Por: Manuel de Sousa

O conceito de liberdade de expressão será sempre um conceito muito relativo de avaliar, ao qual terá de existir sempre uma necessidade de ponderação exigente por parte dos  intervenientes como jornalistas e órgãos de comunicação social e os visados das notícias. Será sempre complicado avaliar a importância de um acontecimento para ser considerado notícia, assim como, determinados comentários não passam de um pau de dois gumes, que tanto podem ser declarações de defesa como podem ser entendidos como ameaça à liberdade de expressão.

O conceito de liberdade de expressão com a comunicação social foi questionado, por diversas vezes, no anterior mandato de José Sócrates, tendo este provocado alguma má imagem devido ao teor das acusações e devido também às críticas e reacções manifestadas, quando as mesmas deveriam revelar mais prudência e contenção.
As reacções de José Sócrates às várias situações com que se cruzou não provocaram estragos de maior neste curto espaço de tempo eleitoral, mas não teremos real percepção dos efeitos que possam causar num futuro mais longínquo com o desfecho de casos como o Freeport, em que o seu nome este implicado desde o inicio.

Apesar deste caso estar resolvido do lado inglês, com o arquivamento do processo por falta de provas, por aqui este ainda poderá ter novos desenvolvimentos, devido também aos processos judiciais que envolvem o nome de José Sócrates e de vários jornalistas. Processos esses provenientes de queixas do primeiro-ministro contra notícias que colocaram em causa o seu bom nome.

Este ponto de processos judiciais entre os jornalistas e os «afectados» pelas notícias coloca em questão a velha questão do sigilo profissional como a protecção das fontes, mesmo que perante um juiz. Muitos consideram importante o levantamento do sigilo, outros contestam (ainda bem) porque estamos a pôr em causa a vida pessoal e profissional de terceiros, ainda que possa parecer importante para a constituição de prova perante um juiz. O levantamento do sigilo profissional condena o futuro do jornalismo e o futuro da investigação jornalística porque as fontes jamais pretenderão estar de alguma forma expostas.
É claro que qualquer cidadão anónimo ou figura pública tem direito de apresentar uma queixa como forma de manter a sua segurança e legitimidade. O restante trabalho dependerá sempre do juiz que terá o papel de avaliar cada um dos casos.

Uma figura pública terá de ter a noção que qualquer dos seus passos é controlado pela comunicação social. Está obviamente mais exposta que qualquer outro cidadão e qualquer dos seus passos que levante suspeita será do interesse geral, sobretudo se estivermos perante um assunto público. Caso assim seja, isso é um assunto público e tem todo o interesse de se tornar numa notícia.
Sabemos muito bem que qualquer investigação que afecte um terceiro, que afecte um poder ou um grupo de peso considerável, pode representar uma asfixia a um órgão de comunicação social. Asfixia pelos custos de investigação, asfixia pelos elevados custos judiciais e asfixia pela limitação do acesso à publicidade e limitação de venda ou limitações às receitas que garantem a sustentabilidade e viabilidade económica das empresas de comunicação.

Segue a publicação de uma entrevista que tive a oportunidade de realizar ao Provedor do Jornal «Público», Joaquim Vieira, que nos apresenta uma visão consciente das interrogações que envolvem a liberdade de expressão e as relação desta com personalidades públicas, tendo como ponto de partida o caso Freeport, apenas um dos casos que visaram o primeiro-ministro.

Ponto de Vista - A actuação de José Sócrates, em relação ao caso Freeport, com processos judiciais sobre alguns profissionais da comunicação social, tem sido uma atitude correcta ou considera precipitada, quando o processo judicial em torno do caso ainda teve poucos desenvolvimentos?

Joaquim Vieira
- Acho que é uma atitude para ganhar dividendos políticos a curto prazo, permitindo-lhe dizer que reagiu aos artigos que o punham em causa, mas que o vai prejudicar num prazo mais alargado, pois acho não existir, à luz da jurisprudência, qualquer hipótese de José Sócrates vir a ganhar esses processos.

PV
- Será legitimo que se processem estes profissionais, tendo em conta que poderemos estar a provocar um caos judicial em torno do mesmo assunto, que passa a ser tratado de forma diferenciada prejudicando o apuramento da verdade? Poderemos estar a julgar erradamente os profissionais de forma mais rápida que o esclarecimento do caso Freeport?

JV
- Processar pessoas por alegado abuso da liberdade de imprensa (ou da mera liberdade de expressão) é um direito que assiste a qualquer cidadão. À justiça caberá julgar da pertinência dessas queixas.

PV
- Partindo da ideia de que as notícias tornadas publicas sejam fruto de uma investigação séria e credível por parte dos profissionais de comunicação, é legitimo que as fontes possam ser divulgadas em Tribunal, como prova de assegurar a verdade dos factos e sustentar a verdade dessas noticias?

JV -
Em nenhuma circunstância é legítimo que o jornalista divulgue as fontes às quais garantiu confidencialidade.

PV -
Em situações como estas, o sigilo profissional poderá ser considerado como uma segurança do jornalista perante um tribunal , de forma a ter a sua defesa garantida e a impossibilidade de julgamento? Estará nesta situação, um jornalista em vantagem sobre o queixoso por difamação?

JV -
A prova da verdade dos factos não é essencial para a justiça avaliar o teor das queixas apresentadas por abuso da liberdade de imprensa. É sim, do ponto de vista do jornalista e do órgão de informação, a prova do interesse público da notícia e de que se agiu de boa-fé.

PV
- Existe um limite definido que estabeleça até que ponto vai a liberdade de imprensa na publicação de notícias que coloquem em causa o bom nome e legitimidade de uma pessoa?

JV
- Considerando-se que há interesse público nessa informação (tratando-se os visados, por exemplo, de figuras públicas, sujeitas a um escrutínio jornalístico maior do que as pessoas anónimas), a notícia deve ser publicada.

PV
- Estarão as empresas, direcções e grupos económicos de determinado meio de comunicação dispostos a avançar com uma investigação jornalística, tendo em conta as consequências futuras que podem surgir? No panorama geral, estarão os meios de comunicação social dispostos a avançar com as investigações e a tornar públicos factos que podem por em causa uma personalidade de Estado?

JV -
Nem sempre. Os receios são muitos por várias razões: custos da investigação, custos com a justiça, receio de desagradar aos poderes visados pela investigação, recio de asfixia económica como retaliação de quem o pode fazer.

PV
- Considera que a actuação de José Sócrates está a limitar a liberdade de expressão e de informação?

JV -
Não. Pode constituir um constrangimento, mas é dever dos que fazem informação não se deixarem intimidar por este tipo de atitudes.

manuelsous@vodafone.pt

Em Portugal ainda se vive no silêncio dos cúmplices, que escondem muita coisa aos olhos dos comuns e que jogam por baixo da mesa, nas barbas de qualquer um. Vive-se muito no silêncio da corrupção pequena e grande, ainda que a pequena seja mais condenável que a grande aos olhos da justiça e muitas vezes do povo, que frequentemente prefere fechar os olhos e deixar que tudo o que é ilícito vá seguindo o seu curso sem grandes incómodos.

O recente caso de polícia «Face Oculta» é a prova de que muita coisa ainda anda oculta neste país, muita porque a dimensão deve ser maior do que se possa imaginar. Este recente caso vem aumentar ainda mais os já mediáticos que nos últimos tempos têm dado que falar. Freeport, BPN e companhia, Universidade Independente, Isaltino Morais, são alguns dos últimos tempos. Talvez nem valha apena continuar a recuar ou então ficaremos com uma longa lista que mancha ainda mais o bom nome dos nossos cidadãos, que vivem o seu dia-a-dia a contar os trocos, enquanto existem aqueles que contam os milhões que lucram com o trabalho ilícito.

É compreensível que num cenário como este existam muitos portugueses que se revoltam contra a vidinha que levam e que cada passo que dêem em falta existe alguém que lhes complique a vida. Também é compreensível que ainda haja pequena corrupção na sociedade, quando nos topos temos provas de falta de seriedade e muitas pessoas com telhados de vidro.

Quando rebenta um escândalo apenas se encolhe os ombros, afinal é mais um no meio de muitos. Pior que isto é a impunidade ainda existente neste tipo de criminalidade praticada por gente graúda. Ficamos com a ideia e como refere o jornalista Mário Crespo, num artigo no JN, que em Portugal nos grandes ninguém toca.

Existem grandes e louváveis investigações, mas pouco poder judicial para avançar com os processos até ao fim e com a celeridade desejável, em vez de permanecerem no esquecimento até à prescrição ou nos recursos frequentes para retardar ainda mais as decisões judiciais.

Nos grandes ninguém toca, por vezes, devido à pressão popular, que nem sempre deixa ou permite a actuação da justiça de forma independente, basta ver pelas manifestações populares que se formam à porta dos tribunais quando alguém de nome vai a julgamento.

No meio de manifestações, recursos e atrasos, os arguidos actuam na penumbra com rapidez de forma a tentarem-se ilibar, a eliminar provas e se possível a continuar a praticar as ditas acções duvidosas.

