domingo, 27 de Julho de 2008 1:48 jnonlineadmin

Rui Massena: "O rectângulo tem problemas?"

Rui Massena é um caso sério de popularidade internacional no universo da música clássica. Aos 35 anos, é maestro titular da Orquestra Clássica da Madeira, ilha que o  rendeu há oito anos.

Vive há oito anos na Madeira. Para si, a ilha é mais sinónimo de Carnaval ou de república das bananas?Apesar do preço das viagens, convido-a a vir à Madeira, para perceber que a ilha tem fruta, carnaval, mas também natureza, mar, cultura e um povo que recebe extraordinariamente bem. 
 
Hoje é dia de festa anual aí, no Chão da Lagoa. Também consegue, como Alberto João Jardim, beber um copo em cada uma das 54 barraquinhas? Estou a treinar. Tenho pena de ainda não ter sido convidado, mas acredito que neste momento, aguentaria aí...umas 47. Mas vou continuar a treinar... 
 
E se ele o convidasse para sambar no Carnaval, aceitava? Na verdade, eu é que o convido a sambar. A Orquestra faz um concerto de Carnaval, ao qual vamos todos mascarados. Divertimo-nos imenso. Aí, normalmente, convido o público a participar.  
 
Em contrapartida, alguma vez o viu em algum dos seus concertos?
Faz parte do público fiel da orquestra. Vai em mangas de camisa, sem qualquer staff, sem lugar reservado, a muitos concertos da Orquestra Clássica da Madeira, e no fim por vezes troca comigo uma impressão sobre o que ouviu.


Que outro político gostaria de ter entre o seu público? Nenhum em especial. Mas talvez o Dr. Jorge Sampaio, porque o sei um apreciador de música. 


O líder regional madeirense já foi apelidado de "professor português do insulto" [El País, 2005]; a José Sócrates está colado o rótulo de "arrogante e insensível". Qual deles causa mais ruído à sua música?

Só quando estão juntos num concerto...[Risos]


Também lhe acontece ser assomado, como acontece a Alberto João, por "excessos verbais"?

[Risos] Sim, normalmente excedo-me. Penso que é o que acontece a todos os que vem viver para a Madeira, para perto do Dr. Alberto João. 
 
Concorda com o que o poeta Luís de Camões escreveu no Canto V de Os Lusíadas, sobre o facto de a Madeira ser "mais célebre por nome do que por fama"?

O Luís só tinha uma vista. Os tais excessos... [Risos]
 
Viver nessa ilha a que distância o coloca dos problemas do Continente?

Vivo como quando vivia em Lisboa. Sou atento á vida do País. É evidente que viver numa ilha limita o campo de acção, e em alguns sentidos há a tendência para construir um ritmo próprio. Os problemas que aqui se sentem são mais os locais do que os do país. Mas se sairmos de Lisboa e do Porto, e se formos por exemplo ao Algarve, acontece-nos o mesmo. Mas o rectângulo tem problemas? [Risos]

O seu filho mais novo frequenta o clube Andorinhas, o mesmo onde treinou Cristiano Ronaldo. Está a educar um futuro jogador de futebol?

Não. Estou a educar um homem, que gosta de futebol. Educá-lo nos vários interesses da vida, com a consciência do que quer que faça tem de esforçar-se por fazer bem. O desporto é competitivo mas leal, por isso saudável.  
 
Há quem defenda que a nossa verdadeira idade nunca é a que está no BI. O seu BI diz 35 anos. Quantos anos tem?

Às vezes, cinquenta; outras vezes, dezoito. Fui sempre velho para a minha idade, mas é um processo que se tem invertido. Vou envelhecendo com a sensação que tudo é mais possível. Hoje sinto-me mais novo do que quando tinha 25 anos. As artes permitem-nos a liberdade de existir menos formatados.  
 
E há quem diga que quem não se lembra da música do Verão Azul [série espanhola] não faz verdadeiramente parte da geração de 70. Lembra-se da música? Que recordações lhe traz? 
As melhores. O assobio era sinónimo de um tempo descomprometido. Como diria Ernesto Sabato," tínhamos tempo para matar o tempo". Hoje eles teriam que usar protector solar. 


Revê-se nessa geração que passou a infância a ver a Abelha Maia, o Tom Sawyer, o Dartacão?

Sim, claro. A Abelha Maia...não era bem a minha preferida. Mas o Tom e o Dartacão, o mais possível. Um saudoso cumprimento ao Vasco Granja, pelo experimentalismo checo dos princípios do cinema de animação. 
 
Como definiria essa geração - que é a sua - que brincava na rua, jogava ao Monopólio ao berlinde, às escondidas e ao mata?

Uma geração que se conheceu, no início de um processo democrático. Um liberdade a ser experimentada, sob o signo implícito de muitos anos de ditadura, e que deixou marcas aos nossos pais. Apesar de tudo, uma geração que brincava com simplicidade, num verão azul de três meses, mas que cresceu para a vida atrasada. Mas com alma. Foram tempos de enormes memórias, mas distantes dos que hoje vivemos. Também são tempos óptimos. Ainda bem que tudo muda.

Já lhe acontece soltar um "no meu tempo em que era bom"?

Naturalmente que vivo com as referências do meu tempo de juventude. Tenho porém consciência, da importância de irmos construindo novas referências, para que essas sejam as actuais. Isso é importante para uma adaptação inteligente e feliz á vida o que não quer dizer que se percam as outras. É um processo de soma e filtragem. É daqui que vem as opiniões. Ninguém é só presente e futuro. A história é fundamental.   
 
Colecciona mais alguma coisa para além de gravatas?

Sapatilhas, batutas, telefones móveis, livros. 
 
É sobejamente conhecido pelas suas colaborações com os Da Weasel. O seu sonho era ser um hip hop man?

Francamente gostava. Quem sabe? Tenho apenas trinta e cinco no B.I. 

A excentricidade é a sua imagem de marca?

Gosto da vida e de me expressar.

Helena Teixeira da Silva

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