da Eira, mais desesperada Alzira ficava porque a mensagem não passava. Todos apareciam a pedir bençãos, poucos as queriam merecer.

O Mundo, que ela queria salvar, estava demasiado cego pelo delírio e pelo prazer de ter sido honrado com as Aparições, para se aperceber do sofrimento da pequena criança. Não lhe sobrou alternativa ou solução, que suportar sózinha os pecados do Mundo, e foi sozinha que começou a mortificar-se, recusando comida, recusando bebida, e provocando dor no seu corpo durante horas sem fim, enquanto tentava esquecer o sofrimento com uma reza constante, revelada pelas palavras da própria Nossa Senhora.

Chegou Julho, e com o Verão chegaram os jornalistas, de fato engomado e chapéu cinzento, com as suas máquinas de metal frio e couro castanho, maljeitosas e enormes. Quem os mandara, ninguém soube. Por essa altura, estava mais ou menos já decidido que tudo começara em Maio, num domingo que calhara a um dia 13. Porquê, ninguém sabia dizer, mas tomavam por garantido que começara nessa data e que se repetira aos dias 13 de cada mês em diante, até chegar a Julho e às fotografias que fizeram a primeira página. A partir daí, os próximos dias 13 só poderiam ser de maior loucura. Porque, após publicarem na primeira página dos principais jornais aquela foto com as três crianças abençoadas pela visão da Mãe de Deus, muitos leitores nas grandes cidades nunca se deteriam até conseguirem falar com elas.

Na fotografia, um borrão primitivo numa folha de papel de jornal, cada um lia a possível salvação para os seus problemas mundanos. Que, em 1917 num Portugal ainda recentemente mudado para a República mata-frades, se resumia a poucas coisas, e na maior parte dos casos tinha a ver com a Grande Guerra em que os mata-frades haviam afundado a Nação. Aquelas Aparições, vinham na altura certa para oferecer a tantas almas angustiadas a saída dos seus pesadelos pessoais. Ninguém conseguia ler, naquela imagem a preto e branco, o tédio de Almerindo que desistira de insistir não ter visto nada; ninguém estranhava o olhar perdido de Alzira, a quem apenas interessava o martírio pela salvação dos pecadores; e a imagem escondia o ar comprometido de Rosa que, agora e cada vez mais, tinha de jurar aos quatro ventos que não mentira nunca, a respeito das Aparições. E era verdade.

Começou a ser difícil a Rosa, Alzira e Almerindo, ir até ao Campo da Eira passear as ovelhas. Todos os dias apareciam estranhos a perguntar pelas crianças que haviam visto Nossa Senhora. Incultas mas espertas, as crianças negavam ser quem eram. E em breve deixaram de aparecer no Campo da Eira para evitarem esses estranhos. De qualquer maneira, aqueles pés calçados iam estragando o pasto das ovelhas de tanto o calcorrearem, e com isso acabaram a impedir o ganha-pão da pobre família. Graças a Nossa Senhora, a família dos videntes começou a passar fome.

Mas a liberdade do anonimato esgotar-se-ia, mesmo na aldeia. A loucura era um fogo que ia ardendo lentamente, como um papel seco que vai queimando sem se notar, e em breve as três crianças viviam nas últimas cinzas da sua inocência. Um por um, os mais afoitos começaram a vir procurá-las na aldeia, e com uma pergunta aqui, uma pergunta ali, e a cumplicidade de todos os vizinhos que queriam mostrar que as conheciam, acabaram por ser identificadas como as santas criancinhas.

A sorte mudaria quando, no auge da desgraça, Rosa viria a aprender que tudo o que acontecera com a sua mãe e o padre Miguel, não fora apenas uma benção, um milagre, uma coincidência ou azar, mas uma regra aparentemente comum sobre a forma como funcionava a cabeça dos adultos, e isso permitir-lhe-ia fugir mais depressa daquele pesadelo, embora não soubesse que apenas se iria conseguir afundar cada vez mais na mentira. E uma tarde, quando calcorreavam tristes as pedras do caminho sonhando com o cheiro doce da erva ao Sol no Campo da Eira, numa rua traseira da aldeia ali em frente à casa da Dona Linda Martinho que poucos tratos tinha com as suas famílias, viram um casal de citadinos, bem vestidos e assombrados, vindo na sua direcção. Voltaram-se para trás, mas outros três, duas senhoras e um cavalheiro, vinham também do outro lado, aproximando-se em passo rápido para que não lhes fugissem, mas com o corpo retraído e inclinado para trás com medo de as ofenderem com o seu atrevimento.

As três crianças encolheram-se sem saber que fazer, e depressa aqueles braços canibais agarraram-se-lhes à roupa, soterrando-as de vozes. Alzira gemia de medo, Almerindo permanecia calado mas incomodado, só Rosa protestava que os largassem. Protestava. Falava. Comunicava. E era a ela que dedicavam o seu desespero. Cada grito seu, era mais um braço que se colava a si, mais uma voz que lhe implorava que a ouvisse.

Almerindo puxou a pequena irmã Alzira e levou-a inconscientemente para casa da Dona Linda Martinho. Esta não estava em casa, e eles refugiaram-se no interior. Rosa tentava libertar-se para se lhes juntar, jurava às pessoas que se haviam enganado, que nada podia fazer, que nada havia visto. Mas as pessoas sabiam já mais sobre si e o que lhe acontecera, do que a própria Rosa tinha coragem de admitir. “Que disse Nossa Senhora?”, perguntavam eles e elas, “Como podemos falar com ela? Como lhes podemos pedir bênçãos?” Rosa gritava que a largassem. “Vimos de longe, vimos da cidade, temos de falar com a Nossa Senhora, tens de lhe falar por nós!” Rosa chorava, que nada sabia sobre os tempos difíceis que corriam, nada sabia sobre os espinhos políticos dos antigos monarquistas, desconhecia o que era o Corpo Expedicionário Português.

“Se não podemos falar com Nossa Senhora, fala-lhe tu por nós!”, insistiam os adultos, implorando que abençoasse o seu desespero. Rosa gritou que tudo faria por eles, mas que a largassem, que magoavam os seus braços. E aí, quando lhes disse isso, os adultos explodiram de alegria, elevaram os braços aos céus, e gritaram “Aleluia, Deus seja louvado!”

Quando olharam para Rosa, esta desaparecera misteriosamente.

No interior da casa da Dona Martinho, Rosa espreitava pelas cortinas de linho sujo, abraçada à pequena Alzira. Almerindo resfolegava. Não poderiam sair enquanto eles não fossem embora, mas a Dona Martinho poderia chegar e dar-lhes-ia uma coça por se atreverem a entrar em sua casa. Estaria tudo doido? Onde fora parar a vida calma e sossegada do Campo da Eira?

Enquanto via os adultos a irem embora pelas pedras da rua, subitamente aliviados de desespero, Rosa percebeu que pela segunda vez conseguira escapar aos adultos, bastando-lhe para isso ter de lhes contar o que queriam ouvir. Nem a sua mãe tinha coragem de lhe voltar a bater! Poderosa arma a criança adquirira contra a loucura dos adultos: a estranha verdade da mentira.

O crescendo de romaria ao Campo da Eira começara a traduzir-se em flores deixadas numa árvore, uma oliveira onde a lenda contava que a Nossa Senhora havia sido vista. A oliveira da Aparição não seria aquela onde as crianças haviam visto a Nossa Senhora, mas a primeira oliveira escolhida pelo primeiro ramo de flores, pelo primeiro estranho que por lá andou perdido em busca de uma oliveira diferente de todas as outras. Depois, outros ramos de flores, rosários, fotografias, notas pregadas na sua casca, colares em ouro, elegeram-na como “A Oliveira”. E quando a Tia Maria da Benta, agora mais saída de casa com o seu novo objectivo na vida de servir de testemunho ao milagre das Aparições, pela primeira vez foi ao local e viu os donativos que estavam perdidos pelo chão, tomou em mãos o encargo de os proteger de mãos e intenções menos pias. Um dia sonhava ela, construiriam naquele sítio um pequeno santuário a recordar que foram sobrinhos seus os escolhidos pela Mãe de Deus, e aqueles donativos serviriam esse fim.

Claro que o padre Miguel recusou donativos com tão obscura e blasfema procedência, e alertou o Bispo em Leiria para a tragédia que se adivinhava. Responderam que já lhes havia chegado ao conhecimento tal blasfémia, e prometeram-lhe que em breve enviariam alguém para apreciar o fenómeno, alguém com autoridade para tomar controle da situação. O padre Miguel começou assim a sua longa espera.

A Tia Maria da Benta, entretanto, escolheu uma pequena mesa e carregou-a às costas até ao campo de pasto da família, e pousou-a junto à Oliveira, para que todos pudessem colocar ali as oferendas que ela, no dia seguinte, viria recolher e guardar. Montou um arco com paus, algumas flores, e duas lanternas de óleo. Logo no primeiro dia, a mesa desapareceu. Tudo o que a Tia Maria da Benta encontrou no seu lugar foi um monte de donativos, moedas, notas, peças de ouro. A mesa fora soterrada pela Fé.

Quando chegou o dia 13 de Setembro, ninguém conseguia contar quantas pessoas tinham já visitado o Campo da Eira. O prado era agora terra seca e esmagada. A Oliveira das Aparições secara, a sua casca esfolada, as folhas e ramos arrancados como relíquias. E, depois dela, foram esfarrapadas as oliveiras vizinhas. Pela voz do povo corria a curiosidade em estarem presentes, em assistirem a nova Aparição de Nossa Senhora, naquela que seria a quinta-feira memorável de 1917. Nem as crianças iriam faltar. A comadre Hermínia desdobrava-se em azáfama, nem pensar em deixar que roubassem à sua filha a glória do protagonismo num dia que ficaria para a História. Se os pais de Alzira e Almerindo os fechavam em casa para os protegerem roubando-os da sua glória, era erro que a comadre Hermínia não cometeria. Vestiu a criança com a melhor roupa, colocou-lhe colares de ouro, lenços de linho, meias brancas e sapatos novos. E assim a levou, para o Campo da Eira, protegida pelo marido e por um irmão deste. Nem reconheceram Campo da Eira quando lá chegaram. Milhares de Portugueses se espalhavam, farnéis ao pé, garrafões de vinho por companhia, pelo deserto de terra seca que antes fora promessa de verdejante Fé. Amontoavam-se lixo e fezes humanas, maços de cigarro e fósforos queimados, papéis sebentos e restos de comida. E quando viram a criança, como cadáveres adiados, levantaram-se e tropeçaram ao seu encontro. Os mais afoitos começaram a aproximar-se. Chamaram por Rosa. Tentaram tocar-lhe. Pediam-lhe pelo amor duma apaixonada. Rosa concedia-lhes tal amor. Pediam dinheiro e desafogo. Claro que sim, o cheque seguira pelo correio. Mas pela meia-dúzia que apaziguava, atiçava os ânimos de milhares.

Porque quem ali estava, naquela tarde arrefecida de Setembro, não fora lá por dinheiro, nem por paixão, mas por amor a familiares distantes. Unia-os um único apelo. Nas terras de La Lis se sepultava o ganha-pão das famílias Portuguesas. Que Nossa Senhora fizesse o que o Governo Republicano não soubera fazer: escutar a voz dos familiares dos soldados destacados para o estrangeiros, ouvir o lamento das mães, das esposas, dos irmãos e irmãs, filhos e filhas, dos homens integrando o Corpo Expedicionário Português, enviados para morrer em França.

Aos poucos a turba foi rodeando a pequena vidente. Os três adultos que a protegiam tentavam manter afastadas as pessoas, mas era impossível deter tanta gente. De repente, quando tentaram ser mais afoitos e afastar a turba, viram-se separados, rodeados, bloqueados. Rosa desaparecia por entre braços, os gritos de medo abafados pelas súplicas. “Larguem a criança! Larguem a minha filha!”, gritavam, mas naqueles breves segundos Rosa era desfolhada como uma oliveira, arrancavam-lhe as peças de ouro, rasgavam-lhe as roupas, arrancavam-lhe cabelos, violavam a sua paz. Mas as parcas relíquias não chegaram para tanta Fé.

E quando as relíquias acabaram, e as dezenas desesperadas lhe imploraram que pedisse a Nossa Senhora para acabar com a Guerra, sufocando-a com o peso dos seus corpos, Rosa gritou aquilo que sabia que eles queriam ouvir:

“A guerra acaba hoje!”

Minutos depois, tremendo ainda de medo, Rosa estava a salvo fechada em casa, pelos braços de seus pais. A multidão delirava, lá longe no Campo da Eira, trocada a presença da santa criança pela revelação do Primeiro Segredo. Ninguém deu mais pela sua falta, durante todo o dia.

A recordação dolorosa demorou a evaporar-se, como a névoa que se eleva das árvores num dia quente de Maio após uma breve chuva, mas a loucura sedimentava nos solos áridos. Rosa estava presa a uma roda de tortura, e cada frase que usava para se libertar era uma frase mais que a prendia. Conseguira fugir naquele dia, mas agora as pessoas queriam saber mais. O resto, faltava o resto. Decerto, a Nossa Senhora não aparecera apenas para contar que a Guerra iria acabar. Que lhe contara nos dias anteriores, o quê?!