Assim vai a nossa justiça, muito por culpa dos nossos políticos eleitos que não estão de acordo com propostas de condenação de riquezas ilícitas, de forma a permanecerem intocáveis. O PS pouco fez neta área recusando propostas da oposição como do PCP e do próprio militante João Cravinho, que tinha elaborado um dos trabalhos mais completos de aplicação na corrupção. Falta de vontade política em investigar os enriquecimentos duvidosos e julga-los devidamente.

Portugal rectificou a convenção das Nações Unidas contra a corrupção, tendo o dever de colocar este flagelo nas suas políticas para a justiça e a sua implementação. Sabemos que a corrupção é um meio que contribui para o subdesenvolvimento dos países, que regridem progressivamente contrariamente a outros países onde a corrupção é investigada e julgada sem precedentes e que atingem níveis de desenvolvimento económico consideráveis.

É impensável que num país pequeno como o nosso exista um índice tão elevado de corrupção, na escala de grandes negócios e de movimentação de milhões de Euros, sendo muitas vezes dinheiros públicos. Estamos a condenar o desenvolvimento do país. Quanto a isso, voltamos ao inicio, vivemos no silêncio dos cúmplices que sabem muito e preferem não dizer nada, nem justificações de como garantir que o nosso dinheiro nãos seja literalmente roubado.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

Por: Manuel de Sousa

A lógica de gestão das empresas passou a ser o aumento do lucro com imposição de aumento da produtividade dos seus trabalhadores, a baixa de salários e a quebra de direitos e garantias, assim como, a redução de custos nas mais diversas áreas, mesmo que essas reduções impliquem a diminuição das condições laborais.

Os trabalhadores em muitas empresas passaram a ser meros bobos voltados para o trabalho e o aumento da produção, mesmo que esteja acima dos limites pessoais. A qualidade de produção deixou de ser o lema de chefias, a quantidade passou a velha máxima que todos são obrigados a aceitar para se manterem no mercado de trabalho.

Se o princípio da nossa existência era «Penso, logo existo», actualmente será «Produzo, logo existo». Caso assim não seja, profissionalmente e até socialmente poderemos ser considerados como inúteis na vida activa. Deixaram quase de existir princípios humanos que foram sendo substituídos por valores e padrões económicos cada vez mais exigentes e agressivos, para os quais o ser humano teve de se moldar com a mesma rapidez que a mudança de filosofia das empresas.

As consequências sociais provocadas por esta lógica do sistema capitalista, que teima em subsistir na sua crise e caos, são profundas e preocupantes para a qualidade de vida e para a existência do ser humano, consequências que poderão provocar colapso dessas mesmas empresas e a condução ao seu fracasso. Quanto mais estas entram nesse colapso, mais exigências são feitas e maior é a pressão causada, como se isso provocasse algum resultado positivo para a solidez e sobrevivência dessa empresa.

As realidades provocadas por estes princípios de gestão empresarial não têm passado despercebidas aos olhos dos empreendedores e dos trabalhadores. Os exemplos que nos chegam de França, onde se registaram 25 suicídios e 14 tentativas num período inferior a dois anos, numa única empresa, a France Telecom, está a fazer o mundo acordar para uma realidade que não é nova, mas que durante muito tempo viveu escondida e abafada e, se calhar, ignorada pelas empresas causadoras dessa mesma realidade. Porém, ainda existem poucos estudos sobre esta realidade, contudo, acredito que se os mesmos forem feitos seremos sobressaltados para uma verdade bem agreste e que obrigará a uma tomada de posição de todos nós.

Estima-se que haja, em França, um suicídio por dia relacionado a questões laborais. Em Portugal não é possível obter quaisquer dados que permitam obter a razão dos suicídios relacionados com o mundo laboral. Sabe-se, no entanto, que o número de baixas médicas registadas em Setembro subiu na ordem dos 60% comparando com o mesmo mês de 2008. Estará esta subida relacionada com problemas laborais? Seria muito importante que se debruçasse sobre a matéria para termos a noção de como vive a nossa população activa nos seus empregos. Caso contrário, poderemos ignorar uma realidade que poderá ser bem dura e dramática.

Apesar de convivermos com muitas situações de desmazelo e falta de profissionalismo de muitos trabalhadores de empresas públicas e privadas, que não representam correctos exemplos a seguir, tal não deve ser motivo para que se generalize aos restantes trabalhadores que actuam de uma forma activa e empenhada nas suas tarefas. Caso isso aconteça, é cair no maior erro e apoiar uma falsa questão, tantas vezes levantada por governos e patronatos com o objectivo de avançar com as suas políticas reformistas. Políticas que, por vezes, se afastam da realidade de um trabalhador, que tenta sobreviver com um salário baixo, com horários laborais impensáveis e com obrigatoriedade de atingir objectivos de produção acima do possível.

A crise económica numa era de Globalização criou agonia na gestão de uma empresa. A crise gerada num sector produtivo, num lado do planeta, mexe com o trajecto de uma empresa do outro lado do globo. Deixamos de trabalhar numa economia caseira, regional e nacional e passamos a uma lógica global. Se a globalização teve princípios positivos no desenvolvimento da economia e na sua progressão, também teve princípios e consequências negativas com o aumento do capitalismo selvagem e desregulamentando e com grandes penalidades para o trabalhador. A lógica passou a ser a diminuição de custos de produção e consequente diminuição de salários e condições laborais. Caso este cenário não se verifique, as empresas lançam-se nos despedimentos e mudam-se para locais de mão-de-obra barata, por vezes mais qualificada e com leis laborais indefinidas que atraem o investimento. Contra isto, será necessário que exista alguma uniformização de princípios e de lógicas comerciais entre governos e parceiros sociais, adequando-se às realidades de cada Estado.

A lógica capitalista é muito cega nas atitudes que toma porque têm a visão do lucro fácil e imediato e não o sucesso a longo prazo de uma empresa ou de uma marca. Caso fosse o sucesso e a afirmação a longo prazo, teria a visão que tal só é viável com a criação de postos de trabalho remunerados de forma correcta, de condições de trabalho dignas para cada um dos trabalhadores e de uma correcta gestão, com princípios, dos recursos humanos.

As situações extremas de stress laboral não conduzem apenas ao suicídio, pensar apenas nesta consequência é limitar o nosso estudo e a realidade. Temos de pensar nos casos de depressão, alcoolismo e desestruturação familiar e social. Estes problemas causam prejuízo para as empresas que passam a ter um mau colaborador, descontente, sem iniciativa, sem capacidade de produzir os mínimos. Com tudo isto, aumentam os acidentes laborais, os erros, entre outros prejuízos inerentes. Esta problemática tem também consequências para o Estado que em lugar de um trabalhador activo, passa a ter um trabalhador dependente de ajudas e subsídios.

Este é nada mais que um problema social, que exige respostas urgentes e conscientes para uma realidade dura e muito próxima de cada um de nós.

O princípio de uma lógica de lucro fácil para a sustentabilidade empresarial é um princípio de erro tão elementar que conduz a um resultado complexo e de consequências sociais e económicas alarmantes. As empresas devem reger-se por princípios de qualidade. Não podemos ter trabalhadores, equipas e empresas produtivas com funcionários tristes, desmotivados, com problemas psicológicos, familiares, com problemas de saúde gerados pelo stress laboral como insónias, depressões e irritabilidade.

O princípio da cooperação entre funcionários e entidades patronais é o melhor segredo para o sucesso. Existem empresas que se preocupam em agir desta forma e os resultados estão à vista. Neste aspecto é necessário trabalho eficiente e cooperativo de entidades sindicais e governos.

O exemplo Francês é apenas um em muitos outros exemplos por esse mundo fora. Se neste país desenvolvido já se assiste a uma realidade brutal como esta, como será em outros países numa situação pior, de necessidade de desenvolvimento ou em países que são economias emergentes?

Este artigo não se trata de uma lição aos empresários ou de um tratado de gestão. Este artigo é uma visão que se pode ter do mundo e da forma preocupante como ele evolui. Não podemos evoluir para um mundo melhor se caminhamos para o caos social causado por um capitalismo selvagem.

manuelsous@vodafone.pt

Por: Carlos Rodrigues*

Por que será que estes valores estão a mudar? À primeira vista, esta realidade parece que as pessoas à volta do Planeta compartilham um Nobre conjunto de valores. No entanto, esse maravilhoso quadro não é tão cor-de-rosa como parece.