Pobre Rosa, quantos Segredos teria de revelar até se saciarem? Por Sorte e intervenção do Deus, Rosa foi salva ao dia 13 de Outubro. Quando o dia se aproximava, e Rosa se martirizava para encontrar uma saída, cavaleiros vieram ao seu encontro, vestidos com a farda da Guarda Nacional Republicana, a força fiel ao Governo Republicano, a mesma força que esmagara a revolta da Cadeia da Relação no Porto a 19 de Maio e o golpe de estado em Lisboa a 20 de Maio desse mesmo ano. Sete dias depois do dia 13 de Maio, por estranha coincidência que Rosa ignorava.

Detida, Rosa foi poupada a nova loucura, mas esta não foi impedida. Ganhara já uma vida própria, independente das palavras das crianças videntes. Enquanto Rosa era interrogada em Leiria, e o Capitão da GNR a assustava com ameaças de prisão e degredo, no Campo da Eira as barreiras da GNR foram galgadas pela multidão histérica que acorreram a assistir a milagres nunca antes vistos por olhos mortais, uns viam o Sol a dançar por entre as nuvens, outros diziam que estranhos cabelos de anjo caíam dos céus, outros ainda que um estranho calor lhes secara as roupas húmidas das chuvas que começavam a cair. Os carros, ainda poucos mas mesmo assim presentes, foram testemunho de que algo insólito se passava, quando se calaram e se recusaram a obedecer às ordens de arranque, quando o Sol dançou por entre as nuvens.

Breves minutos, e tudo se calmou e voltou à ordem prévia. E Rosa foi libertada. Para se preocupar com o próximo dia 13, em Novembro.

 

 

Entretanto, numa tarde calma entre Aparições, o padre Miguel teve de abandonar a sua igreja para administrar a extrema-unção ao pobre João Águas, um lavrador que vivia num casebre distante da pequena aldeia, e à vinda deu com um carro rico parado à porta da sua igreja. Pensando tratar-se de um dos milionários das grandes cidades que vinham à blasfémia das Aparições, bateu no vidro do condutor adormecido, enfurecido pela afronta. O condutor acordou, e desculpou-se dizendo que trouxera o Reverendo desde Leiria para lhe dar uma palavrinha.

O padre Miguel rejubilou. Finalmente, a Santa Autoridade da Igreja chegara a Campo da Eira para pôr um fim àquela loucura ímpia. Correu ao interior, e ajoelhou-se perante o Bispo agradecendo a sua intervenção. Contou-lhe toda a impostura que assolava a pequena paróquia, e como desde o início tentara convencer os pais das crianças a não espalhar mentiras. Jurou a pés juntos que nunca acreditara naquelas histórias, e que achava um insulto para a Igreja que ninguém ajudasse a reparar o telhado da casa de Deus mas houvesse dinheiro e ouro escondidos para oferecer em donativos ímpios.
O Bispo desculpou-o, e disse que não se preocupasse mais, pois estava ali para o informar que fora agraciado com a transferência para outra paróquia, como recompensa para tão valoroso serviço em defesa do bom nome da Santa Madre Igreja. De ora em diante, o Bispado tomaria conta da situação, e regularizaria a questão dos donativos.

Graças a Deus, não chegou a haver 13 de Novembro.

 

in Fenix Mutilada (autor Anónimo)

No dia em que Rosa soube que era vidente, tinha saído uma vulgar pastorinha de casa, de manhã cedo, para brincar pelo Campo da Eira. Os terrenos de pastoreio pertenciam à família de sua tia, Rosalinda Sereno, mãe dos primos Alzira e Almerindo, e era para lá que todos os dias os três pastorinhos levavam as ovelhas, passavam lá a maior parte da manhã, comiam um pequeno e pobre farnel a meio da manhã, e só regressavam quando a fome apertava e o sol ia alto. As ovelhas, com o seu instinto, pareciam perceber melhor ainda a que hora deveriam regressar ao curral, e acabavam por ser elas quem determinava quando as três crianças regressavam a casa para as suas famílias.

Após deixar os primos em casa, seguiu para o seu lar descontraída, contando com uma refeição agradável e quente. Mas a casa estava demasiado sossegada para um normal dia de semana. Quando entrou na cozinha poeirenta e escura, viu a sombra da sua mãe aguardando por si. Não podia ser bom motivo. Conhecia bem a sua mãe, e o quanto ela era rigorosa na disciplina e na educação religiosa que dava aos seus filhos. Estar ali, àquela hora, esperando por si, só podia significar que, mais uma vez, Rosa tinha violado uma das suas regras, e precisava expiar a culpa.

- Anda cá, tenho que falar contigo! - Gritou a mãe quando a viu.

Rosa perdeu a alegria e, condicionada por nove anos de disciplina física, baixou o olhar e aproximou-se da mãe, tentando atrasar o castigo. Assim que a apanhou a uma boa distância, a mãe agarrou-a pelos cabelos e puxou-a para si.

- Anda cá! Vais-me dizer se é tudo verdade ou mentira!

- O quê, mãe? - gritava a pequena Rosa.- Não sei de nada! Não sei de nada!

- Vais-me dizer se é verdade o que a tua prima anda por aí a dizer! Ai de ti se é tudo mentira e descubro que foste tu quem inventou essa blasfémia!

- Não sei de nada, mãe! - protestava a criança, tentando fugir da mão firme que lhe agarrava os cabelos.

- Não sabes de nada? Ah mentirosa que te vou partir toda!

Atirou a criança ao chão e correu a buscar a vassoura. Levantou-a no ar, fazendo a pequena criança encolher-se de medo pois sabia o que vinha a seguir, que tantas vezes tinha sido sovada, mas a mãe susteve o golpe no ar prestando-se a um último teste.

- A tua prima anda por aí a dizer que vocês viram Nossa Senhora. Ai de ti se for mentira, que te dou uma tareia que te mando para o hospital!

- Não, não, mãe!

- Não viste a Nossa Senhora, desgraçada? Andas por aí a brincar com o nome da Mãe de Cristo?

- Não, mãe, não me batas! - chorava a criança.- Eu não menti, eu não menti...

Soçobrou. Ficou caída no chão sujo e frio da cozinha, dissolvendo a miséria com as suas lágrimas. Mas o golpe não veio. A sua mãe não lhe bateu. Pela primeira vez na sua curta e sofrida vida, conseguira escapar às fúrias selvagens da sua mãe. Tudo o que fizera, fora dizer-lhe o que ela queria ouvir, mas na altura não percebeu isso. Servir-lhe-ia de lição para o futuro próximo.

A mão firme da mãe levantou-a do chão, mas não para lhe bater. Limpou-lhe as lágrimas da cara, e puxou-a para fora de casa.

 

 

Levou-a até à Igreja, calada todo o caminho, e Rosa começava a pensar que sabia ao que ia. O padre Miguel era pessoa austera, das suas palavras saiam as mais penitentes histórias sobre o castigo aos pecadores, nos fogos do Inferno, as histórias que tanto assustaram Alzira quando era mais nova. O padre Miguel faria com que Rosa se arrependesse de joelhos perante o Cristo vivo, julgando-a do alto da Cruz.

Mas o confronto entre o padre e a mãe de Rosa não foi calmo. A comadre Hermínia, assim era o seu nome, estava ali para defender a sua reputação como mãe e como mulher de Fé. Com a mesma convicção com que defendia a virgindade da Santa Mãe de Cristo, foi peremptória que a sua filha nunca mentiria num assunto tão sério, pois nunca fora essa a educação que lhe dera. E obrigou Rosa a assumir, perante o padre, que era verdade que vira Nossa Senhora, como dissera Alzira. Não tinham sido aquelas as suas palavras, mas que diferença faria se todo aquele pesadelo poderia acabar mesmo ali? Agora, era tarde para mudar de ideias. Por isso, repetiu perante o padre tudo o que dissera a mãe: não mentira nunca a esse respeito.

Rosa foi esquecida naquele momento. Pode afastar-se para a porta da Igreja, agora livre do peso do pecado, enquanto o padre e a sua mãe discutiam. O interesse daquilo tudo, excedia já a sua compreensão. A falta de crença do padre em que as duas primas tivessem visto alguma coisa, era visto pela mãe como uma acusação à educação que dera à sua filha. Para o padre, era mais importante a falta de apoio da população em resolver alguns problemas da igreja. O tecto estava a apodrecer, e quando chegasse o Inverno voltaria a chover dentro do edifício santo. Mas insistia a comadre Hermínia, se a sua filha dizia que tinha visto Nossa Senhora, era porque tinha visto Nossa Senhora. E saiu pela porta da Igreja fora, de volta à aldeia, arrastando a filha pelo braço.

As semanas seguintes foram loucas. Sem o saber, Rosa não enterrara o pesadelo, apenas o alimentara e tornara mais forte. A família nunca havia convivido tanto como após se tornar conhecida a Aparição. Até a Tia Maria da Benta, que vivia sempre fechada em casa dos pais de Alzira e Almerindo, apenas saindo para ir à Igreja, começou a aparecer em casa dos pais de Rosa, insistindo na veracidade do que havia acontecido. Claro que ninguém sabia bem o que realmente acontecera, nem quando, nem onde, nem quantas vezes. A própria Rosa recusava contar detalhes daquilo que não podia testemunhar, mas isso apenas alimentava nos adultos a curiosidade em saber o que havia acontecido, e se Nossa Senhora havia dito alguma coisa.

E assim, de desejo em desejo, alimentada de fantasia e vestida de temores, a história foi ganhando corpo e carne. Após uma romaria a Nossa Senhora da Conceição, numa freguesia distante, um dos amigos de família trouxe de lá uma imagem votiva. Era um negócio engraçado, e confortava os corações vir da romaria trazendo uma imagem santa. Por isso, propôs que se mandasse fazer à mesma gráfica na grande cidade, uma imagem semelhante descrevendo a Aparição. E, à falta de sugestões para a Nossa Senhora do Campo da Eira, sugeriu adaptar aquela imagem da Nossa Senhora da Conceição, apenas adicionando a imagem das três crianças, numa posição de respeitosa genuflexão como conviria à piedosa Fé daquelas gentes. A partir daí, sempre foi essa a imagem que o Mundo inteiro conheceu e tomaria como reprodução da realidade.

E Rosa assistia a tudo isto calada. Ficava a um canto, e mesmo quando os adultos a espicaçavam, recusava-se a contar mais do que já havia dito naquela tarde ao padre Miguel. Só o primito Almerindo, um rapaz e por isso mais curioso, continuava a perguntar aos adultos de quem falavam quando se referiam a uma senhora que tinha aparecido numa oliveira. Os adultos riam-se. “Pois quem poderia ser, senão Nossa Senhora?” Almerindo encolhia os ombros. Tomavam-no por néscio, e por seguro que mentia quando dizia nada ter visto, pois ninguém poderia negar algo de tamanha importância. O pequeno não se importava que comentassem em voz alta que não havia entendido a importância do evento, afinal ainda não passava duma criança, sem direito a opinião. E se os adultos lhe diziam que ele também o tinha visto, então ele também o tinha visto.

Apenas a pequenita Alzira falava, e não se conseguia calar. Assustada pelas visões do Inferno que estavam queimadas na sua retina, tão reais como quando saíam da boca do padre Miguel e dos relatos que Rosa lhe fazia nas tardes de ócio, não poderia deixar de falar sobre as Aparições. Não fora uma vez que vira Nossa Senhora, mas várias. E isso assustava-a. Porque achava que Nossa Senhora lhe aparecera porque o Mundo estava em sofrimento. E se aparecera aos pecadores como Alzira, fora para lhes exigir sacrifícios, expiar as culpas pelos males do Mundo. E Alzira tinha que se sacrificar, e pedia a todos que o fizessem, a pedido da Nossa Senhora, para salvar o Mundo da perdição e do castigo que se aproximava, nessa Grande Guerra de que todos falavam, em que máquinas infernais esmagavam e mastigavam a carne e o sangue de tantos jovens e homens crescidos. E quanto mais celeuma e interesse as Aparições provocavam nas populações em redor de Campo da Eira, mais desesperada Alzira ficava porque a mensagem não passava. Todos apareciam a pedir bençãos, poucos as queriam merecer.

O Mundo, que ela queria salvar, estava demasiado cego pelo delírio e pelo prazer de ter sido honrado com as Aparições, para se aperceber do sofrimento da pequena criança. Não lhe sobrou alternativa ou solução, que suportar sózinha os pecados do Mundo, e foi sozinha que começou a mortificar-se, recusando comida, recusando bebida, e provocando dor no seu corpo durante horas sem fim, enquanto tentava esquecer o sofrimento com uma reza constante, revelada pelas palavras da própria Nossa Senhora.