Em tempos idos, as pessoas baseavam os seus valores em tradicionais princípios morais e religiosos. Hoje, as coisas estão a mudar muito rapidamente. Todos nós, mas particularmente os jovens exibem valores que são cada vez menos controlados por influências tradicionais e religiosas, por isso, um conjunto crescente de evidências profundas no conceito de todo o ser humano, que apenas pensa em si, estas mudanças reflectem as alterações económicas e porque não as tecnológicas?
Deste modo, nos países mais desenvolvidos, os empregos recebem baixa cotação entre as coisas mais importantes na vida, porque nesses países, porém, ter um bom emprego é apontado como uma necessidade normal, enquanto nos países pobres, as pessoas, quase todas, sem aspirações, sobrevivem o dia-a-dia, sem essa prioridade. Porém, à medida que os países se desenvolvem economicamente, os seus membros, passam a priorizar coisas como a saúde, a vida familiar feliz, a liberdade de expressão, enfim: o Bem-Estar e, tantas coisas erroneamente aspiradas.
Assim, por causa desses avanços tecnológicos, esses valores, por certo, causarão um impacto nesses países em desenvolvimento. Deste modo, as crenças e valores são melhorados e moldados pelo que vêem e ouvem, assim sendo, que mudanças de valores têm sobre as famílias? Entre a maior dádiva que os pais podem dar aos filhos, está o amor incondicional e o conforto e, também, um conjunto de valores pelos quais eles possam viver salutarmente e não apenas enganá-los.

Sem valores morais adequados, a vida nada mais é do que uma luta insuportável pela sobrevivência. Porém, os valores dão sentido à vida, estabelecem prioridades, fixam limites morais e definem regras de conduta. Outros valores morais e religiosos, também estão em notável decadência, vejamos o desrespeito por tudo que é sagrado, pela autoridade, pelo cidadão, pelo bem público e privado, etc. Outro valor tradicional, é a ética do trabalho, este valor também está em crise, em total decadência. E cada vez mais difícil encontrar trabalhadores que venham exercer a sua actividade, profissional e pontualmente.

Por isso, a ruptura de família, falta de ética no trabalho e comportamento desregrado são marcas do actual declínio de valores. Ainda há outra área de grande decadência de valores, a dos bons costumes e da civilidade, por isso, não é de admirar que todos esses valores, com esse procedimento estejam a mudar para o negativo. A falta de bússola moral e um crescente ênfase em alvos materialistas e o individualismo egoísta, concorrem para promover uma cultura de ganância e de indiferença para com os sentimentos do seu semelhante. A ganância, o egoísmo e a falta de solidariedade, estão a tomar conta do Mundo, o que quer dizer, a perda progressiva de valores que afecta toda a humanidade e o homem disso ainda não se apercebeu.

Essa falta de valores também se verifica em homens com cargos de responsabilidade, porquanto, no curso da História tem havido um reconhecido vínculo estreito entre os valores pessoais que regem uma Sociedade e os valores manifestados por esses homens responsáveis.
Calvin Coolidge, presidente dos Estados Unidos da América do Norte disse: os homens falam de valores, de direitos naturais, mas eu desafio qualquer deles de apontar um caso no Mundo natural em que já existiram ou existem, ou foram reconhecidos direitos sem que tivesse sido criado antes, um conjunto de Leis correspondentes devidamente promulgadas.
Actualmente, nos círculos governamentais, nos círculos religiosos, nos círculos comerciais, tem-se dado pouca atenção em preservar esses valores. Mais concretamente, nos círculos governamentais, até hoje, ainda não foi possível fazer diligências concretas para acabar com as guerras que infelizmente proliferam por todo o lado, acabar com o narcotráfico, melhorar o sistema educacional, a saúde, a segurança, enfim, melhorar os valores, base fundamental, base tão desejável para a Felicidade ? Bem Estar, do ser Humano.

Porque a Vida é uma oportunidade. A maneira como a encaramos com mais valor, com mais determinação, obtenção de mais satisfação, menos satisfação, determinará esse conjunto de valores, que beneficiam salutarmente todo o Ser Humano, porque há milhares de pessoas para quem a existência oferece uma perspectiva brilhante, enquanto que dezenas de milhões não encontram nela qualquer estímulo e os dias passam rotineiros e sem qualquer interesse.

*(autor convidado do blogue «Ponto de Vista»)

Por: Manuel de Sousa

Os valores morais, profissionais, pessoais estão em constante mudança, à medida que o mundo se transforma e avança na era da modernidade. Os valores como metas e orientações de vida deixaram de ter a sua importância e passaram a uma importância relativa, tão relativa quanto à relatividade das coisas e do mundo.

Por muitas mudanças e transformações que ocorram nas sociedades, é importante ter a noção de que existem valores que são moldados aos tempos e às vontades, mas existem outros valores que são imutáveis e que deverão ser preservados durante a existência da Humanidade. Refiro-me a valores como a Vida, a Igualdade de direitos e oportunidades, a Liberdade de escolha e opção, etc. Porém, estes são alguns dos valores que vivem numa asfixia e que necessitam de serem defendidos e assegurados para que continuem a ser papel importante na vida de cada um.

Basta de atropelos aos valores instituídos, atropelos feitos em benefícios de uns e prejuízos de muitos outros. Atropelos daqueles que a todo custo tentam atingir objectivos próprios e duvidosos.

Enquanto não existir a luta pelos verdadeiros valores, assegurando que todos deles possam tirar partido para o seu bem-estar, caminharemos para um caos e para a construção de uma Humanidade sem um futuro próspero e no caminho errado.

 

manuelsous@vodafone.pt

Um «manual de maus costumes», este é o comentário que resume a opinião do escritor José Saramago em relação à Bíblia, não percebendo como é que um livro «cheio de horrores, incestos, traições, carnificinas» se tornou num guia espiritual para religiões como a Católica e mesmo o Judaísmo. Considera também que «sem a Bíblia, seriamos pessoas diferentes».

Todos estes comentários foram feitos durante a apresentação do seu novo livro «Caim», em Penafiel, a 18 de Outubro. Sem dúvida que o seu livro já deu muito que falar e ainda não se encontrava à venda nas bancas. Faltará saber se com toda a polémica instalada as vendas poderão corresponder às expectativas criadas em torno deste título.

Com estes comentários torna-se ainda mais evidente a personalidade de José Saramago, que sempre foi bastante polémica e muitas vezes criticado pela sociedade portuguesa. Criticado pela sua forma de ser, pelas palavras que dirige e que muitas vezes chocam as pessoas, ainda que em muitas situações tenha a sua razão. É claro que os recentes comentários acerca da Bíblia como «manual de maus costumes» feriram muitos católicos. Feriram tanto mais quanto maior o conservadorismo religioso existente no nosso país. Apesar de vivermos num país de livre opinião e de livre opção de ideologia religiosa, ainda é tabu que se tenham estas opiniões públicas e será sempre com grande polémica cada uma das reacções, que apesar de tudo não foram tão duras quanto as afirmações do escritor. Por até não serem tão duras, custa também a crer que José Saramago fique admirado com a reacção da Igreja Católica, tal a noção de lucidez que o autor tenta transparecer nos seus livros, na sua escrita ou nas suas palavras. É claro direito da Igreja defender-se das críticas tanto ou mais frivolamente quanto maiores forem essas críticas lançadas pelo escritor José Saramago.

Como em muitas outras ocasiões, as polémicas vão sendo esquecidas, após viverem o momento da sua glória na altura em que são criadas e lançadas. As organizações religiosas dificilmente ruem por mais abanões que aqui e acolá se vão fazendo em relação aos seus dogmas. Poderão existir outras coisas piores e mais graves que apenas críticas ou livros.

José Saramago diz que não escreve contra Deus porque como ateu não acredita na sua existência. Ele escreve contra as religiões porque estas não aproximam as pessoas como apregoam. Não escreve contra Deus, mas no fundo parece que este lhe é uma preocupação e por intermédio das religiões seja um alvo a abater. Todos os crentes, sejam Católicos, Judeus, Muçulmanos, Hindus ou qualquer outra profissão de fé, têm o livre direito de criticar as estruturas religiosas que defendem, que guiadas por homens têm os seus erros e as suas virtudes e que sob os seus erros devem mudar para estarem tão próximas quanto possível das doutrinas que professam.

As críticas do escritor e prémio Nobel não deixam de ser de todo pertinentes e não deixam de merecer alguma atenção por muito polémicas que sejam ou por algum exagero no seu fundamento. Há sempre algum fundamento de verdade que merece a nossa atenção para a discussão.

A Bíblia em si não é um manual de maus costumes e resumi-la a isso será um erro tão crasso como resumir que a obra de José Saramago não representa qualquer valor para a literatura portuguesa e que o seu prémio Nobel não tem significado algum para a mediocridade dos seus livros. A Bíblia é um livro que combina a componente histórica com a componente religiosa e mística. Negar os horrores lá retratados é negar o mundo e uma história que existiu, que nem sempre foi a melhor, a mais séria e nem sempre constituiu o melhor exemplo para as civilizações que se seguiram. Caso apenas retratasse as maravilhas de um povo ou da Humanidade da altura, não faria sentido também a vinda de um Messias que restaurasse a ordem, que trouxesse novos princípios e novas visões de pensamento a seguir.

Numa conferência sobre ciência e religião, realizada em Braga, por volta de 2007, com o Cientista Alexandre Quintanilha e o Professor, Teólogo e Padre Anselmo Borges, este último dizia que «a Bíblia não foi ditada por Deus e que deve ser lida de uma forma crítica. Se seguida à risca quantos sobreviveriam à face da Terra?». Este é o sentido crítico que lhe devemos dar, portanto, não significa que esse sentido crítico deva esvaziar todo o seu sentido ideológico e que pode muito contribuir para um mundo melhor. É importante discutir um livro como guia espiritual, até porque a espiritualidade deve ser questionada.