Chegou Julho, e com o Verão chegaram os jornalistas, de fato engomado e chapéu cinzento, com as suas máquinas de metal frio e couro castanho, maljeitosas e enormes. Quem os mandara, ninguém soube. Por essa altura, estava mais ou menos já decidido que tudo começara em Maio, num domingo que calhara a um dia 13. Porquê, ninguém sabia dizer, mas tomavam por garantido que começara nessa data e que se repetira aos dias 13 de cada mês em diante, até chegar a Julho e às fotografias que fizeram a primeira página. A partir daí, os próximos dias 13 só poderiam ser de maior loucura. Porque, após publicarem na primeira página dos principais jornais aquela foto com as três crianças abençoadas pela visão da Mãe de Deus, muitos leitores nas grandes cidades nunca se deteriam até conseguirem falar com elas.

Na fotografia, um borrão primitivo numa folha de papel de jornal, cada um lia a possível salvação para os seus problemas mundanos. Que, em 1917 num Portugal ainda recentemente mudado para a República mata-frades, se resumia a poucas coisas, e na maior parte dos casos tinha a ver com a Grande Guerra em que os mata-frades haviam afundado a Nação. Aquelas Aparições, vinham na altura certa para oferecer a tantas almas angustiadas a saída dos seus pesadelos pessoais. Ninguém conseguia ler, naquela imagem a preto e branco, o tédio de Almerindo que desistira de insistir não ter visto nada; ninguém estranhava o olhar perdido de Alzira, a quem apenas interessava o martírio pela salvação dos pecadores; e a imagem escondia o ar comprometido de Rosa que, agora e cada vez mais, tinha de jurar aos quatro ventos que não mentira nunca, a respeito das Aparições. E era verdade.

Começou a ser difícil a Rosa, Alzira e Almerindo, ir até ao Campo da Eira passear as ovelhas. Todos os dias apareciam estranhos a perguntar pelas crianças que haviam visto Nossa Senhora. Incultas mas espertas, as crianças negavam ser quem eram. E em breve deixaram de aparecer no Campo da Eira para evitarem esses estranhos. De qualquer maneira, aqueles pés calçados iam estragando o pasto das ovelhas de tanto o calcorrearem, e com isso acabaram a impedir o ganha-pão da pobre família. Graças a Nossa Senhora, a família dos videntes começou a passar fome.

Mas a liberdade do anonimato esgotar-se-ia, mesmo na aldeia. A loucura era um fogo que ia ardendo lentamente, como um papel seco que vai queimando sem se notar, e em breve as três crianças viviam nas últimas cinzas da sua inocência. Um por um, os mais afoitos começaram a vir procurá-las na aldeia, e com uma pergunta aqui, uma pergunta ali, e a cumplicidade de todos os vizinhos que queriam mostrar que as conheciam, acabaram por ser identificadas como as santas criancinhas.

A sorte mudaria quando, no auge da desgraça, Rosa viria a aprender que tudo o que acontecera com a sua mãe e o padre Miguel, não fora apenas uma benção, um milagre, uma coincidência ou azar, mas uma regra aparentemente comum sobre a forma como funcionava a cabeça dos adultos, e isso permitir-lhe-ia fugir mais depressa daquele pesadelo, embora não soubesse que apenas se iria conseguir afundar cada vez mais na mentira. E uma tarde, quando calcorreavam tristes as pedras do caminho sonhando com o cheiro doce da erva ao Sol no Campo da Eira, numa rua traseira da aldeia ali em frente à casa da Dona Linda Martinho que poucos tratos tinha com as suas famílias, viram um casal de citadinos, bem vestidos e assombrados, vindo na sua direcção. Voltaram-se para trás, mas outros três, duas senhoras e um cavalheiro, vinham também do outro lado, aproximando-se em passo rápido para que não lhes fugissem, mas com o corpo retraído e inclinado para trás com medo de as ofenderem com o seu atrevimento.

As três crianças encolheram-se sem saber que fazer, e depressa aqueles braços canibais agarraram-se-lhes à roupa, soterrando-as de vozes. Alzira gemia de medo, Almerindo permanecia calado mas incomodado, só Rosa protestava que os largassem. Protestava. Falava. Comunicava. E era a ela que dedicavam o seu desespero. Cada grito seu, era mais um braço que se colava a si, mais uma voz que lhe implorava que a ouvisse.

Almerindo puxou a pequena irmã Alzira e levou-a inconscientemente para casa da Dona Linda Martinho. Esta não estava em casa, e eles refugiaram-se no interior. Rosa tentava libertar-se para se lhes juntar, jurava às pessoas que se haviam enganado, que nada podia fazer, que nada havia visto. Mas as pessoas sabiam já mais sobre si e o que lhe acontecera, do que a própria Rosa tinha coragem de admitir. “Que disse Nossa Senhora?”, perguntavam eles e elas, “Como podemos falar com ela? Como lhes podemos pedir bênçãos?” Rosa gritava que a largassem. “Vimos de longe, vimos da cidade, temos de falar com a Nossa Senhora, tens de lhe falar por nós!” Rosa chorava, que nada sabia sobre os tempos difíceis que corriam, nada sabia sobre os espinhos políticos dos antigos monarquistas, desconhecia o que era o Corpo Expedicionário Português.

“Se não podemos falar com Nossa Senhora, fala-lhe tu por nós!”, insistiam os adultos, implorando que abençoasse o seu desespero. Rosa gritou que tudo faria por eles, mas que a largassem, que magoavam os seus braços. E aí, quando lhes disse isso, os adultos explodiram de alegria, elevaram os braços aos céus, e gritaram “Aleluia, Deus seja louvado!”

Quando olharam para Rosa, esta desaparecera misteriosamente.

No interior da casa da Dona Martinho, Rosa espreitava pelas cortinas de linho sujo, abraçada à pequena Alzira. Almerindo resfolegava. Não poderiam sair enquanto eles não fossem embora, mas a Dona Martinho poderia chegar e dar-lhes-ia uma coça por se atreverem a entrar em sua casa. Estaria tudo doido? Onde fora parar a vida calma e sossegada do Campo da Eira?

Enquanto via os adultos a irem embora pelas pedras da rua, subitamente aliviados de desespero, Rosa percebeu que pela segunda vez conseguira escapar aos adultos, bastando-lhe para isso ter de lhes contar o que queriam ouvir. Nem a sua mãe tinha coragem de lhe voltar a bater! Poderosa arma a criança adquirira contra a loucura dos adultos: a estranha verdade da mentira.

O crescendo de romaria ao Campo da Eira começara a traduzir-se em flores deixadas numa árvore, uma oliveira onde a lenda contava que a Nossa Senhora havia sido vista. A oliveira da Aparição não seria aquela onde as crianças haviam visto a Nossa Senhora, mas a primeira oliveira escolhida pelo primeiro ramo de flores, pelo primeiro estranho que por lá andou perdido em busca de uma oliveira diferente de todas as outras. Depois, outros ramos de flores, rosários, fotografias, notas pregadas na sua casca, colares em ouro, elegeram-na como “A Oliveira”. E quando a Tia Maria da Benta, agora mais saída de casa com o seu novo objectivo na vida de servir de testemunho ao milagre das Aparições, pela primeira vez foi ao local e viu os donativos que estavam perdidos pelo chão, tomou em mãos o encargo de os proteger de mãos e intenções menos pias. Um dia sonhava ela, construiriam naquele sítio um pequeno santuário a recordar que foram sobrinhos seus os escolhidos pela Mãe de Deus, e aqueles donativos serviriam esse fim.

Claro que o padre Miguel recusou donativos com tão obscura e blasfema procedência, e alertou o Bispo em Leiria para a tragédia que se adivinhava. Responderam que já lhes havia chegado ao conhecimento tal blasfémia, e prometeram-lhe que em breve enviariam alguém para apreciar o fenómeno, alguém com autoridade para tomar controle da situação. O padre Miguel começou assim a sua longa espera.

A Tia Maria da Benta, entretanto, escolheu uma pequena mesa e carregou-a às costas até ao campo de pasto da família, e pousou-a junto à Oliveira, para que todos pudessem colocar ali as oferendas que ela, no dia seguinte, viria recolher e guardar. Montou um arco com paus, algumas flores, e duas lanternas de óleo. Logo no primeiro dia, a mesa desapareceu. Tudo o que a Tia Maria da Benta encontrou no seu lugar foi um monte de donativos, moedas, notas, peças de ouro. A mesa fora soterrada pela Fé.

Quando chegou o dia 13 de Setembro, ninguém conseguia contar quantas pessoas tinham já visitado o Campo da Eira. O prado era agora terra seca e esmagada. A Oliveira das Aparições secara, a sua casca esfolada, as folhas e ramos arrancados como relíquias. E, depois dela, foram esfarrapadas as oliveiras vizinhas. Pela voz do povo corria a curiosidade em estarem presentes, em assistirem a nova Aparição de Nossa Senhora, naquela que seria a quinta-feira memorável de 1917. Nem as crianças iriam faltar. A comadre Hermínia desdobrava-se em azáfama, nem pensar em deixar que roubassem à sua filha a glória do protagonismo num dia que ficaria para a História. Se os pais de Alzira e Almerindo os fechavam em casa para os protegerem roubando-os da sua glória, era erro que a comadre Hermínia não cometeria. Vestiu a criança com a melhor roupa, colocou-lhe colares de ouro, lenços de linho, meias brancas e sapatos novos. E assim a levou, para o Campo da Eira, protegida pelo marido e por um irmão deste. Nem reconheceram Campo da Eira quando lá chegaram. Milhares de Portugueses se espalhavam, farnéis ao pé, garrafões de vinho por companhia, pelo deserto de terra seca que antes fora promessa de verdejante Fé. Amontoavam-se lixo e fezes humanas, maços de cigarro e fósforos queimados, papéis sebentos e restos de comida. E quando viram a criança, como cadáveres adiados, levantaram-se e tropeçaram ao seu encontro. Os mais afoitos começaram a aproximar-se. Chamaram por Rosa. Tentaram tocar-lhe. Pediam-lhe pelo amor duma apaixonada. Rosa concedia-lhes tal amor. Pediam dinheiro e desafogo. Claro que sim, o cheque seguira pelo correio. Mas pela meia-dúzia que apaziguava, atiçava os ânimos de milhares.

Porque quem ali estava, naquela tarde arrefecida de Setembro, não fora lá por dinheiro, nem por paixão, mas por amor a familiares distantes. Unia-os um único apelo. Nas terras de La Lis se sepultava o ganha-pão das famílias Portuguesas. Que Nossa Senhora fizesse o que o Governo Republicano não soubera fazer: escutar a voz dos familiares dos soldados destacados para o estrangeiros, ouvir o lamento das mães, das esposas, dos irmãos e irmãs, filhos e filhas, dos homens integrando o Corpo Expedicionário Português, enviados para morrer em França.

Aos poucos a turba foi rodeando a pequena vidente. Os três adultos que a protegiam tentavam manter afastadas as pessoas, mas era impossível deter tanta gente. De repente, quando tentaram ser mais afoitos e afastar a turba, viram-se separados, rodeados, bloqueados. Rosa desaparecia por entre braços, os gritos de medo abafados pelas súplicas. “Larguem a criança! Larguem a minha filha!”, gritavam, mas naqueles breves segundos Rosa era desfolhada como uma oliveira, arrancavam-lhe as peças de ouro, rasgavam-lhe as roupas, arrancavam-lhe cabelos, violavam a sua paz. Mas as parcas relíquias não chegaram para tanta Fé.

E quando as relíquias acabaram, e as dezenas desesperadas lhe imploraram que pedisse a Nossa Senhora para acabar com a Guerra, sufocando-a com o peso dos seus corpos, Rosa gritou aquilo que sabia que eles queriam ouvir:

“A guerra acaba hoje!”

Minutos depois, tremendo ainda de medo, Rosa estava a salvo fechada em casa, pelos braços de seus pais. A multidão delirava, lá longe no Campo da Eira, trocada a presença da santa criança pela revelação do Primeiro Segredo. Ninguém deu mais pela sua falta, durante todo o dia.

A recordação dolorosa demorou a evaporar-se, como a névoa que se eleva das árvores num dia quente de Maio após uma breve chuva, mas a loucura sedimentava nos solos áridos. Rosa estava presa a uma roda de tortura, e cada frase que usava para se libertar era uma frase mais que a prendia. Conseguira fugir naquele dia, mas agora as pessoas queriam saber mais. O resto, faltava o resto. Decerto, a Nossa Senhora não aparecera apenas para contar que a Guerra iria acabar. Que lhe contara nos dias anteriores, o quê?!

Pobre Rosa, quantos Segredos teria de revelar até se saciarem? Por Sorte e intervenção do Deus, Rosa foi salva ao dia 13 de Outubro. Quando o dia se aproximava, e Rosa se martirizava para encontrar uma saída, cavaleiros vieram ao seu encontro, vestidos com a farda da Guarda Nacional Republicana, a força fiel ao Governo Republicano, a mesma força que esmagara a revolta da Cadeia da Relação no Porto a 19 de Maio e o golpe de estado em Lisboa a 20 de Maio desse mesmo ano. Sete dias depois do dia 13 de Maio, por estranha coincidência que Rosa ignorava.