José Saramago diz-nos que «sem a Bíblia seriamos pessoas diferentes. Provavelmente melhores». É uma opinião que não podemos de facto confirmar à partida. Poderíamos viver também muito piores. Como livro que deve ser interpretado de forma crítica, é natural que muitos os façam de uma forma errada e, por isso, se tornem em más pessoas e tornem o mundo pior. Mas também existem muitas «pessoas melhores» que são seguidoras desse livro de maus costumes. Como qualquer obra escrita, pode ter a interpretação que lhe quisermos dar mediante convicções, opiniões e conveniências do momento. Da mesma forma que o livro «Caim» possa ser interpretado de várias formas possíveis. Espero ter a oportunidade de ler esta obra e que esta represente uma boa base de discussão, assim como, corresponda às expectativas da polémica lançada pelo seu autor.

As declarações de Saramago também tiveram o intuito de uma certa promoção da sua obra. Se assim não fosse poucos saberiam que o «Caim» estava nas bancas. As suas declarações são tanto ou mais polémicas quanto maior for a sua intenção em tocar no intimo e nas crenças de cada um. Ficaria eu surpreendido se em vez de críticas à Bíblia, José Saramago encontrasse nela um exemplo a seguir. Se assim fosse, os seus princípios ateus há muito que teriam caído e Saramago não pretende deixar cair esses princípios, que no fundo o incomodam como incomodam qualquer um.

Felizmente que vivemos num país com liberdade de expressão, em que não se tomam posições extremistas como em outros países, basta recordar das polémicas em torno das caricaturas do profeta Maomé. Criticas existirão sempre, mas como já disse, o debate também é saudável para se quebrarem tabus que ainda existam ou até para se cimentarem ideias. Apesar de ter a noção de polémica gerada e de estar preparado para tal, Saramago deve ter ficado surpreendido pela contestação proveniente não apenas da hierarquia da Igreja, mas também de muitos quadrantes da população que se diz não lerem a Bíblia. Neste mundo da informação é bom que se ouçam opiniões a favor e contra.

José Saramago não deixa de ser um grande escritor, apesar das suas posições radicais e crescentes em relação à religião. Muitas das suas posições são compreensíveis e inquestionáveis, contudo, outras mostram algum azedume forte e por vezes infundamentado, onde deveria ter a noção de determinados limites para a liberdade e respeito do outro. Não será com extremismos que se conseguem mudar as coisas ou chamar as pessoas à razão dos factos. Será sim, com o uso do poder da razão e do equilíbrio. Se Saramago é defensor da Teoria da Relatividade, sabe que não é detentor de verdades absolutas como, por vezes, parece transparecer.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

Maitê Proença, famosa actriz brasileira, publica no seu blogue, em www.maite.com.br um pedido de desculpa aos portugueses pelo vídeo caseiro, filmado em Portugal, em Março de 2007, numa passagem por Lisboa. O vídeo passou no programa «Saia Justa», da GNT, um programa que tenta ser de humor, do qual é uma das apresentadoras.

O vídeo é uma filmagem caseira, em que a actriz circula por Lisboa e arredores como Sintra, tentando mostrar alguns aspectos considerados curiosos de Portugal. Mostra espanto por ver o número 3 invertido por cima de uma porta. Mostra espanto pelo estilo arquitectónico manuelino do Mosteiro dos Jerónimos. Alguma confusão entre saber o que é o mar e o Rio Tejo. Algum gozo a Fernando Pessoa, ao túmulo de Camões e Vasco da Gama. Critica o hotel onde se encontrava hospedada por não ter serviço de técnicos de informática (algo que não é obrigatório num hotel) e durante o programa ainda critica que não conseguia enviar e-mails de Portugal, sem saber que quanto a Internet Portugal está muito mais avançado que o Brasil, aqui José Sócrates responderia à letra com a história do Plano Tecnológico. De referir que, no fim a actriz coloca-se junto de uma fonte e cospe (que segundo a mesma, tenta imitar a fonte a brotar água).

O vídeo que passou no referido programa do canal GNT, tornou-se bastante polémico pelo conteúdo e pela crítica bizarra que Maitê Proença faz aos portugueses demonstrando não um sentido humorístico que poderia ter, mas um gozo pelo que é português. Durante muito tempo este vídeo passou despercebido até ser lançado na Internet, através do Youtube e daí ter despoletado forte reacções e criticas nas mais variadas redes sociais. Consequentemente, o assunto do que se passou em 2007 voltou à ribalta e a ser notícia nos órgãos de comunicação social.

Aqui surgem as dúvidas, sobre a importância dada a este assunto nos media. Críticos de comunicação defendem que o tratamento terá sido exagerado e desproporcional para a importância do referido vídeo caseiro e que se poderão ter confundido as fronteiras entre a notícia e um simples episódio de crítica social. Miguel Sousa Tavares, em declarações ao jornal i, sai em defesa da actriz considerando que as reacções mais negativas são provincianas e saloias. Considera que temos complexos e que somos melindrosos.

É certo que o nosso espírito crítico e humorístico nem sempre será o melhor, talvez tenhamos mais um espírito crítico e pouco humorístico e que até sejamos frios e fechados. Não seremos com certeza um povo ou país exemplar e, por essa razão, existam muitas críticas a fazer e até se façam anedotas sobre o que de mais de caricato se passa por cá. Temos muitos humoristas em Portugal que criticam muita coisa e gozam com o alheio e, no entanto, são aceites de forma aberta pela generalidade dos portugueses e não geram polémicas como esta. Não seremos assim tão melindrosos e complexados como pensa Miguel Sousa Tavares.

Também nós gozamos com a nossa própria desgraça, mas o gozo pode ter muitos sentidos, o brincalhão e o jocoso. Pode-se colocar também em questão os princípios de liberdade e opinião, assim como, de comunicação. Mas como em todos os princípios, também existem limites que deveremos respeitar como cidadãos.

Se Maitê Proença tentou fazer humor, esteve muito longe de o fazer, pelo menos a meu ver. Acabou por cair no ridículo, quando goza com situações que não têm qualquer motivo para gozo. Digamos que um humor de pouca qualidade e que não provoca boa disposição, se calhar até para o povo brasileiro bem mais extrovertido que nós. Nota-se que foi um humor que se tornou jocoso e de profunda ignorância perante a cultura portuguesa, os estilos de arte, a geografia e mesmo em relação ao número 3 invertido que tem a sua razão de ser.

O sentido humorístico da actriz ainda precisa de ser apurado, mesmo que se trate de um vídeo caseiro, mas que foi para o ar. Talvez não tivesse a intenção de ser tão caseiro quanto isso. As desculpas podem ser aceites, até porque o povo português é muito acolhedor. Mas digamos que é sempre um pedido de desculpas um tanto de inocente de quem sabia muito bem o que estava a fazer e com que propósito o fez.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

O ano de 2009 ficará marcado como um ano de forte actividade política a vários níveis, devido aos actos eleitorais que se realizaram. Tivemos eleições Europeias, Legislativas e Autárquicas, que provocaram uma grande movimentação de lugares públicos e também gastos suplementares do erário público, para a campanha eleitoral e para os actos eleitorais.

Todos sabemos o quanto fica caro cada destes actos eleitorais, pelo dinheiro que é entregue aos partidos para subsidiar parte das suas campanhas e o investimento que é efectuado em todo o país para a realização do acto eleitoral, como o pagamento de salários por todos quantos participam activamente. Muitos de nós criticamos todos esses gastos, considerando como desnecessários e mesmo abusivos em momentos de crise que o país atravessa e na altura em que se pede alguma contenção de custos. Porém, é importante referir que cada um dos actos eleitorais é responsável por alguma movimentação da nossa economia aqui e acolá, obviamente que não em todas as áreas. Mas, é de referir que as eleições são um momento positivo para a nossa economia.

Chego a este conclusão depois de uma troca de palavras com uma cozinheira amiga, com quem trabalhei em tempos, e que diz ter trabalhado bem neste tempo de campanha e de eleições e que se notou mais trabalho, mais procura que tanto faz falta nestes tempos difíceis. De facto, é uma verdade e é bom quando o dinheiro circula, mesmo que para isso deva existir contenção de gastos.

O dinheiro gasto na campanha pelo partidos é proveniente dos donativos dos militantes e apoiantes e do próprio Estado, responsável pela partilha de verbas públicas. Todo esse montante é no fundo o nosso dinheiro, do nosso trabalho, das nossas contribuições. No entanto, a economia só funciona se esse mesmo dinheiro circular, ainda que nem sempre circule correctamente, de forma mais ampla e abrangente possível, para que a evolução da economia possa ser também mais ampla e mais alargada possível, para que todos possam de alguma forma beneficiar da movimentação dessa economia. Em conclusão tudo funciona como um ciclo.