Detida, Rosa foi poupada a nova loucura, mas esta não foi impedida. Ganhara já uma vida própria, independente das palavras das crianças videntes. Enquanto Rosa era interrogada em Leiria, e o Capitão da GNR a assustava com ameaças de prisão e degredo, no Campo da Eira as barreiras da GNR foram galgadas pela multidão histérica que acorreram a assistir a milagres nunca antes vistos por olhos mortais, uns viam o Sol a dançar por entre as nuvens, outros diziam que estranhos cabelos de anjo caíam dos céus, outros ainda que um estranho calor lhes secara as roupas húmidas das chuvas que começavam a cair. Os carros, ainda poucos mas mesmo assim presentes, foram testemunho de que algo insólito se passava, quando se calaram e se recusaram a obedecer às ordens de arranque, quando o Sol dançou por entre as nuvens.

Breves minutos, e tudo se calmou e voltou à ordem prévia. E Rosa foi libertada. Para se preocupar com o próximo dia 13, em Novembro.

 

 

Entretanto, numa tarde calma entre Aparições, o padre Miguel teve de abandonar a sua igreja para administrar a extrema-unção ao pobre João Águas, um lavrador que vivia num casebre distante da pequena aldeia, e à vinda deu com um carro rico parado à porta da sua igreja. Pensando tratar-se de um dos milionários das grandes cidades que vinham à blasfémia das Aparições, bateu no vidro do condutor adormecido, enfurecido pela afronta. O condutor acordou, e desculpou-se dizendo que trouxera o Reverendo desde Leiria para lhe dar uma palavrinha.

O padre Miguel rejubilou. Finalmente, a Santa Autoridade da Igreja chegara a Campo da Eira para pôr um fim àquela loucura ímpia. Correu ao interior, e ajoelhou-se perante o Bispo agradecendo a sua intervenção. Contou-lhe toda a impostura que assolava a pequena paróquia, e como desde o início tentara convencer os pais das crianças a não espalhar mentiras. Jurou a pés juntos que nunca acreditara naquelas histórias, e que achava um insulto para a Igreja que ninguém ajudasse a reparar o telhado da casa de Deus mas houvesse dinheiro e ouro escondidos para oferecer em donativos ímpios.
O Bispo desculpou-o, e disse que não se preocupasse mais, pois estava ali para o informar que fora agraciado com a transferência para outra paróquia, como recompensa para tão valoroso serviço em defesa do bom nome da Santa Madre Igreja. De ora em diante, o Bispado tomaria conta da situação, e regularizaria a questão dos donativos.

Graças a Deus, não chegou a haver 13 de Novembro.

in Fenix Mutilada

Uma história que convêm recontar, passados 91 anos.

A história é tão conhecida que convêm recontá-la só para ter a certeza que todos a conhecem contada da mesma maneira. É a história de como três crianças, Rosa, Alzira e Almerindo, foram visitados pela Nossa Senhora, a Mãe de Cristo, num local agora famoso chamado Campo da Eira.

Foi numa bela tarde de domingo, quando pastavam ovelhas, que tudo aconteceu. Estavamos em 1917, no início do século vinte, e há quase cem anos atrás, e era o 13 de Maio, uma data como qualquer outra. As três crianças saiam de suas casas com as ovelhas, levavam-nas ao terreno de pasto do Campo da Eira, e por lá ficavam a tarde toda, a cuidar das ovelhas e a brincar, quando a pequena Alzira estacou e ficou a olhar o alto duma oliveira. De forma inexplicável uma figura fantástica lhes apareceu, e com elas falou.

Contou-lhes que era Nossa Senhora, e que tinha três segredos para lhes revelar. Eram três segredos que deveriam guardar, mas que por dizerem respeito ao futuro da Humanidade elas deveriam dar conhecimento da sua existência, e apelar à devoção religiosa do povo cristão, para que através do sacrifício e da Fé conseguissem salvar a Humanidade de um futuro assustador. Um por um, revelou-lhos, bem como quando deveriam dar a conhecer esses segredos, e pediu-lhes que todos os dias 13 dos meses seguintes ali aparecessem para com ela rezarem pelo futuro da Humanidade.

E depois desvaneceu-se.

As crianças assustaram-se com o sucedido, e combinaram calar o que acontecera. O seu dia a dia foi decorrendo sem incidentes. Levavam as ovelhas a pastar ao Campo da Eira, à noite ajudavam os pais a arrumar a casa e a cozinhar para as respectivas famílias, aos domingos iam de manhã à Igreja e à tarde lá levavam de novo as ovelhas ao pasto.

Convêm dizer que as crianças eram familiares. Rosa, a mais velha, era prima dos outros dois, Alzira e Almerindo, dois irmãos cuja mãe era irmã do pai de Rosa. Desde novos, Alzira e Almerindo eram cuidados pela prima Rosa, três anos mais velha que Alzira, e quatro mais velha que Almerindo. Estudavam os três a Bíblia, e os irmãos aprendiam com a prima os ensinamentos religiosos que a mãe de Rosa, mulher de Fé, lhe contava desde criança pequena. Aos domingos, iam à velha Igreja cujo padre desesperava pela miséria do Povo, que não permitia efectuar os consertos que o respeito pela Casa de Deus exigia que se fizessem ao telhado. E, ainda elas eram muito crianças, tragédias sucederam em Portugal.

Em Lisboa, a capital do velho Império, chegara em 1910 ao Poder uma maneira nova de olhar o Mundo. Nas palavras, defendiam o Homem e a sua liberdade mas, em actos, praticavam ataques à Igreja e àqueles que a defendiam. Exigiam que todos os cidadãos se identificassem num registo central, para melhor os poder controlar. Tentavam, através da educação, ensinar as crianças a odiar a Igreja. Iam ao ponto de queimar algumas igrejas e escorraçar os padres, tomando posse dos seus parcos bens e entregando-os ao Estado. Por trás da palavra Liberdade, escondiam o ódio pelo ensinamento moral e pela palavra de Deus. Assassinaram a família real e, através de milícias e exércitos privados, degladiavam-se pelo poder e dividiam os despojos do Império entre si como cães danados. Desde pequenos, os três pastorinhos aprenderam o perigo e o nome que lhe davam: República.

Em 1914, rebentou a Guerra no Mundo. Uma Guerra como nunca dantes vista. Uma Guerra que unia nações numa mortandade mecânica e tecnológica. Venenos eram despejados sobre exércitos inteiros. Bombas eram atiradas de máquinas voadoras. Monstros de metal esmagavam a carne indefesa. A Guerra opunha a cultura libertadora germânica, em ascensão, aos interesses esclavagistas das potências republicanas imperiais, em declínio. Lutando contra a sua derrota, as potências esclavagistas, outrora inimigas, uniram-se num enorme exército e rasgaram trincheiras no coração da Europa, tentando destruir a Prússia germânica. E a República, em Portugal, acorreu a ajudar os seus cúmplices ateus, lançando na máquina da guerra a carne de milhares de jovens Portugueses, ignorantes e analfabetos, mal armados e vestidos. Não havia uma família, em Portugal, que não tivesse um pai, um filho, um marido ou irmão, a ser convocado e enviado para a distante França, para morrer pela República “mata-frades”. O Corpo Expedicionário Português, assim se chamava, crescia cada vez mais, e 1917 era um ano decisivo. Nunca, como então, Portugal mandara tantos dos seus filhos a morrer longe.

Para as crianças, estes demónios que o padre da pequena Igreja denunciava, pareciam eternos. Ninguém saberia se a Guerra iria acabar, ou quando. Excepto os três pastorinhos.

Quando a quarta-feira 13 de Junho chegou, as crianças já se haviam esquecido da aparição da Nossa Senhora. O mundo estava a arder, e nada parecia ser capaz de deter a mortandade. Foi então que Nossa Senhora lhes apareceu, do cimo da mesma oliveira, e perguntou porque não haviam feito o que lhes havia pedido. As crianças, arrependidas da sua falta de Fé, sabiam agora que haviam sido escolhidas, pela sua inocência e reconhecimento de uma pureza e força interior que desconheciam ter, para carregar o fardo de serem porta-vozes da entidade divina.

Prenhes de Fé, acorreram a contar aos seus pais o que havia sucedido. Mas foram mal recebidas. Com descrença. Com nojo. Com ofensa. Como poderiam elas não reconhecer o quão sacrílego era brincarem com a Fé, ainda para mais com a Santa Virgem? Foram ignoradas, insultadas, castigadas. Mas a Fé mantinha quentes os seus pequenos corações.

E esse calor foi sentido a quilómetros de distância. A Fé atraiu ao Campo da Eira um número crescente de curiosos, de cristãos em sofrimento, de cristãos empenhados em mudar o mundo pelo poder da oração. Aos poucos, todos foram acreditando que da boca daquelas três pequenas crianças apenas poderia vir a verdade. E começaram a seguir os seus conselhos. Em multidões crescentes, começaram a juntar-se no Campo da Eira nos dias treze de cada mês, e rezavam à Virgem Mãe para que trouxesse paz ao mundo. Assim passou Julho e Agosto. Quando Setembro chegou, a própria aldeia estava convencida, e a Igreja teve de reconhecer o prodígio da aparição.

Quando os seguidores do verdadeiro Deus se juntaram ocupando o Campo da Eira na sua totalidade, a 13 de Setembro, a Virgem apareceu, e através da sua inspiração, a Irmã Rosa foi escolhida para revelar o primeiro dos três segredos: a Fé havia salvo o Mundo da destruição.

A Guerra não duraria nem mais um ano.

Incapazes de conter o fenómeno da Fé, Igreja e Governo acorreram ao Campo da Eira. A Igreja, para se prostrar aos pés da Virgem. A República, para assassinar os pequenos videntes. As três crianças foram detidas por cavaleiros da Guarda Nacional Republicana. A ameaça nem foi velada. Iriam assassiná-las para impedirem de conseguir agregar tanto apoio à causa da Fé. Mas a Irmã Rosa fez frente aos agentes da República, e os protestos de milhares de populares asseguraram a sua libertação. Sem o saber, a criança havia conquistado a sua maior vitória, a de ter merecido a santidade em vida por ter enfrentado a morte em nome da Fé.

Com a espinha da corrupta República agora quebrada, esperavam-se grandes prodígios da Virgem. Mas a Humanidade não poderia esperar, como crianças, que fosse Deus e os seus a resolverem os problemas do Mundo. Este Mundo foi-nos dado, e com ele a vida, para que obrássemos no nome do Senhor, e não para ficarmos quietos à espera que Ele fizesse tudo por nós. Grandes provações esperavam as pessoas de Fé, mas para que se aguentassem sem medo a Virgem iria dar-lhes um último sinal antes de terminar as suas aparições.

E foi assim que no dia 13 de Outubro, uma sexta-feira cálida, se juntou a maior mole de cristãos alguma vez vista junta nas terras de Afonso Henriques, ali no Campo da Eira, para assistir ao que apenas os olhos das três pequenas crianças haviam visto ainda. Todos eles iriam ser escolhidos para testemunharem o prodígio de Deus.

O que se seguiu ainda hoje é recordado com calor por aqueles que o testemunharam e foram ouvidos. Vinda do nada e com a subitez de um relâmpago, uma impenetrável névoa chuvosa caiu sobre o Campo da Eira e, quando muitos começavam a desanimar pelo desconforto da humidade, e pela incapacidade de verem com os olhos do corpo, a Virgem fê-los ver com os olhos da mente. Através da névoa, o Sol dançou sobre o Campo da Eira, ora escondendo-se atrás duma nuvem ora de outra. Mesmo os homens mais esclarecidos que estavam presentes perceberam que apenas a mão do Deus Único poderia mandar na estrela Sol e fazê-la mexer assim no firmamento. Alguns mais abonados, que vieram de automóvel, tentaram fugir nas suas máquinas, mas as mesmas estavam imobilizadas pela mão de Deus. O medo que muitos tiveram no início desvaneceu-se dando lugar a uma sensação de eterna Paz. E, quando tudo parecia terminado, a névoa desapareceu com a mesma subitez com que caíra, e o Sol lá estava, no seu lugar, como se sorrisse. E todos os corpos molhados estavam secos. E todos os automóveis começaram a roncar graciosamente.

Um por um, abandonaram o Campo da Eira com a paz nos corações, e acorreram a pregar a verdade do que haviam visto.

Infelizmente, destino mais triste tiveram dois dos três pastorinhos. Os dois irmãos adoeceram com a gripe espanhola que correu a Europa em 1919. Almerindo primeiro, e depois Alzira, a pequena Alzira que primeiro havia visto a Nossa Senhora no cimo da oliveira, acabariam por morrer. Tendo Rosa que carregar sozinha a cruz dos três segredos, a Igreja cuidou que fosse levada para a segurança de um convento espanhol, onde poderia receber uma educação que nunca o Estado Republicano lhe garantiria no triste Portugal. Passou os três segredos a escrito, e confiou-os ao Santo Padre, em Roma.

O segundo, seria revelado em 1946, quando a Igreja quis canonizar a sua prima Alzira. Autorizada a isso pela inspiração divina, a Irmã Rosa, agora com 42 anos, revelou ao Mundo que já em Maio de 1917 a Virgem lhe revelara os acontecimentos que ocorreriam em Novembro desse ano na grande nação cristã da Rússia. Mas que não desesperassem. Apesar da traição da grande nação ateia, aliada da Europa Cristã durante a Segunda Guerra Mundial mas facilmente tentada para o lado da ambição material pela sua natureza socialista, a Rússia Soviética nunca iria conseguir manter durante muitos mais anos a opressão sobre o povo livre e religioso. Em 1991, a História mais uma vez revelaria a veracidade dos segredos de Fátima.

Foi o terceiro, contudo, que criou mais celeuma. Como tudo o que é mantido muito tempo em segredo, deu origem às mais selvagens fantasias. Desde profecias do fim do mundo, a profecias sobre o fim da Cristandade, a invasões por extraterrestres, nomeadamente do planeta Vénus, tudo havia sido projectado sobre o vazio do terceiro segredo. A teoria mais válida, era a de que previa algo sobre a queda do papado de Roma. Teria sido escrito e guardado sigilosamente, aberto apenas uma vez na década de sessenta, e o Papa que lera o segredo quase desmaiara, depois ordenara que o segredo fosse ocultado para sempre!

Até que, um dia, o Papa João Paulo II foi vítima de um atentado na Praça São Pedro. Um turco, Ali Agca, apontou-lhe uma arma mas, no último momento, uma mão invisível puxou o Papa para o lado, e a bala alojou-se num pulmão falhando o coração por milímetros. Logo o papa revelou que sentira a presença da Virgem de Fátima naquele segundo fatal, e a bala que lhe foi retirada foi oferecida ao Santuário no Campo da Eira e incrustada na coroa da imagem votiva. Alguns anos mais tarde, no início do Século 21, movido pela inspiração divina?, o velho Papa decidiu revelar o terrível segredo. Estava previsto que um Papa iria ser assassinado no meio dos seus devotos, mas essa tragédia fora evitada pela misericórdia divina.

O Terceiro Segredo fora desvendado. E de repente o mistério de Fátima tinha terminado, e o calor da Fé pareceu esmorecer. E registou-se a maior quebra desde sempre, de vendas de artigos Marianos em Fátima.

In Fénix Mutilada

Banal, assim parecia a José Machado a Rotunda dos Peregrinos, à entrada da pequena localidade do Campo da Eira. Era fácil identificá-la: uma rotunda com a imagem sólida de três caminhantes, vestidos com roupas sóbrias, corpos pesados de cansaço mas mesmo assim jogados em frente com a força da Fé, voltados em direcção a um Santuário que ainda não se conseguia vislumbrar na planície por entre as árvores altas e os telhados das casas.
Aproximava-se o Treze de Maio, dia de comemoração da primeira Aparição, e cresciam os automóveis espalhados pelos diversos parques oficiais de estacionamento construídos ao longo de anos e anos de devoção arquitectónica ao Plano de Desenvolvimento Municipal do Campo da Eira. Para um país que raramente demonstrava capacidade de organizar o que quer que fosse, uma região tão remota como o Campo da Eira estava muito bem organizada nos acessos ao Santuário e na distribuição dos parques de estacionamento.

E daí, não era tão remota quanto isso. O Santuário crescia desde as Aparições em 1917, e reunia dinheiro suficiente todos os anos para pagar a um bom arquitecto. Ao contrário de religiões fraudulentas como a Igreja Universal do Reino de Deus, que extorquia pequenas fortunas dos bolsos dos doentes mentais que atraía às suas cerimónias de histeria massificada. Com a desculpa da modéstia, a IURD mantinha os templos reduzidos à austeridade de paredes de cimento e cadeiras de plástico; nunca explicavam para que necessitavam dos donativos, ou onde os usavam, e os seus seguidores estavam sempre demasiado desesperados por luz para entenderem a incongruência duma igreja que não é gaga a pedir dinheiro, e depois se faz de sóbria quando se trata de o gastar. A Igreja Católica Apostólica Romana, por seu lado, fazia o oposto, e dispendia o dinheiro em santuários luxuosamente decorados e igrejas douradas onde viviam padres com vidas de penúria. Ou talvez já não tivessem mais pecados onde gastar a sua fortuna e decidissem utilizar os trocos a dourar a talha dos altares.

De qualquer modo, a estrada que unia Lisboa ao Porto (ou o Porto a Lisboa?) serpenteava estranhamente por entre as serras do Portugal meridiano, que a levavam a uma proximidade do santuário que era tão prática, que uma mente mais maldosa decerto concluiria que o Estado se dera ao trabalho de gastar mais algum dinheiro dos contribuintes só para que os peregrinos pudessem ter acesso directo ao sangradouro. Após a saída directa para o Campo da Eira, chegava à primeira Rotunda, e depois a estrada rodeava o Santuário através de mais duas rotundas, com acessos directos ao interior da localidade - e ao Santuário, e por fim a estrada terminava na primeira rotunda novamente. E assim a percorreu por três vezes, tentando ganhar coragem.

No lugar do morto, o telemóvel tocava com regularidade, e José carregava no acelerador quando o ouvia. Respirando fundo, voltou para o interior da localidade. Convenceu-se a si próprio que apenas iria dar uma vista de olhos.

As ruas estavam ocupadas por peregrinos, os passeios por automóveis, e dos parques irrompiam filas intermináveis. Junto a dezenas de camionetas, os seus condutores comiam algo, bebiam vinho tinto de garrafões, ou dormiam ao Sol que aquecia o dia sem nuvens. Conduziu devagar, a tentar encontrar um espaço livre para estacionar, que não fosse passadeira ou entrada de garagem. Por fim, encontrou um espaço perto duma curva. Não era o certo para estacionar, mas se por lá estavam outros automóveis decerto ninguém se importaria que colocasse lá o seu. Só o facto de travar o carro junto ao espaço livre o fez sentir-se um criminoso, e a sua mente inundava-se de imagens de polícias a acorrerem a multá-lo numa demonstração de uma discriminação percebida, sentida, imaginada, sempre que fazia algo que achava estar incorrecto. Curiosamente, esse sentimento de discriminação não nascia duma falta de certeza do que estava certo e justo, mas da culpa de não ser capaz de assumir essa certeza. Poderia ter dado mais uma volta à terra em busca de outro local para estacionar, ao contrário de todos os outros condutores inconscientes e preguiçosos. Se o tivesse feito, de nada lhe adiantaria. Ninguém elogiaria a sua justeza. O lugar seria aproveitado por quem viesse atrás. Imaginava o condutor de trás a gozá-lo, se decidisse fazer o que estava certo, o único idiota que acreditava em ideais. Mas sabia que, embora tivesse ideais, nunca os defendia.

Desligou o motor.

Respirou fundo, e apertou a barriga. A cólica regressava, com um arrepio de frio e uma pressão na sua ampola rectal que iria durar uma eternidade de segundos. Encolheu-se, tentando concentrar o seu calor corporal e vencer a cólica. Foi então que o telemóvel voltou a tocar. “Cala-te! Agora não!”, gemeu. Baloiçou o corpo, tentando apaziguar o medo, e não sabia bem o que fazia a sua mão quando pegou no telemóvel e atendeu Batista.

- Estou? Desculpa não ter atendido antes, vinha a conduzir. Já cheguei! - Exclamou com triunfo, esperando insultos.

“Já? Merda, tentei-te apanhar antes. Não valia a pena ires, pá...”

As estrelas riram-se.

- Que se passa?

“Ligou-me o padre Marta, a vidente sentiu-se mal esta noite e teve de ser internada em Leiria.”

- Então já não vai haver entrevista?

"Tentei apanhar-te a tempo de evitar-te a viagem. Olha, agora já que estás aí, podias ir até Leiria e falar com o padre no Hospital.”

- Tenho mesmo? Não posso ir embora?

“Vá, Zé, não comeces com essas coisas. Este é a última ajuda que te dou, não me deixes ficar mal. Se tudo correr bem, podes vir a arranjar mais trabalhos. Sabes que estás queimado nas outras agências, que ninguém te contrata para nada por não poder contar contigo. Se me fazes esta desfeita, risco-te da minha lista. Como é? Conto contigo?”

José Machado engoliu em seco. Queria que o mandasse para casa, fechar-se no quarto, deitar-se na cama, masturbar-se a imaginar mundos de prazer em praias quentes com mulheres que nunca iria conhecer, para depois chorar o seu fracasso como ser humano e olhar a janela do terceiro andar com aquele fascínio duma saída para o paraíso pelo atalho da Morte. Mas teria tempo de chorar depois, agora tinha de vencer-se a si próprio.

- Tenho de fazer o quê? - Perguntou, com voz derrotada.

“Hospital da Misericórdia, em Leiria. Vai lá estar o padre Marta. Dizes que vais da minha parte, ele está à tua espera. Já lá devias estar.”

- Houve um acidente na VCI, à saída para o Freixo, eu...

“Não interessa. Falei com ele há bocado, e ele também me disse que ainda se ia dirigir para lá. Está à tua espera lá por volta das cinco. Vai com calma!”

- OK. Hospital da Misericórdia, Leiria, como se chama o homenzinho?

“Padre-Marta”, Batista separou as palavras para as perceber melhor.

Desligou o telemóvel, repetindo para si mesmo os nomes, para não se esquecer antes de os escrever num papel. Sabia que se não o fizesse, teria de ligar a Batista mais tarde para ele lhos repetir. E isso era algo que não queria fazer.

Respirou fundo. Estava mais calmo. O desaire era temporário, mas por outro lado ficava mais calmo sabendo que iria falar com a Irmã Rosa num ambiente médico e não numa instituição religiosa. Embora fosse um hospital privado. E religioso. E tinha ainda uma hora para lá chegar, o que reduzia um pouco a sua ansiedade. Voltaria daí a cinquenta minutos, quando estivesse a procurar estacionamento em Leiria, mas até lá deixá-lo-ia sossegado.

Decidiu esticar as pernas, e dar uma volta a conhecer a localidade, onde nunca se deslocara em quarenta anos de vida. As casas, embora modestas, eram modernas e estavam bem arranjadas, e as ruas antigas estreitas, tinham passeios cuidados e novos. Talvez fossem reflexos dos anos do Governo Socialista de António Guterres, que fora um mãos-largas com os interesses regionais, ou uma demonstração de que Campo da Eira parecia ficar num cantinho afastado do Portugal mediano, mais próximo dum paraíso europeu.

Porta sim porta sim, ficava uma casa de recordações. A imagem das Aparições era uma constante em todo o lado. Os símbolos repartiam-se basicamente por três temas: a imagem da Nossa Senhora, chorosa sob um manto azul-claro; a imagem dos três pastorinhos videntes; (a devida combinação entre estes dois temas, claro); e figuras macabras de cera, de mãos, pés, braços, bebés, olhos, cabeças, que se vendiam nas lojas de velas numa procissão necrofílica de desespero. E havia imagens de Nossa Senhora e dos Pastorinhos em tudo que se vendia lá: camisolas, canecas, pratos, lenços, toalhas, lenços de papel, azulejos, livros, copos, fotografias, molduras, fotografias em molduras, jogos, brinquedos, binóculos, chapéus, chapéus-de-chuva, aventais (azuis e brancos), peças em porcelana, rebuçados, bolas de futebol, rádios, capas de telemóvel, cachecóis, peúgas, bonés, cubos mágicos, baralhos de cartas, gravatas, chocolates, capas para maços de cigarros, esteiras para assentos de automóvel, coletes reflectores (!), colares, relicários, candelabros, almofadas, ... Tudo! Só não havia em preservativos e lubrificante aquoso para sexo anal. Ainda ninguém se tinha lembrado dessas duas opções, mas ali deveriam vender pouco.

...

In Fénix Mutilada

A história é tão conhecida que convêm recontá-la só para ter a certeza que todos a conhecem contada da mesma maneira. É a história de como três crianças, Rosa, Alzira e Almerindo, foram visitados pela Nossa Senhora, a Mãe de Cristo, num local agora famoso chamado Campo da Eira.

Foi numa bela tarde de domingo, quando pastavam ovelhas, que tudo aconteceu. Estavamos em 1917, no início do século vinte, e há quase cem anos atrás, e era o 13 de Maio, uma data como qualquer outra. As três crianças saiam de suas casas com as ovelhas, levavam-nas ao terreno de pasto do Campo da Eira, e por lá ficavam a tarde toda, a cuidar das ovelhas e a brincar, quando a pequena Alzira estacou e ficou a olhar o alto duma oliveira. De forma inexplicável uma figura fantástica lhes apareceu, e com elas falou.

Contou-lhes que era Nossa Senhora, e que tinha três segredos para lhes revelar. Eram três segredos que deveriam guardar, mas que por dizerem respeito ao futuro da Humanidade elas deveriam dar conhecimento da sua existência, e apelar à devoção religiosa do povo cristão, para que através do sacrifício e da Fé conseguissem salvar a Humanidade de um futuro assustador. Um por um, revelou-lhos, bem como quando deveriam dar a conhecer esses segredos, e pediu-lhes que todos os dias 13 dos meses seguintes ali aparecessem para com ela rezarem pelo futuro da Humanidade.