No caso dos partidos, dos montantes gastos nas campanhas e nas eleições funciona também na lógica de um ciclo. Os partidos recebem os montantes para investir nas eleições. Quem ganha com tudo isto? Ganham as gráficas que produzem todo o que é de papel, plástico e que é distribuído; ganham as empresas de marketing; as empresas de publicidade que actuam nas mais variadas plataformas, digitais, através da televisão, da rádio, da imprensa, nas ruas através da instalação de outdoors entre outros; ganham as empresas que produzem os mais variados géneros de brindes; as empresas que alugam stands e barracas; ganham os grupos de animação que actuam para animar as festas e os comícios, etc, etc, etc.

Com tudo isto beneficia a economia paralela, se lhe posso chamar assim, como os cafés, os restaurante e tudo o que seja de comes e bebes ou de consumo imediato, pois sabemos que um comício trás mais gente para a rua, cria maior movimento e há um maior recurso a estes negócios para reuniões, encontros, etc. As campanhas e eleições trazem uma azáfama maior ao povo e quanto mais locais forem, maior é essa movimentação.

As eleições em si, não deixam de ser um contributo para que pretende ganhar mais um dia de trabalho e em tempos que se precisa de economizar algum é sempre bem vindo um extra ao final do mês.

É claro que nem tudo poderá ser assim tão linear ou que não seja assim tão transparente quanto isso. Para isso, existe o Tribunal de Contas que tem o dever de analisar as contas e valores gastos pelos partidos.

Apesar de tudo e apesar de concordar com a contenção que é necessária em tempos de crise, não deixo de acreditar que um acto eleitoral pode e deve ter os seus efeitos positivos na nossa economia e do qual dependem muitos empregos directos e indirectos. Até neste aspecto é saudável vivermos numa democracia.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

No final da noite todos os partidos anunciaram a sua vitória no geral das contagens de todos os votos no total de Presidências de Câmara, Presidência de Freguesias e Assembleia Municipal obtidas. Nenhum mostrou qualquer derrota.

O PS apresentou a clara vitória ao anunciar como o partido com maior número de Câmaras Municipais em que concorreu sozinho, sem qualquer coligação. 37,65% dos votos, que corresponde a 130 Câmaras, em que 118 foram com maioria absoluta. Conquistou a liderança de 1581 Juntas de Freguesia. Sem duvida um excelente resultado, sem qualquer coligação, dando ao PS um crescimento na liderança do poder local, que sempre esteve sobre o domínio do PSD. Espera-se que estes resultados sejam uma nova força para o PS na gestão do poder local.

O PSD atinge os 22,94% dos votos concorrendo sem coligações, o que corresponde a 116 Presidências de Câmara, sendo 109 com maioria absoluta. As candidaturas em que existiram coligações permitiram ao PSD somar mais 22 Câmaras Municipais. Caso não existissem estas coligações certamente que o PSD perderia a liderança do poder local, que já mesmo assim está aquém de outras eleições. Em segundo lugar ficou também ao nível das freguesias, sem contar com as coligações, 1522. Com as coligações atingiu as 1926. A queda de resultados do PSD também está relacionado com a necessidade de uma certa renovação em muitos municípios do país que durante muito tempo viveram adormecidos.

A CDU continua a ser a terceira força política com 9,76% dos votos. também estes não assumem qualquer derrota, ainda que tenha perdido algumas das Câmaras como Beja, que liderou desde 1976 ou Marinha Grande. Câmaras municipais que sempre foram fortes na presença comunista. Neste momento, a CDU conta com 28 Câmaras Municipais, sendo que 24 dessas com maioria absoluta. O poder da CDU manifestou-se sobretudo ao nível das Juntas de Freguesia 215. É notável o reforço desta força política no poder local e da sua forte influência, por exemplo em Lisboa. Este é um resultado mais expressivo que o alcançado nas últimas legislativas.

Este aumento de peso do poder local, mesmo que não seja em presidências, confere à CDU uma responsabilidade acrescida na gestão autárquica e da qual dependerão muitas decisões, estando numa posição de grande responsabilidade.

A expressão do CDS/PP no poder local continua a ser diminuto com apenas uma Câmara Municipal, que corresponde a 3,09% dos votos. Os resultados mais positivos e expressivos são provenientes das coligações celebradas com o PSD. Caso não fosse, este partido nunca seria uma alternativa para a gestão autárquica, tal a sua insignificância. Embora, Paulo Portas tenha transmitido um discurso muito positivo e também de vitória.

O Bloco de Esquerda não pode ainda contentar-se com o aumento expressivo de votos para as autarquias. Também não se consegue apresentar-se como força alternativa para a política local. Fica-se pelos 3,02% dos votos, com uma Câmara Municipal e 4 Juntas de Freguesia. Não se coligou, manteve-se sozinho nestas eleições contra os grandes do poder local.

A abstenção atinge 41%, uma percentagem bastante elevada para as eleições em questão. Será também muito importante pensar e discutir as razões que provocaram o afastamento dos eleitores na eleição daqueles que serão responsáveis pela gestão dos nossos municípios e freguesias e que terão um contributo para a melhoria das nossas condições de vida.

Manuel de Sousa

01:45 A noite eleitoral continuou com grandes personagens do costume a manifestar a sua vitória como Luís Filipe Menezes continua a liderar solidamente o município de Vila Nova de Gaia e Fernando Seara continua a liderar a Câmara de Sintra.

01:32 Isaltino Morais ganha para espanto de muitos a Câmara de Oeiras com 41,52% dos votos, tendo em segundo lugar o PS com 25,77%.

Isaltino Morais segue assim a sua caminhada, mesmo que tenha a justiça à sua perna e mesmo que o tribunal o tenha condenado sem qualquer dúvida por crimes de corrupção. Não se compreende que depois de tantas suspeitas e constatações do tribunal este candidato tenha ganho e com uma larga vantagem em relação aos adversários.

Talvez seja por estes pontos, que muitos portugueses deixam de acreditar na classe política e optem por abster-se. Mas, o voto é do povo. Este é que decide. Pena é que não exista lucidez possível para avaliar casos polémicos como este. Também culpa é da legislação que permite a candidatura de cidadão duvidosos.

Mal vai a democracia se no futuro continuarem a ocorrer estas situações.

01:00 Braga continua a ser de Mesquita Machado, que continua a sua carreira como dinossauro político neste distrito e do qual já se esperava mais uma vez a sua vitória. Porém, a sua notoriedade tem vindo a perder a sua influência, nota-se pelos resultados obtidos, 44,71% seguido pelo PSD-CDS-PPM com 41,99%.

A campanha de Mesquita Machado foi sem dúvida uma campanha muito forte e com um peso decisivo, pela envergadura de meios envolvidos. Foi notável o trabalho de marketing na imagem deste candidato, muito mais importante que a imagem do partido. A sua Sede de campanha, os outdoor e tudo mais, marcaram desde cedo a campanha rumo à vitória.

Muitas obras foram feitas e outras anunciadas e importantes ficaram por resolver. Mas quanto às que ficaram por resolver não deu resposta, pretendendo apenas anunciar as grandes obras como o prolongamento do túnel da Avenida da Liberdade.

A este candidato, nem as dúvidas em relação à gestão autárquica puseram em causa a sua eleição.

 

00:36 Gondomar continua a contar com Valentim Loureiro na Presidência de Câmara, que vence com 42,75% do votos, em grande vantagem sobre o PS que se ficou pelos 29,33%. O PSD fica-se pelos 15,31% e a CDU pelos 5,87%.

Este resultado fragilizou o PSD, que enquanto tiver Valentim como candidato concorrente, não vai conseguir conquistar a Câmara de Gondomar.

Não haverá muito a dizer sobre esta vitória que se repete tantas vezes quantas Valentim Loureiro for candidato pelos Gondomarenses, ainda que aos olhos de quem está de fora do concelho, possa parecer incompreensível a sua constante reeleição. Também sobre este recaíram suspeitas sobre a sua gestão autárquica, mas sem qualquer valor perante as estrondosas vitórias conquistadas ao longo dos anos e o elevado apoio popular que conquistou. Gondomar sem Valentim, não será Gondomar.

00:16 Fátima Felgueiras foi a grande derrotada da noite. Perdeu Felgueiras, um dos concelhos que durante muito tempo deu que falar nos nossos media. Mulher que durante muitos anos foi saudada pelos felgueirenses como a grande mulher, mesmo que sobre ela existissem graves suspeitas de corrupção nas gestão autárquica. Fugida para o Brasil e de regresso para vencer novamente as eleições com grande força, nestas autárquicas teve uma das maiores desilusões da sua carreira política na autarquia de Felgueiras.

Talvez o povo tenha realmente aberto os olhos para a dimensão e polémica da sua candidatura, na altura que a justiça tenta apurar as irregularidades da qual é suspeita. Durante muito tempo o povo acreditou na sua inocência e jamais aceitava, em grande maioria, que esta possa ter cometido irregularidades. É bom para a democracia quando se procura a eleição de pessoas que não possuam um passado autárquico tão duvidoso.