E depois desvaneceu-se.

As crianças assustaram-se com o sucedido, e combinaram calar o que acontecera. O seu dia a dia foi decorrendo sem incidentes. Levavam as ovelhas a pastar ao Campo da Eira, à noite ajudavam os pais a arrumar a casa e a cozinhar para as respectivas famílias, aos domingos iam de manhã à Igreja e à tarde lá levavam de novo as ovelhas ao pasto.

Convêm dizer que as crianças eram familiares. Rosa, a mais velha, era prima dos outros dois, Alzira e Almerindo, dois irmãos cuja mãe era irmã do pai de Rosa. Desde novos, Alzira e Almerindo eram cuidados pela prima Rosa, três anos mais velha que Alzira, e quatro mais velha que Almerindo. Estudavam os três a Bíblia, e os irmãos aprendiam com a prima os ensinamentos religiosos que a mãe de Rosa, mulher de Fé, lhe contava desde criança pequena. Aos domingos, iam à velha Igreja cujo padre desesperava pela miséria do Povo, que não permitia efectuar os consertos que o respeito pela Casa de Deus exigia que se fizessem ao telhado. E, ainda elas eram muito crianças, tragédias sucederam em Portugal.

Em Lisboa, a capital do velho Império, chegara em 1910 ao Poder uma maneira nova de olhar o Mundo. Nas palavras, defendiam o Homem e a sua liberdade mas, em actos, praticavam ataques à Igreja e àqueles que a defendiam. Exigiam que todos os cidadãos se identificassem num registo central, para melhor os poder controlar. Tentavam, através da educação, ensinar as crianças a odiar a Igreja. Iam ao ponto de queimar algumas igrejas e escorraçar os padres, tomando posse dos seus parcos bens e entregando-os ao Estado. Por trás da palavra Liberdade, escondiam o ódio pelo ensinamento moral e pela palavra de Deus. Assassinaram a família real e, através de milícias e exércitos privados, degladiavam-se pelo poder e dividiam os despojos do Império entre si como cães danados. Desde pequenos, os três pastorinhos aprenderam o perigo e o nome que lhe davam: República.

Em 1914, rebentou a Guerra no Mundo. Uma Guerra como nunca dantes vista. Uma Guerra que unia nações numa mortandade mecânica e tecnológica. Venenos eram despejados sobre exércitos inteiros. Bombas eram atiradas de máquinas voadoras. Monstros de metal esmagavam a carne indefesa. A Guerra opunha a cultura libertadora germânica, em ascensão, aos interesses esclavagistas das potências republicanas imperiais, em declínio. Lutando contra a sua derrota, as potências esclavagistas, outrora inimigas, uniram-se num enorme exército e rasgaram trincheiras no coração da Europa, tentando destruir a Prússia germânica. E a República, em Portugal, acorreu a ajudar os seus cúmplices ateus, lançando na máquina da guerra a carne de milhares de jovens Portugueses, ignorantes e analfabetos, mal armados e vestidos. Não havia uma família, em Portugal, que não tivesse um pai, um filho, um marido ou irmão, a ser convocado e enviado para a distante França, para morrer pela República “mata-frades”. O Corpo Expedicionário Português, assim se chamava, crescia cada vez mais, e 1917 era um ano decisivo. Nunca, como então, Portugal mandara tantos dos seus filhos a morrer longe.

Para as crianças, estes demónios que o padre da pequena Igreja denunciava, pareciam eternos. Ninguém saberia se a Guerra iria acabar, ou quando. Excepto os três pastorinhos.

Quando a quarta-feira 13 de Junho chegou, as crianças já se haviam esquecido da aparição da Nossa Senhora. O mundo estava a arder, e nada parecia ser capaz de deter a mortandade. Foi então que Nossa Senhora lhes apareceu, do cimo da mesma oliveira, e perguntou porque não haviam feito o que lhes havia pedido. As crianças, arrependidas da sua falta de Fé, sabiam agora que haviam sido escolhidas, pela sua inocência e reconhecimento de uma pureza e força interior que desconheciam ter, para carregar o fardo de serem porta-vozes da entidade divina.

Prenhes de Fé, acorreram a contar aos seus pais o que havia sucedido. Mas foram mal recebidas. Com descrença. Com nojo. Com ofensa. Como poderiam elas não reconhecer o quão sacrílego era brincarem com a Fé, ainda para mais com a Santa Virgem? Foram ignoradas, insultadas, castigadas. Mas a Fé mantinha quentes os seus pequenos corações.

E esse calor foi sentido a quilómetros de distância. A Fé atraiu ao Campo da Eira um número crescente de curiosos, de cristãos em sofrimento, de cristãos empenhados em mudar o mundo pelo poder da oração. Aos poucos, todos foram acreditando que da boca daquelas três pequenas crianças apenas poderia vir a verdade. E começaram a seguir os seus conselhos. Em multidões crescentes, começaram a juntar-se no Campo da Eira nos dias treze de cada mês, e rezavam à Virgem Mãe para que trouxesse paz ao mundo. Assim passou Julho e Agosto. Quando Setembro chegou, a própria aldeia estava convencida, e a Igreja teve de reconhecer o prodígio da aparição.

Quando os seguidores do verdadeiro Deus se juntaram ocupando o Campo da Eira na sua totalidade, a 13 de Setembro, a Virgem apareceu, e através da sua inspiração, a Irmã Rosa foi escolhida para revelar o primeiro dos três segredos: a Fé havia salvo o Mundo da destruição.

A Guerra não duraria nem mais um ano.

Incapazes de conter o fenómeno da Fé, Igreja e Governo acorreram ao Campo da Eira. A Igreja, para se prostrar aos pés da Virgem. A República, para assassinar os pequenos videntes. As três crianças foram detidas por cavaleiros da Guarda Nacional Republicana. A ameaça nem foi velada. Iriam assassiná-las para impedirem de conseguir agregar tanto apoio à causa da Fé. Mas a Irmã Rosa fez frente aos agentes da República, e os protestos de milhares de populares asseguraram a sua libertação. Sem o saber, a criança havia conquistado a sua maior vitória, a de ter merecido a santidade em vida por ter enfrentado a morte em nome da Fé.

Com a espinha da corrupta República agora quebrada, esperavam-se grandes prodígios da Virgem. Mas a Humanidade não poderia esperar, como crianças, que fosse Deus e os seus a resolverem os problemas do Mundo. Este Mundo foi-nos dado, e com ele a vida, para que obrássemos no nome do Senhor, e não para ficarmos quietos à espera que Ele fizesse tudo por nós. Grandes provações esperavam as pessoas de Fé, mas para que se aguentassem sem medo a Virgem iria dar-lhes um último sinal antes de terminar as suas aparições.

E foi assim que no dia 13 de Outubro, uma sexta-feira cálida, se juntou a maior mole de cristãos alguma vez vista junta nas terras de Afonso Henriques, ali no Campo da Eira, para assistir ao que apenas os olhos das três pequenas crianças haviam visto ainda. Todos eles iriam ser escolhidos para testemunharem o prodígio de Deus.

O que se seguiu ainda hoje é recordado com calor por aqueles que o testemunharam e foram ouvidos. Vinda do nada e com a subitez de um relâmpago, uma impenetrável névoa chuvosa caiu sobre o Campo da Eira e, quando muitos começavam a desanimar pelo desconforto da humidade, e pela incapacidade de verem com os olhos do corpo, a Virgem fê-los ver com os olhos da mente. Através da névoa, o Sol dançou sobre o Campo da Eira, ora escondendo-se atrás duma nuvem ora de outra. Mesmo os homens mais esclarecidos que estavam presentes perceberam que apenas a mão do Deus Único poderia mandar na estrela Sol e fazê-la mexer assim no firmamento. Alguns mais abonados, que vieram de automóvel, tentaram fugir nas suas máquinas, mas as mesmas estavam imobilizadas pela mão de Deus. O medo que muitos tiveram no início desvaneceu-se dando lugar a uma sensação de eterna Paz. E, quando tudo parecia terminado, a névoa desapareceu com a mesma subitez com que caíra, e o Sol lá estava, no seu lugar, como se sorrisse. E todos os corpos molhados estavam secos. E todos os automóveis começaram a roncar graciosamente.

Um por um, abandonaram o Campo da Eira com a paz nos corações, e acorreram a pregar a verdade do que haviam visto.

Infelizmente, destino mais triste tiveram dois dos três pastorinhos. Os dois irmãos adoeceram com a gripe espanhola que correu a Europa em 1919. Almerindo primeiro, e depois Alzira, a pequena Alzira que primeiro havia visto a Nossa Senhora no cimo da oliveira, acabariam por morrer. Tendo Rosa que carregar sozinha a cruz dos três segredos, a Igreja cuidou que fosse levada para a segurança de um convento espanhol, onde poderia receber uma educação que nunca o Estado Republicano lhe garantiria no triste Portugal. Passou os três segredos a escrito, e confiou-os ao Santo Padre, em Roma.

O segundo, seria revelado em 1946, quando a Igreja quis canonizar a sua prima Alzira. Autorizada a isso pela inspiração divina, a Irmã Rosa, agora com 42 anos, revelou ao Mundo que já em Maio de 1917 a Virgem lhe revelara os acontecimentos que ocorreriam em Novembro desse ano na grande nação cristã da Rússia. Mas que não desesperassem. Apesar da traição da grande nação ateia, aliada da Europa Cristã durante a Segunda Guerra Mundial mas facilmente tentada para o lado da ambição material pela sua natureza socialista, a Rússia Soviética nunca iria conseguir manter durante muitos mais anos a opressão sobre o povo livre e religioso. Em 1991, a História mais uma vez revelaria a veracidade dos segredos de Fátima.

Foi o terceiro, contudo, que criou mais celeuma. Como tudo o que é mantido muito tempo em segredo, deu origem às mais selvagens fantasias. Desde profecias do fim do mundo, a profecias sobre o fim da Cristandade, a invasões por extraterrestres, nomeadamente do planeta Vénus, tudo havia sido projectado sobre o vazio do terceiro segredo. A teoria mais válida, era a de que previa algo sobre a queda do papado de Roma. Teria sido escrito e guardado sigilosamente, aberto apenas uma vez na década de sessenta, e o Papa que lera o segredo quase desmaiara, depois ordenara que o segredo fosse ocultado para sempre!

Até que, um dia, o Papa João Paulo II foi vítima de um atentado na Praça São Pedro. Um turco, Ali Agca, apontou-lhe uma arma mas, no último momento, uma mão invisível puxou o Papa para o lado, e a bala alojou-se num pulmão falhando o coração por milímetros. Logo o papa revelou que sentira a presença da Virgem de Fátima naquele segundo fatal, e a bala que lhe foi retirada foi oferecida ao Santuário no Campo da Eira e incrustada na coroa da imagem votiva. Alguns anos mais tarde, no início do Século 21, movido pela inspiração divina?, o velho Papa decidiu revelar o terrível segredo. Estava previsto que um Papa iria ser assassinado no meio dos seus devotos, mas essa tragédia fora evitada pela misericórdia divina.

O Terceiro Segredo fora desvendado. E de repente o mistério de Fátima tinha terminado, e o calor da Fé pareceu esmorecer. E registou-se a maior quebra desde sempre, de vendas de artigos Marianos em Fátima.

In Fénix Mutilada

Mais uma vez, o Cónego era tentado a conduzir até Coimbra, onde uma jovem prostituta de 19 anos o poderia deliciar com deliciosas carícias orais no seu membro viril. Mas sabia que nenhuma tentação do Demo viria sem preço.
Enquanto terminava o concurso “O Preço Certo”, ia dedilhando a Bíblia, em busca de palavras para a sua próxima homília. Pensava dedicar a mesma aos valores da Fé, especificamente na capacidade de acreditar cegamente nos ensinamentos e orientações da Igreja. Sabia que ia encontrar uma interessante história sobre ovelhas e pastores, e que isso iria resultar muito bem dados os acontecimentos recentes na vida da pastorinha vidente, a Irmã Rosa. Era ainda necessário preparar o terreno para que as pessoas aceitassem a possibilidade da Irmã Rosa falecer, como algo natural - e ao mesmo tempo manterem a crença nas suas palavras. O mito teria de permanecer vivo, mesmo após a morte da sua autora. A morte, por vezes, era algo de muito bom quando acontecia para o bem comum, para um bem superior aos interesses do indivíduo. Matava a concha mortal para libertar o destino.
Basear na cegueira uma homília sobre Fé, e apresentar essa cegueira como uma manifestação de visão, não ia ser difícil de fazer. Estava versado em esconder a falácia sob a forma de dogma. Quem ia à Igreja e era capaz de perceber a falácia, enojava-se da Igreja e nunca lá voltava. Quem permanecia, estava sedento de orientação, da Palavra, e de uma Verdade que eram incapazes de encontrar sozinhos. Pelo que o púlpito era só seu, para usar como entendesse. E como o Cónego só acreditava na Verdade de Deus, todas as outras pretensas verdades dos racionalistas soavam como falácias maiores aos seus ouvidos desatentos.
Por isso mantinha o último livro do excomungado Saramago na mesinha de cabeceira, numa gaveta fechada, onde guardava também as cartas astrológicas que ia encomendando todos os anos, com previsões sobre o seu futuro próximo, e que usava para guiar as suas decisões mais importantes. Por vezes, amedrontava-se com visões do Inferno e jogava tudo no lixo, mas depois o medo passava e recomeçava a colecção convencido da sua inocência e que a força da sua Fé o manteriam incólume à tentação.
Chegaram as vinte horas.
Conforme esperava, a notícia de abertura do telejornal falava da saúde da Irmã Rosa. Imagens da Irmã a receber a benção de Sua Santidade, entremeadas de imagens do Hospital onde se encontrava agora, preparavam o público para a notícia da sua morte, mas as palavras eram ainda ambíguas:

“Irmã Rosa hospitalizada de urgência esta madrugada, encontra-se em estado crítico mas estável.”

Isso bastava-lhe. Pousou a Bíblia no braço macio do sofá, e pegou no telefone portátil para discar um número privado que conhecia de cor. Segurou o auscultador firmemente de encontro a sua orelha esquerda, pescoço erguido com honra, mão direita pousada em juramento sobre a Bíblia. Não demoraram a atender.
“Boa noite”, recebeu-o a voz segura do outro lado da linha.
- Boa noite. Espero que as notícias lhe agradem.
José Rodrigues dos Santos apresentava agora a notícia da doença súbita da Irmã Rosa com o seu estilo suave e desapaixonado, com curtas palavras seguidas duma reportagem em directo da entrada do Hospital de Leiria onde a vidente se encontrava em estado crítico.
“Refere-se ao Canal Um? Sim, como vê estou em cima da notícia, e não vejo como isso atrapalhe os meus propósitos.”
- Onde ela está, vai ser mais difícil conseguirem arrancar dela palavras incómodas...
A voz do outro lado interrompeu-o.
“Na cama 13 da enfermaria H no segundo andar do Hospital da Misericórdia em Aveiro? Aos cuidados do doutor Valter Rodrigues, até lhe posso dizer a medicação que faz e os últimos resultados das análises. 112 de glicose. Bem, hipoglicemia não foi, e diabetes também não tem. O que terá levado a uma doença tão súbita? Que me diz, meu amigo? Serão problemas da idade, ou algum erro na medicação dada no Santuário?... Como vê, não percebo como crê que está assim tão longe de nós.”
- Tenta perturbar-me, meu caro, mas já devia saber não o conseguirá tão facilmente. A Irmã Rosa, possivelmente, não passa desta noite. Lamento, mas a sua tentativa falhou. Terá de levar esse seu ódio revanchista para outro lado.
“A última vez que soube, ela tinha acordado e falava. Chamou pela prima falecida, imagine! Talvez tenham sorte, e ela tenha perdido todo o juízo dela. Eu não apostava muito nisso. Afinal, juízo já ela o perdeu em jovem com as vossas torturas psicológicas em Espanha.”
O Cónego calou-se, enfurecido. A mão repousada contraíra-se num punho fechado, e as costas arqueavam-se com o peso da fúria. Tivera ele o poder mágico da excomunhão e mandaria aquele homem directo para o Inferno. Mas enfurecer-se e perder a compostura, era o que ele queria com aquela conversa, sem dúvida falsa.
- Nem você, no seu avental azul e branco, conseguiria tirar alguém dos braços da morte.
“Eu não, mas devia desviar alguma dessa sua Fé no Velho nas Nuvens e depositá-la em algo mais real, como a competência dos médicos Portugueses e o actual estado técnico da Medicina e dos Hospitais Portugueses. Estamos muito acima daquilo que se faz em outros países, sabe? Fazer o seu gambito depender de um medicamento mal dado é muito primitivo. A Igreja já não sabe envenenar pessoas, como fizeram em Roma ao João Paulo I? Pergunte ao seu amigo Ratzinger, ele dá-lhe umas dicas.”
Na televisão, o Director do Hospital da Misericórdia dava as últimas informações sobre o estado da vidente: 

“Está desperta, já fala, as suas primeiras palavras foram para a sua falecida prima, a também vidente Alzira.”

“Como vê”, sussurrou a voz com um timbre de vitória, “não ouve de mim as mentiras pregadas do seu púlpito, senhor Cónego.”
O Cónego engoliu em seco.
- Como vai a sua sociedadezita paramaçónica? Já foram reconhecidos pelo Grande Oriente?
“A seu tempo. Sabe que são processos que demoram.”
- Sabe bem que não, meu caro, são coisas rápidas. Qualquer idiota consegue legitimar uma sociedade paramaçónica em seis meses. E vocês, há quanto tempo aguardam uma decisão, dois anos? Ou será que o Grande Oriente já vos negou a legitimação e o senhor anda a esconder isso dos jardineiros seus acólitos? Se precisar, posso dar-lhe uma ajudinha...
“O rancor, senhor Cónego, não é uma virtude cristã. E não se esqueça que, num acto de desespero, podemos lançar a público os seus segredos pessoais. Tenho de pôr os interesses da minha irmandade acima dos laços que nos unem um ao outro. Tente impedir-nos como quiser, mas não deposite muito do seu empenho em ser bem sucedido.”
- Olha, meu caro, não sei o que pretendes deste pequeno jogo, mas o que quer que seja farei tudo para te impedir, ouviste? Acho que já tinhas idade para...
“Acreditar no perigo da nossa ameaça, por si só, já é meia vitória, senhor Cónego.”
A voz desligou a chamada sem dar tempo a que o Cónego o mandasse ao Inferno. Preparou-se para lançar o auscultador contra a parede, mas conteve a fúria. Jurara a si mesmo, desde que tivera de se submeter à humilhação de tratar uma úlcera sifilítica no seu membro viril, no ano anterior, que iria controlar melhor os impulsos animais que o assoberbavam com uma irritante periodicidade quinzenal. A medicação que lhe sugeriram, carbamazepina, tolhera-lhe demasiado o espírito crítico, e perdera a confiança nas alternativas que lhe arranjaram, com nomes tão ridículos como divalproato, carbonato de lítio, topiramato, lamotrigina, ou gabapentina. A Fé no seu Deus, bastar-lhe-ia para enfrentar o destino que, por então, apenas ele e o seu médico particular conheciam. Como o seu inimigo tivera acesso ao segredo, ninguém o sabia ainda. Mas o Cónego era pessoa experiente nas armadilhas da Vida, e sabia que manter segredos era algo impossível. Mesmo o verdadeiro Segredo de Fátima, só se mantinha oculto porque nunca ninguém havia ousado perguntar a verdade.
Até hoje.
Marcou o número do Santuário, e pediu que passassem a chamada ao padre Marta.
- Marta? Viu as notícias?
“Faleceu”, concluiu Marta, impaciente.
- Não. Está viva. Acordada e a falar.
“Impossível. Garantiram-me que...”
- Não faz mal. Conhece a Irmã Rosa e sabe o comprimento desmesurado da sua língua e o quão curto é o seu juízo. Temos de a trazer de volta ao Convento ou para o Carmelo, quanto antes.
“O jornalista chega amanhã.”
- Tente adiar. Melhor ainda, faça-se comparecer no Hospital e vigie a Irmã Rosa em tudo o que ela disser. Se cancelarmos a entrevista, podem começar a chover insinuações. Não queremos dar suspeitas de que algo foi premeditado.
“Ninguém irá saber de nada...”
- Oh!, mas sabem, padre Marta. Ninguém consegue guardar segredos, senão através do silêncio dos inimigos. E há inimigos da Fé que não querem ficar calados.
“Estarei amanhã no Hospital acompanhado, para receber o jornalista. O testamento da Irmã Rosa terá o mesmo destino que os seus diários. Não iremos repetir os erros cometidos quando da publicação do seu segundo diário.”
- Espero bem que não, Marta, conto consigo. Boa noite, e durma com a Paz do Senhor.
“Sim, Reverendo. Muito boa noite.”
Desligou o telefone. Já se sentia mais calmo. Aquele pequeno jogo de atrito era lento como um jogo de xadrez, as peças iam sendo colocadas em campo com movimentos pausados, mas os ataques eram desferidos com a celeridade e a agressividade de um jogo de damas. Um descuido, e poderia perder três ou quatro peças de uma assentada. Procurar desfechar um xeque-mate como no xadrez, poderia ser o seu suicídio. Seria mais inteligente procurar o empate, como nas damas.
Pousou o telefone e abriu de novo a Bíblia. Já tinha paz de espírito suficiente para se dedicar de novo à sua homília. Tinha uma preferência habitual por Gênesis 4, o mito de Caím e Abel...