23:46 O Porto mantém o Rio, para além do Rio Douro. Rui Rio é o claro vencedor com 49,83% dos votos em relação a Elisa Ferreira que se ficou pelos 32,73%.

A vitória de Rui Rio deve-se à coligação PSD/CDS, que caso não existisse não existiria certamente uma vitória tão expressiva quanto isso. A vitória  deste candidato traduz também numa mudança do sentido de voto dos portuenses ao longo do tempo, basta recordar o passado autárquico Portuense com forte tendência Socialista. Com a chegada de Rui Rio o panorama alterou, apesar das fortes contestações que têm existido ao longo dos anos do seu mandato. Muitas vezes conotado por não gostar do FCPorto e com fortes divergências com este clube e seu adeptos, nota-se que isso em nada o prejudicou.

Elisa Ferreira, que poderia ter sido a surpresa da noite eleitoral, ficou aquém das expectativas. Elisa Ferreira não assumirá o seu lugar na Câmara Municipal, dado que pretende manter o lugar como deputada no Parlamento Europeu. Questiona-se aqui a razão porque alguns candidatos, que assumiram outros lugares de relevo e importância nacional, são cabeças de lista e depois abandonam os lugares para os quais são eleitos. Ficamos com a impressão que apenas são rostos para  conquistar lugares de relevo e caso não o consigam rejeitam os lugares que lhes são atribuídos, mas que não deixam de ter a sua importância e o seu relevo.

O PS teve uma pesada derrota, mesmo com uma candidata que poderemos dizer de qualidade. Questiona-se a validade das suas criticas em relação à candidatura PSD/CDS, onde diz que foi prejudicada pela ausência de debate público e pelas constantes criticas em em relação ao seu lugar no Parlamento Europeu.

A CDU teve também uma boa expressão de esquerda, ainda que pequena, mas mantém-se como a terceira força política. Falta saber qual a força e importância no futuro deste concelho nortenho.

23:33 Lisboa será conduzida por António Costa, pelo Partido Socialista, dando continuidade à liderança que havia alcançado nas últimas eleições intercalares, aquando a saída de Carmona Rodrigues. A Câmara mais importante do país e que traduz uma visão nacional do PS demonstra que o partido ainda está sólido e que o seu peso no poder local poderá chegar aos níveis dos sempre alcançados pelo PSD.

Santa Lopes é o derrotado porque não atingiu a sua vitória, nem foi capaz de cativar o eleitorado Lisboeta. Notou-se porém, que esta foi uma derrota dura de assumir, tal o tardio reconhecimento de derrota do candidato, quando as projecções davam a vitória confortável a António Costa. Estranho aquele vai e vem, entrada e saída com os jornalistas atrás e a sua indecisão quanto ao futuro na Câmara de Lisboa. A sua candidatura terminou num ar de indecisão, talvez essa a razão pela qual o eleitorado tenha ponderado na sua eleição. Como disse António Costa «ele anda por aí».

A CDU manteve-se como terceira força política, não tendo ainda nenhum mandato eleito até ao momento. De notar, o forte aumento de força ao nível das freguesias com aumento da votação.

No panorama total do distrito de Lisboa, PS surge em primeiro lugar e CDU em segundo lugar, ambos bastante confortáveis em relação a qualquer partido ou coligação das restantes forças eleitorais, que neste distrito tiveram pouca expressão.

Lisboa continua a ser de maioria de esquerda, como em grande parte da sua história autárquica.

 

23:30 A noite vai longa, muitos resultados já estão decididos, mas muitos ainda estão por apurar, para obtermos a real dimensão das últimas eleições.

Numa viagem entre os meios rurais até ao meio urbano, notava-se no ar grandes expectativas para conhecer os vitoriosos e eleitos em cada freguesia e em cada concelho. Aqui e acolá inúmeras pessoas, em grupos, à espera nas ruas pelas caravanas que aqui e ali se foram organizando, na medida em que os resultados foram sendo apurados.

São importantes estas eleições pela sua dimensão na intervenção e decisão do poder local.

Tristes os acontecimentos deste dia com o caso de homicídio ocorrido em Hermelo, concelho de Mondim de Basto, que vitimou o marido da candidata à presidência da junta daquela freguesia. Triste pelo crime e triste por se tentar manchar a democracia portuguesa.

A abstenção teve a sua força bastante expressiva, comparativamente a eleições anteriores, tendo atingido até ao momento cerca de 46,41%. Será importante também questionar e debater as razões desta taxa de abstenção, num dos actos eleitorais mais importantes a nível nacional. Crise política? Crise de candidatos e de criação de listas? Falta de credibilidade? Mudança do modelo político autárquico?

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

Mais uma campanha eleitoral que terminou, num ano recheado de campanhas e de eleições, um ano eleitoral muito forte e de mudança. Mudança, vamos ver. Muita coisa mudou, mas também muita coisa ficou na mesma.

As eleições serão Domingo e veremos quem serão os próximos dirigentes locais, nas Freguesias, Assembleias de Freguesia, nas Câmaras e Assembleias Municipais. Muitos lugares vão rodar, mas muitos lugares já se encontram decididos à partida, entregues aos dinossauros municipais, que em Portugal não se encontram em vias de extinção e que a legislação teima em não mudar.

Como em todas as campanhas, mais importante que os discursos são as promessas de que vão arranjar o caminho da porta de casa, que se vão construir habitações sociais, que se vão melhorar os acessos, que se vai investir no saneamento e na distribuição de água de rede pública. Tempo de dizer que se farão muitas obras, que não faltará nada a ninguém e que tudo o que o povo pedir será feito. Lá vai o povo convencido nas promessas do Zé da vila que um dia decidiu chefiar a freguesia lá do sítio. Lá vai o povo bater palmas ao Senhor Doutor que lá vai para a Câmara e que um dia baterão à porta para pedir mais um favorzinho em troca de um cabritinho ou de outra coisa que se preze para o favor que se pede.

Mas, do que o povo gosta são das festas de campanha com música popular para um par de dança, um churrasco para matar a fome e um bom vinho para se celebrar a festa. Ora se vai a uma, depois a outra, qualquer que seja o candidato o que interessa é o bailarico, que não há durante os quatro anos seguintes. Mas não só as festas, há que levar a nossa gente a passear por esse Portugal abaixo nas excursões porque, para isso, lá se arranja algum dinheiro público que cobrirá as despesas.

Para finalizar, nada como acompanhar na caravana do candidato que se apoia, sabe-se lá não será necessário no futuro um favorzinho lá do gabinete ou de um lugarzito para encaixar alguém.

O nosso povo gosta destas coisas e por vezes, esquece o que realmente é importante como a gestão dos cofres municipais e a seriedade daqueles que se candidatam para representar o povo e gerir uma autarquia. Ainda existe muita promiscuidade na gestão autárquica e muitos abusos de poder. Custa-me acreditar que o povo ainda eleja pessoas que não representam seriedade e transparência nos cargos que desempenham e conseguem ganhar eleições, quando estão a ser investigados ou a serem julgados pela justiça, sobre ilegalidades que cometeram à custa do bem público. Nota-se que o povo, em grande maioria, ainda anda alheio a estas situações e de alguma forma contribua para continuidade destas promiscuidades, sabe-se lá vendado ou iludido por alguma coisa.

Era bom que as escolhas que o povo efectuasse no Domingo próximo fossem as melhores possíveis, em nome da transparência e dos reais interesses da nossa terra.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

Amália, quis Deus que fosse o seu nome e o seu nome ficou imortalizado para sempre na memória do fado. Falar de fado implica falar de Amália, que trouxe a este uma profunda remodelação e deu-lhe a dimensão mundial, que nunca outro estilo de música portuguesa teve. A canção portuguesa, que traça o destino alegre ou triste deste povo, correu pela voz de Amália Rodrigues o mundo inteiro e encantou muita gente, muitos povos e muitos portugueses espalhados pelo mundo.

Volvidos 10 anos após o seu desaparecimento, o seu nome e a sua voz ainda se faz ouvir com grande intensidade, não apenas pelas pessoas da sua época, mas também pelas correntes jovens, que encontram na voz de Amália e do fado a sua própria forma de expressão e de cultura. Ainda hoje se cantam os seus fados, e ainda hoje grupos e diferentes formas musicais transformam o música e a voz de Amália, não deixando que se perca ou que fique limitada, mas que se adapte, se transforme e se revalorize como ícone da cultura portuguesa, cada vez mais transcendente.

Apesar da sua partida, a saudade da despedida atenua-se com o doce tom melodioso da voz que fica nas gravações e nas imagens e que se imortaliza com o som das palmas que por todo o mundo se bateram em homenagem à grande diva. Com Amália imortalizaram-se poetas, escritores e compositores que deram um contributo à construção da cultura portuguesa. Imortalizaram-se nomes como Luis de Camões, Ary dos Santos, Pedro Homem de Mello, David Mourão Ferreira, Alexandre O'Neill, José Régio, Aberto Janes, entre muitos outros homenageados pela sua música.