In Fénix Mutilada

Tudo começara três meses antes, quando o Prelado particular de Sua Santidade decidiu autorizar o último pedido da vidente Irmã Rosa, retida no Carmelo: o de ser visitada por um jornalista a quem relataria o seu último testemunho do que lhe havia sucedido, e aos seus dois primos, em 1917, quando assistira a seis aparições de Nossa Senhora no Campo da Eira em Fátima. Nunca seria do agrado do Bispado que a Irmã fosse visitada no Carmelo, dada a reclusão própria desta instituição. Mas todos, pelo menos os que estavam por dentro da verdadeira história, sabiam que não poderiam permitir que a Irmã Rosa contasse livremente à mole pública todas as mentiras e ilusões que lhe fluíam da mente enlouquecida pela visão da divindade, e que apenas ouvidos obedientes e treinados poderiam filtrar. Não era um segredo, senão para os estultos do exterior do Santuário.
O Cónego fizera-lhe ver isso quando o chamou um dia ao seu gabinete, de sóbrias paredes brancas e longos cortinados debruados a fio dourado, com as armas bispais bordadas. O padre vestia a sua farda acinzentada e sóbria que o distinguia do comum mortal a quem só importava a cobiça por bens terrenos. Sentou-se, a pedido do Cónego, num dos sofás de pêlo escarlate, a cor do Sagrado Coração, e serviu-se de um pouco de limonada ligeiramente adocicada.
O Cónego não hesitou em colocá-lo ao corrente da situação. Era um homem a dobrar os sessenta anos, apenas uma mão cheia de anos mais velho que o padre Marta, e um porte altivo que roçava a loucura em dias menos felizes.
- Marta, penso que posso depositar em si a confiança que necessita um assunto de tal gravidade.
- Como sempre, Senhor Cónego. Faça favor, esteja à vontade.
- As suas funções no Santuário do Campo da Eira, desde que foi indigitado há doze anos atrás, exigiram que fosse posto ao corrente dos interesses da Santa Madre Igreja neste Santuário.
- E entendo a seriedade com que mo relembra.
- E já lhe expliquei porque é que, há cinquenta anos atrás, trouxemos a Irmã Rosa de volta de Espanha e a colocamos na clausura do Carmelo, não foi?
- Para evitar que espalhasse mais mentiras, Reverendo.
- Exacto. Então, entende porque não me agradou saber há dias que a Irmã Rosa fez chegar ao Prelado particular de Sua Santidade um pedido... um pedido para que a autorizassem a escrever um último diário, livre da censura da Igreja.
- Ninguém me contou nada, Reverendo! - protestou o padre Marta.
- No Carmelo, foram muito inocentes em deixar que a Irmã Rosa escrevesse directamente à Prelatura, com o pretexto de que desejava a Sua Santidade as melhoras da doença que o tem afligido.
O padre Marta ignorava-o. Sentiu o seu poder, como gestor do Santuário, colocado em causa. Satisfazer os pedidos do seu Cónego e lutar pela ascensão da sua carreira pessoal, se na servidão do Senhor, não lhe parecia um pecado. Além disso, o Cónego estivera recentemente doente e fora devidamente acompanhado pelo seu médico pessoal, e - Deus o proíba! - poderia vir a necessitar de ser substituído nas suas funções por alguém, não só temente a Deus e fiel à Santa Madre Igreja, mas também conhecedor dos segredos que deviam ser mantidos dos ouvidos estultos. Lutara muito, todos aqueles anos, para chegar ao cargo que o colocava na linha de promoção para um bispado antes do sessenta anos. Não lhe podiam roubar aquela glória quando já contava cinquenta e três.
- Quem o permitiu? - Indagou Marta.
- Não interessa debater nomes. A autorização veio de cima, agora temos de fazer algo para evitar que a Irmã Rosa conte mais das suas fantasias a ouvidos não preparados, para separar a verdadeira revelação da Fé das mentiras que a mente perturbada da Irmã Rosa costuma inventar frequentemente. Sabe do que falo.
- Foi-lhe concedida uma benção que nenhum de nós pode sequer imaginar. Ela viu Nossa Senhora, Reverendo, e desde então nunca mais foi a mesma. Basta-nos abraçar a Fé que se esconde entre as palavras insanas, e esquecer estas.
- Sim. Mas como impedir que ela fale com jornalistas, é isso que interrogo.
- Jornalistas?
O Cónego levantou-se, e dirigiu-se para uma discreta garrafeira com as armas bispais, de onde começou a tirar pequenos cálices e uma garrafa escura de vinho religioso.
- Infelizmente, sim. - Continuou o Cónego. - A Santa Sé, suponho que por sugestão da Irmã, pretende que um jornalista exterior à Igreja entreviste a Irmã Rosa. Defende-o dizendo que a verdade revelada em Fátima necessita chegar ao maior número de pessoas possível, e isso só se conseguirá através da utilização maciça dos média. O Santo Padre está doente, mas sempre manteve boa relação com jornais e televisões. Embora o seu juízo se tolde lentamente - que Deus o proteja - não hesitou em concordar com a Irmã Rosa. E suponho que outros interesses do Vaticano não hesitariam em dar maior cobertura a Fátima, agora que o segredo foi revelado e o seu mistério feneceu. E o Santo Papa encara isto como uma forma de agradecer a Nossa Senhora tê-lo salvo do atentado que quase o vitimou.
- Podemos ser nós a propor o jornalista.
- Ela não aceitaria, protestaria junto da Prelatura.
- Podemos censurar o seu correio, já o fizemos antes.
- Não é tão fácil hoje em dia, sabe-o bem. A Igreja não tem a mesma cobertura de outros tempos. Bastaria uma suspeita, e as consequências seriam graves. Nem pensar em ofender o Núncio. Ou o Patriarca. Sobretudo o Patriarca.
- O Senhor Cardeal entender-nos-ia, se pedíssemos a sua autorização.
- Mas não o faremos, Marta. Será melhor manter o problema aqui, em Fátima. Longe dos reboliços políticos da capital, e da sede de escândalo dos jornalistas.
- Podemos sempre influenciar a escolha. Conheço pessoas que podem sugerir um jornalista que seja próximo às nossas ideias, sem que pareça que somos nós quem o faz.
- Ora, sabia que podia contar consigo! Mas ninguém que seja abertamente religioso. Alguém maleável, que não nos importune muito com questões nem demonstre junto da Irmã Rosa que é movido pela Fé, quero que ela fale livremente, é importante saber o que ela quer contar, que ideias permanecem ainda na sua mente idosa. Quem sabe que revelações poderão ainda sair dos seus lábios, e do resto quanto mais soubermos, melhor nos poderemos defender.
- Entendo-o, Reverendo.
O Cónego calou-se, deixando as palavras morrer num lento murmúrio, e olhou Marta profundamente. O padre manteve o seu silêncio respeitador, sentindo que havia ainda algo que o seu superior não conseguira desabafar. Por fim, o Cónego ganhou a coragem de lhe contar o perigo que o amedrontava, enquanto começou a encher os cálices.
- Marta, há ainda outro assunto que terá de conhecer. Há pessoas... pessoas alheias à Igreja, diria até inimigas da Igreja, que seguem o actual pedido da Irmã Rosa muito de perto. Suspeito que estarão por trás desse mesmo pedido. Há alguém no Carmelo, talvez mesmo no Santuário, que não opera pelos caminhos de Deus. Pessoas ligadas a seitas ateístas, sabe a que género me refiro.
- Dizei-me quem, Reverendo, eu mesmo lidarei com os hereges. A lei canónica 2335 explicita que cristãos envolvidos em sociedades de conhecido cariz ateísta são passíveis de imediata excomunhão. Só preciso de nomes.
- Desconheço quem sejam. Nem tal me preocupa, de momento. Para já, cuidemos da Irmã Rosa e, depois de passada esta tempestade, cuidaremos dos ratos que infestam a nau. E há outra coisa. Mesmo controlando quem recolha o depoimento da Irmã Rosa, não conseguimos controlar o próprio depoimento. Um boato, um rumor, é tudo quanto é necessário para que a imprensa - e aqueles que são inimigos da Fé - se atirem à Irmã Rosa como cães a um osso. E, fora do Carmelo, não existe o mesmo recato.
- Sim, pensei nisso. A imaginação da Irmã Rosa, infelizmente, é o seu grande defeito. Mas uma palavra bem colocada da devida autoridade religiosa...
- Não vá por aí, senhor padre, há sempre maneiras de resolver a questão sem recorrer à autoridade da Igreja que, sem dúvida, daria muito nas vistas e atiçaria contra nós a opinião pública.
- A que se refere?
O Cónego segurou alto o cálice de Porto, pegando-lhe pelo pé, e admirou o brilho rubicundo da sua transparência. E, contudo, através de néctar transparente, mesmo assim vinham imagens distorcidas.
- Deixe-me contar-lhe uma história, padre Marta. Uma história pela qual muitos matariam. É uma história de morte e sacrifício, na Santa Madre Igreja. Uma história que só um coração especialmente dedicado - especialmente crente, diria! - consegue ouvir sem dor. Há muitos anos atrás sentou-se na cadeira de Pedro um Italiano a quem a política e o escândalo falavam mais alto que a Fé. Um Italiano a quem certos interesses eram mais importantes que os sacrifícios necessários à eternidade do testemunho de Cristo. Esse Italiano, foi escolhido pelos cardeais seus pares, decerto pela inspiração do Espírito Santo, para ser Papa e, nem um mês passara sobre essa benção, e já ele pensava que iria reformar dois mil anos de História e destruir tudo aquilo que o testemunho de Cristo havia construído. Veja quão egoísta ele era, mais preocupado com a sua pequena missão pessoal do que com a missão divina. Um dia, chamou o seu braço direito e contou-lhe todas as reformas que iria fazer a partir do dia seguinte e, quanto tudo estivesse concluído, exigia a demissão do braço direito. Imagine que isso lhe acontecia a si, Marta, interrogo-me o que faria.
- Senhor Cónego, o dever de obediência a um Santo Padre obrigar-me-ia a fazer tudo o que ele me mandasse mas, se isso colidisse com a Fé, não seria esta a prevalecer?
- O que estaria disposto a fazer por Cristo, Marta?
- Tudo menos amaldiçoar a minha alma.
- Essa decisão competiria a Deus, Marta. Pois saiba, que este homem de que lhe falo, braço direito do Santo Padre, não hesitou em cuidar que, nessa mesma noite, o Santo Padre fosse ter com o seu Criador para Lhe explicar porque pecava contra a Santa Madre Igreja. Choco-o, Marta?
- De todo, senhor Cónego. Mas essa é uma história de que nunca ouvi falar.
- Claro que não, Marta. Quando encontraram o Santo Padre afogado no seu vómito, lavaram-no, fizeram desaparecer a sua última refeição, e deitaram-no sossegado na cama aguardando o médico, com o respeito que a um Santo Padre é devido. Por piedade, o médico declarou que o falecimento se devera a um enfarte.
- De forma indirecta, direi que Deus fizera justiça, como castigou os Hebreus que dele se esqueceram após a chegada a Canã.
- Mas entenda, homem, que a Fé é fundamental. Um homem apenas, o guarda do Vaticano que devia ter cuidado do bem estar do Santo Padre naquela noite, começou a duvidar da justeza do acto. A dúvida enlouqueceu-o, começou a sentir-se perseguido, por fim condenou a alma ao Purgatório dispondo da sua vida. A família dele levantou a suspeita de que tivesse sido assassinado para esconder a verdade que ele conhecia, mas graças a Deus não passava da revolta do luto. Mas tudo podia desmoronar nesse dia, por causa da fraqueza desse homem. Quando nem fora complicado escolher substituto para o Santo Padre. Alguém que sempre colaborara em representar os interesses da Igreja na sua luta contra o mal comunista, e servira de intermediário entre a Santa Madre Igreja e os sindicatos cristãos que combatiam o comunismo na Polónia. Alguém que sabia sacrificar-se pelos valores do Divino.
- Entendo tudo isso que me conta, e aceito. Apenas não entendo onde quer chegar.
- Não basta dizer que se acredita, padre Marta. É preciso estar à altura de fazer os sacrifícios necessários.
- E que sacrifício me pretende pedir, senhor Cónego?
- A Irmã Rosa é uma senhora de idade, tem mais de noventa e cinco anos, tem muitas doenças e faz muitas medicações. Não seria de todo inesperado que algo grave lhe acontecesse, antes de ser entrevistada. Resolver-se-ia tudo muito mais depressa. Quer um Porto?
Estendeu-lhe um dos cálices de vinho rubicundo, que o padre Marta tomou sem delonga, com um agradecimento sóbrio.
- É muito gentil, Reverendo.
O Cónego não necessitava dizer-lhe mais nada.

In Fénix Mutilada

Levantou-se, e como Lázaro andou.

Desistira, mais uma vez. Falhara. Toda a confiança depositada em si por Batista, o seu velho amigo Batista que nunca negava a esmola dum trabalho, havia sido despejado como as violentas dejecções que o afligiam sempre que exigiam algo de si. Estava sem trabalho, sem independência económica, vivendo com a mãe há seis meses. Não conseguia um trabalho decente, algo minimamente parecido com a fantasia duma investigação que ele sonhava que, um dia, iria ser capaz de conseguir, tão fácil quanto era fácil fantasiá-lo.  No sonho acordado, descobria facilmente um escândalo ou heroísmo, uma cacha ou revelação, que o tornaria famoso e universalmente reconhecido, podendo duma assentada e sem o suor duma vida de trabalho partilhar a ribalta com aquelas pessoas importantes cujo protagonismo mediático invejava. Mas na vida real, nem coragem tinha de mendigar trabalho.

O telemóvel tocou alto, o acorde digitalizado duma peça de Mozart, um compositor cujas músicas o irritavam e que por isso escolhera para toque de chamada, seria impossível não perceber que lhe telefonavam.Eram quinze e trinta. Já devia ter chegado a Fátima por aquela hora. Batista dava pelo seu atraso, e telefonava para o criticar, para pedir contas, talvez para o testar a ver se se desculpava com alguma mentira. Que poderia ele dizer para justificar que, quando se aproximara da saída para Fátima, aquela dor no peito se tornara tão forte que parecia querer estoirar-lhe as costelas e que, com uma patada no acelerador, seguiu disparado em direcção a Lisboa tentando esquecer-se que se havia comprometido a estar em Fátima antes das quinze? O primeiro pensamento era o de pegar uma faca de serrilha, espetá-la no peito abaixo da clavícula esquerda, e rasgar as costelas até ao fígado, cortando osso e músculo, abrindo o peito e aliviando a pressão da dor. Não conseguia segurar o ar nos pulmões, este fugia-lhe sempre que o engolia, e por isso sentia-se tonto. Os intestinos não o deixavam descansado, importunavam-no com cólicas e borborigmos, como se a barriga fosse um caldo em ebulição, fermentando os dejectos do medo. Estava sozinho, em pé apoiado no carro, num parque de estacionamento da berma da auto-estrada A1 que unia o Porto a Lisboa, alguns quilómetros abaixo da saída para Fátima e para o santuário do Campo da Eira. Hesitava em utilizar as instalações sanitárias do parque, pois não queria alimentar muitas esperanças de aliviar a pressão na sua ampola rectal e depois descobrir que o WC estava fechado ou inutilizado pela imundície. Depois, sabia que anos de diarreia colítica o deixaram afectado de hemorróidas, e que não teria meio de as reduzir manualmente senão através de um banho quente, e que elas ficariam inchadas e saídas, a pressionar o esfíncter anal, a transudar e sujar a roupa interior, talvez sangrando e manchando de sangue as calças e o assento de veículo.

Por isso, aguentava como aguentara a diarreia todos aqueles anos; contraindo os músculo do períneo até a cólica aliviar ou a ampola rectal se tornar obstipadamente insensível.

Não conseguia tirar os olhos do telemóvel. O ecrã pulsava de luz, dessincronizado com os acordes do toque polifónico. O mundo inteiro deveria saber, por esta altura, a dimensão da sua fraude. Ele, José Machado, estudante de Medicina falhado, pretenso escritor, pobre caricatura de jornalista, procrastinador esquizóide de alma dividida entre os trabalhos de Atlas com o peso do mundo às costas, e arremedos de omnipotência que o faziam comprar coisas inúteis às seis da tarde enquanto se comprometia com dezenas de trabalhos e projectos que, no dia seguinte ao acordar, já haviam perdido o brilho de véspera e se enquistavam no pesado mundo que teria de suportar até às seis da tarde seguinte.Deixou o telemóvel tocar, até que se calou. E sentiu-se amargurado por ter falhado a Batista. O alívio que procurava quando deixasse de tocar, não compareceu ao silêncio. Devia ter saído no acesso a Fátima, devia meter-se no carro, e arrancar até ao nó de Leiria, sair e voltar para trás e fazer o que sempre deveria ter feito. Sim, deveria fazer isso. Sim, era isso que devia fazer. Sim, nesse mundo imaginário onde tudo era fácil e se partia do princípio até ao fim do problema sem necessitar de o trabalhar e resolver, era tudo tão óbvio. No mundo real, continuava de pé, apoiado no carro, olhando o telemóvel imóvel no lugar do morto.

Esperando que Eva lhe ligasse.

Deixara de falar com ela há mais de um ano, pelos motivos que só ele sabia e que tanto lamentava, deixara de atender os seus telefonemas e ela cansara-se. Já deveria ter arranjado outro homem para a sua vida. Não passava de mais uma voz no seu fantasiar acordado.

In Fenix Mutilada