A dimensão de Amália Rodrigues não se traduz apenas pela doçura da sua voz, mas também pela intensidade com que vive cada uma das músicas que interpreta e que representam não só a sua forma de ser e de estar, mas que mostram a realidade do povo português. É por isso, que muitos se revêem nas suas frases, nas suas músicas. Intensidade no sentimento e nas vivências, polémica nas suas letras e manifestação, muitas vezes conotada ao regime ditatorial de Salazar, mas na realidade uma pessoa que sempre manifestou em favor da liberdade do seu povo, aquele que trazia no peito. O «Fado de Peniche» e o «Povo que Lavas No Rio» são alguns dos fados que mostram a dimensão política e revolucionária no tempo da ditadura e da clandestinidade e que chegaram a ser proibidos pela censura.

Mulher de grandes viagens, conheceu o mundo inteiro, pisou os maiores palcos como o Olympia, Philarmonic Hall, o Palais des Beaux Arts ou o Lincoln Center, nos EUA e cantou para várias estações de televisão do mundo. Porém, nunca negou as humildes raízes de um bairro de Lisboa.

Nascida a 23 de Julho de 1920, na Pena, em Lisboa, Amália da Piedade Rodrigues viveu grande parte da sua infância com os seus avós. Após o tempo de escola dizem que foi bordadeira e que também embrulhava bolos. Porém, foi mais conhecida como vendedeira de fruta, no Cais da Rocha. Em 1936 integra a marcha de Alcântara, nas festas de S. António de Lisboa e concorre num concurso da época que se chamava «Concurso da Primavera» para o título de Rainha do Fado, que na realidade se tornou. Passou pelo cinema, no filme «Capas Negras», pelo teatro de revista, no Teatro Maria Vitória.

Amália Rodrigues foi homenageada em Portugal e no mundo inteiro. Recebeu as mais elevadas condecorações como a condecoração com o Grau Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, das mãos do Presidente da Republica de então, Mário Soares. Recebeu a Ordem Nacional da Legião de Honra, por Francois Mitterrand e mais tarde é homenagiada na Cinemateca Francesa. Os aplausos surgiram por todos os locais por onde passou como Rio de Janeiro, Tóquio, Roma, Unão Sovietica, Londres, Nova York, Paris, Madrid, entre muitos outros, sobretudo onde existiam comunidades portuguesas.

Nos últimos tempos, a sua voz apresentava algumas debilidades e dificuldades em tentar expressar-se com a mesma força e vigor de outros tempos, mas a emoção do público atingia o seu auge com a sua presença e o seu sentido de vivência, mesmo que da sua boca apenas saíssem murmúrios ou gemidos.

Parte aos 79 anos de idade, a 6 de Outubro de 1999, altura em que se viveram 3 dias de luto nacional pela perda da grande voz. Centenas de pessoas assistem ao seu funeral e acompanham-na até ao Cemitério dos Prazeres e, mais tarde, em homenagem nacional, acompanham-na até ao Panteão Nacional, onde jaz juntamente com outros nomes da História de Portugal.

O adeus a Amália pelo humilde povo português, enquanto o seu corpo circulava pelas ruas de Lisboa, num cortejo fúnebre, ficará sempre na memória como expressão de luto e saudade, que este humilde povo sente pela voz que os representava e que representou Portugal.

Amália Rodrigues, a rapariga que vendia laranjas no mercado, foi, é e será a Diva a e Rainha do Fado. Esta é a mulher que revitalizou o fado e que permitiu de certa forma, que outros grandes nomes surgissem e que também farão a sua história e terão o seu contributo para a riqueza e variedade da cultura portuguesa.

«Quando eu morrer vão inventar muitas histórias sobre mim, se inventaram sobre a severa e não se sabe se ela existiu, e de mim sabem concerteza que eu existi.» Amália Rodrigues.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

As últimas declarações do Presidente da Republica, que serviram para quebrar o silêncio muito incomodativo durante a campanha, foram como que uma montanha que pariu um rato e ficou mais saliente que a cooperação entre Belém e S. Bento não será tão pacífica quanto o desejado e agora muito pior com um governo de minoria parlamentar.

Mas o assunto que fica em aberto e relacionado com a polémica das escutas em Belém é a segurança dos sistemas informáticos da República, do Governo e todo o Estado, ou seja, a segurança informática de todos os nossos dados de cidadãos, contribuintes e beneficiários. Sabemos agora e os estudos o comprovam, os sistemas informáticos do Estado são vulneráveis a qualquer invasão e manipulação. Sabemos o quanto isso pode representar como perigo para nós e para o Estado, para a confidencialidade e manipulação de dados.

Quanto a isso ainda esperamos que alguma decisão seja tomada e que sejam dadas as garantias aos portugueses de segurança e protecção dos sistemas informáticos. Talvez os responsáveis por estas áreas deveriam ter em consideração essas necessidades e mesmo os nossos governantes.

A polémica das escutas fez estalar este tema que viveu durante muito tempo adormecido, mas que é sem dúvida pertinente de discussão e análise.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

Na hora dos resultados todos clamaram por vitória, mesmo que a vitória tivesse sabor amargo. Esta é a perspectiva com que se fica depois de conhecidos os resultados das últimas eleições legislativas.

José Sócrates e o Partido Socialista serão chamados pelo Presidente da Republica a constituir novo governo por mais quatro anos. Quatro anos que serão longos para José Sócrates, que se vê obrigado a governar com uma maioria relativa, condicionada pelos bloqueios quer à direita quer à esquerda, que se farão sentir cada vez que alguma reforma ou algum projecto de lei tiver necessidade de aprovação pela Assembleia da Republica. Se inicialmente eram os bloqueios de Cavaco Silva através dos vetos presidenciais, agora surge uma outra força contrária.

O Partido Socialista é claramente o vencedor destas eleições, pela vontade popular, embora essa vontade popular não tenha aceitado o pedido de maioria absoluta solicitada na campanha. Dizem que um governo não governa para a rua e para as vozes do protesto que dela vem, mas um governo depende muito dos votos oriundos daqueles que estão na rua. Por isso, a vitória do PS não foi assim tão gloriosa quanto o desejado porque o descontentamento de muitos portugueses fez-se sentir no voto de uma forma expressiva. É claro que apesar de tudo os portugueses ainda desejam alguma estabilidade política e é de crer que muitos dos eleitores ainda tenham votado com a intenção de dar uma segunda oportunidade ao Eng. Sócrates.

Este homem que conhecemos como Primeiro-Ministro é, com todo o respeito, um animal político, que vive da política e que sabe muito bem quais as voltas que tem de dar para se sentir confortável em qualquer que seja a situação. A sua última campanha foi mais de charme que de debate ou ideias políticas. Charme para amaciar a imagem negra e péssima que se tentou construir à sua volta e à volta de alguns casos polémicos que se criaram mesmo a nível pessoal. Veja a sua prestação no programa dos Gatos Fedorentos, capaz de cativar alguma sedução eleitoral.

Desta vez a actuação do Governo e do seu Primeiro-Ministro terá de ser um tanto mais cuidada e menos agressiva e autoritária como tem sido nesta última legislatura. Sem maioria absoluta, terá que ter um sério cuidado em lidar com todas as situações, de forma a não causar guerras entre grupos sociais, dado que a oposição apresenta uma força bastante pesada que poderá causar problemas à governação.

Dizem os analistas que este poderá ser um governo curto, que sobreviverá cerca de dois anos, dependendo da agilidade do futuro Governo em construir alianças com outros partidos, ora à direita ora à esquerda, mediante cada situação ou reforma que seja necessário implementar. Um governo de ziguezague?

As alianças com o seu vizinho mais próximo, o PSD, poderão ser poucas, talvez com este seja mais útil usa-lo de forma a obter a abstenção na aprovação de propostas, para que os restantes partidos não tenham possibilidade de chumbar.

O CDS teve um crescimento notável, talvez o crescimento que muitos não julgariam que acontecesse, mas que revelam que Portas é o homem do qual depende o partido e que sabe muito bem de que forma se trava um duelo de campanha, cada vez mais mediática.

O Bloco de Esquerda teve também uma notória subida com um elevado número de deputados eleitos, o que constitui para este partido uma nova responsabilidade e sobre o qual caem muitas das atenções, agora que a relação com o PS pode determinar o futuro deste partido. Este pode constituir uma oposição forte ou então poderá deixar-se levar pelo encantamento das propostas do PS. Vamos ver como correm as propostas de alguma forma radicais que este lançou ao longo da campanha e que cativaram algum eleitorado.

A CDU apesar do seu crescimento em 30 mil votos, este mais pequeno em relação a outros partidos, e apesar de constituir a quinta força política do Parlamento não pode descurar-se do seu trabalho e das suas responsabilidades cada vez mais crescentes, este que foi um dos partidos de forte contestação ao governo. Este partido continua a ter mais força na rua que nas urnas e é um dos partidos que representa maior responsabilidade no aumento do contestação em relação ao governo, ainda que esse eleitorado se possa ter dividido os seus votos por outros partidos. Não fosse o BE apresenta-se com o um partido muito jovem e na onda mediática e a CDU teria uma expressão muito forte nestas eleições, em que o povo aumentou o poder da esquerda. Será o partido de quem dependerá o PS e BE para aprovação de qualquer diploma. Apesar de tudo esta é a força política com um eleitorado mais sólido e fiável que lhe garante uma maior estabilidade.

O aumento do poder da esquerda deve-se também às muitas injustiças sociais, ao desemprego e à crise do grande capital nacional e internacional. Apesar de alguns indicadores de melhoria da economia, no dia seguinte às eleições, o INE apresentou um relatório à UE preocupante em relação ao défice e em relação à divida externa (tema que praticamente pouco se dominou na campanha). É certo que muitas das grandes empresas estão seriamente preocupadas com o futuro que se avizinha, dada a força da esquerda e as propostas que esta poderá avançar, hipotecando o desenvolvimento do grande capital.

O próximo Governo será um governo que não poderá contar com muitos professores Universitários ou mesmo independentes, mas terá de contar com políticos profissionais porque nos próximos anos teremos um verdadeiro jogo político, a começar com a proposta de Orçamento de Estado para 2010, onde fará falta negociar como Guterres negociou com o queijo Limiano.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

O voto de cada um é tão útil como o interesse que cada um tem pelo seu futuro e pelo futuro do seu país. No próximo dia 27, dia de Eleições Legislativas, é importante que todos os eleitores, dentro das suas possibilidades usem do seu direito de voto, independentemente do partido ou da força política em que se reconhecem.

Por muito que a classe política desiluda o povo português com os atropelos à democracia, aos direitos e garantias sagradas na Constituição, é importante que o voto se reflicta como forma de mudança ou de protesto.

As sondagens que vieram a público durante a campanha eleitoral revelam que ainda existem muitos portugueses indecisos na sua intenção de voto, o que mostra que nem tudo estará decidido para os partidos e que muita coisa está em aberto. Importante será que a Abstenção não seja vitoriosa, mas derrotada, para o bem da nossa democracia.

Costuma-se dizer que por um se ganha, por um se perde. Daí a importância do voto de cada português como um voto útil capaz de decidir o futuro e o rumo do país.

Temos atravessado tempos difíceis ao longo dos últimos anos, com crises sucessivas, que têm trazido dificuldades para o povo, para as empresas, para o bem do nosso estado social. Por essa razão, cada voto é importante na decisão de construção deste projecto de país que tanto necessitamos de defender e fazer crescer e nunca acreditar que já nada se pode fazer ou que não temos capacidade de evolução. Temos capacidade de crescimento e evolução. Temos capacidade de afirmação internacional. Mas, para isso, é importante que tenhamos plena consciência em quem iremos depositar o nosso voto tão útil.

É importante votar no partido que apresente um projecto:

- Económico viável, que permita o acesso de todos e que aproveite as potencialidades do país como o turismo, as pescas, a agricultura, os serviços, a industria, etc;

- Que apresente lucidez na gestão dos fundos públicos;

- Que aposte na formação e ensino com o forma de crescimento futuro;

- Que aposte na cultura que tanto nos valoriza e que tanto é apreciada mundialmente;

- Que invista na saúde e nos cuidados básicos para todos;

- De Segurança Social cada vez mais próxima de cada um e capaz de corresponder às necessidades gerais;

- Que aposte na criação de emprego e defesa do sistema produtivo português;

- Que procure aumentar a segurança das populações;

- Que contribua para agilidade e rigor da Justiça.

Por isso, é importante que finda a campanha eleitoral exista um dia de reflexão sobre o que desejamos para o futuro do nosso país e consequentemente para nós. Por tudo isto, é importante o voto de cada um.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

A política tem tanto de bom como de mau. Tanto é responsável pelas coisas boas deste mundo como pelas coisas piores que se possam imaginar. Tem pessoas de uma grandeza pessoal como tem das pessoas mais podres e mais horríveis que se possa imaginar.

A Política é mais uma espada de dois gumes ou se gosta ou se odeia. Ela estraga o mundo e a sociedade, mas ao mesmo tempo sem ela nada se faz e nada se decide, para a evolução da terrinha, da freguesia, do concelho, da cidade, do país e do mundo.

O problema é que a noção de que a política é importante para a nossa evolução é cada vez menor, devido à descrença que esta tem provocado na nossa sociedade. Enquanto, antes se vibrava por um bom comício, por um bom debate, hoje são poucos os que assistem e que perdem tempo, a não ser que haja qualquer outra coisa em troca. Enquanto antes o país parava para ouvir uma declaração do Primeiro-Ministro ou do Presidente da Republica, hoje as declarações passaram a meros directos televisivos com cada vez menos influência. A pouca influência que ainda tem deve-se ao facto de existirem alguns comentadores políticos em programas temáticos que vão analisando e debatendo o assunto.

Os comícios passaram a ter cada vez menos gente porque os discursos passaram a ser meras críticas e trocas de acusações pessoais e deixaram de debater e apresentar ideias, deixaram de ter a verdadeira ideologia partidária para uma mera propaganda publicitária vazia de conteúdo e de princípios. Muitos sabem que, no final de um comício, as grandes verdades declaradas são esquecidas devido às conveniências do momento. Poucos são os que vão a um comício e triste é ouvir dizer que esses estão lá a agitar a bandeira do partido por conveniência própria e na procura de um favor.

As legislativas movem-se num espaço de dimensões cada vez maiores, tão grandes quanto maiores forem os interesses em jogo no futuro que se decide em quatro anos seguintes. Tão grandes quanto maiores forem os projectos a serem aprovados, classificados como PIN's.

A política depende dos votos da raia pequena que existe de norte a sul do país, mas decide-se junto dos polvos cada vez mais gordos que não governam na política, mas que comandam a economia e decidem o querem fazer. As decisões anunciadas por um Governo são as decisões tomadas pelos polvos que sugam a raia pequena e dos quais depende essa raia.

Já no Sermão de Santo António aos Peixes, se falavam dos polvos e parece que passados séculos eles ainda continuam por aí, de forma escondida, mas activos e capazes de cativar aqueles que lhes interessam.

É neste ponto, do negócio entre políticos e polvos, que a classe política atinge o seu lado mais negro e as ideologias partidárias e muito anunciadas nas campanhas são esquecidas para benefício próprio. Passados quatro anos ou se as coisas não correrem muito bem, os elementos da classe política encontram nos polvos forma de subsistência própria, enquanto que, a raia pequena fica à mercê de mais uma crise e de um futuro hipotecado.

Triste vive um país quando tem de conviver com este mundo bem frente aos seus olhos, mas nada poder fazer. Nada pode fazer porque se acomoda no seu canto e se levanta na altura em que o candidato anda pelas ruas a distribuir mais um beijo e mais um abraço. Triste vai a política e mal vai a democracia quando chegamos a este ponto.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

A propaganda partidária está nas ruas do nosso Portugal, numa última caminhada para as eleições de 27 de Setembro que se avizinham. Porém, a propaganda já há muito que se vai rolando fortemente com este ou aquele caso mais polémico que vai manchando este ou aquele partido, revelando que na caça aos lugares públicos todo vale em qualquer que seja a medida.

Recentemente veio a público a propaganda que o Governo e o Partido Socialista fizeram ao projecto TGV, com a produção de cadernos informativos do projecto, com 12 páginas, que se fizeram acompanhar encartados de algumas publicações nacionais de imprensa, num fim-de-semana. Esses cadernos foram feitos por uma empresa do Estado e pagas com dinheiro públicos.

Ainda que possam garantir que este caderno seja a apresentação de um projecto do Governo, é entendido por qualquer cidadão que se deparou com o respectivo como um caderno de propaganda, editado em altura de arranque para a campanha eleitoral.

É de considerar esta acção inadmissível, de falta de ética política, quer para com os contribuintes, quer com os restantes partidos portugueses e ao mesmo tempo uma falta de exemplo.

Os portugueses têm o direito de saber os montantes gastos nessas acções e as razões pelas quais as mesmas foram efectuadas perto de uma campanha eleitoral e sem que existisse razão aparente para a elaboração dos referidos cadernos.

Em tempos de crise, os portugueses já consideram exagerados os gastos que os partidos no seu conjunto têm com as campanhas eleitorais, sendo que os maiores partidos com assento parlamentar são os que levam a maior parte do bolo de fundos destinados às campanhas, não sendo uma distribuição igualitária entre as várias forças de direita ou de esquerda. O marketing político provoca elevados gastos desnecessários em panfletos que vão directos ao lixo e objectos fúteis como canetas, balões, garrafas de água, entre outros. Os votos obtêm-se com propostas e conhecimentos dos problemas do país e não se compram com futilidades.

Pena que nem nas campanhas eleitorais algumas forças partidárias não tenham um sentido de economia em poupar no desnecessário e gastar no que realmente é importante. Por aqui se vê como se governará um país, se com seriedade ou com propaganda durante a legislatura.

Pena é que ainda haja muito que corra atrás da caneta e do balão com a promessa de ser mais um voto.

Manuel de Sousa

manuelsous@vodafone.pt

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