A Galeria JN, no Porto, expõe, até ao dia 23 de Outubro, "JE T´AIME - Pintura sem importância", de João Dixo
A entrada é livre.
Edifício JN, R. Gonçalo Cristóvão, 195 4049-011 Porto. Horário: 2ª a 6ª feira, das 12,30h às 19,30h / Sábados, Domingos e Feriados das 15h às 20,00h
Perguntamo-nos (pintando, por exemplo; ou escrevendo; ou amando) "para que serve a pintura?", e: "para que serve o amor?" e descobrimos que perguntas e respostas se confundem como se confundem o viajante e o seu caminho. "Pintura sem importância" chama João Dixo a estas obras, e essa é decerto a natureza da pintura como a do amor, a sua essencial irrelevância. Dizer "je t?aime" ou pintar não são, de facto, coisas substancialmente distintas. Qualquer delas é do domínio da insatisfação e da incompletude, e qualquer delas se entrega a si mesma sem outra intermediação que não a do desejo. Teorizar sobre arte ou sobre o amor é, pois, um exercício inútil. Como o é escrever "sobre" (raio de palavra!) pintura.
Dixo sugeriu-me que, já que era suposto que escrevesse alguma coisa "sobre" esta exposição, falasse de? cerejas, que é como quem diz "de la pluie et du beau temps", isto é, de coisa nenhuma. Cerejas era uma boa ideia. Mas ocorreu-me Thomas Browne, para quem, se a natureza é a arte de Deus, a arte é a natureza do homem. E se há coisa que a arte não é, é "natural". E, afinal, não é de coisa nenhuma que sempre se fala, não são as palavras, e principalmente as palavras "sobre", matéria também "sem importância"?
Há aqui, na vontade de "não importância" desta pintura, que ela tão eloquentemente manifesta, um equívoco (João Dixo que me perdoe). Porque não há pintura inocente. A assumida (ou desejada) inocência desta pintura não é, e como poderia sê-lo?, inocência inocente, é uma "segunda e mais perigosa inocência", uma inocência que sabe que é inocente e que a si mesma se procura enquanto inocência. Não é fácil à pintura, nem a esta, esquecer, ser pintura e mais nada do mesmo modo que as cerejas são cerejas. A História está necessariamente lá, tanto a História da Pintura (e da arte em geral) como a história pessoal. A pintura faz-se no tempo e do tempo, separada de si, e o caminho para a coincidência consigo é sempre, como também o tortuoso caminho do amor é, um caminho de regresso.
Por isso, estas pinturas podem querer ser apenas múltiplos quadros "hipotéticos" ou fragmentos de quadros; manchas e volumes; superfícies oferecidas à usura do tempo e das próprias técnicas da pintura; sombras e labirintos; paisagens, figuras, céus, chãos; corações coloridos; alusões, evocações; figuração sem objecto ou abstracção sem sujeito. Algo, no entanto, de fora a ilumina, algo que (uma inconsciência talvez mais que uma consciência) actualiza e exprime o que nela é impressão.
Porque, como numa outra exposição de Dixo nesta mesma Galeria do "Jornal de Notícias", "quem pinta, pinta-se" (e até essa pintura de então emerge, aqui e ali, nestas obras de hoje). E porque também a pintura é fundamentalmente uma arte da memória, cheia de vozes e presenças que, como Psyché debruçada sobre Eros adormecido, se reveladas se perderão para sempre. Talvez por isso a palavra "pintura" avulte indefinidamente mais do que uma vez nestes quadros; como que dizendo: "estou aqui, sou eu; mas se me olhares cegarás". Quem se surpreenderá, pois, que o pintor lhe vire as costas?
Sendo da ordem da necessidade, a pintura é desnecessária senão para si. Não tem "importância", não "serve", como o amor, para nada. E, contudo, dizemos "je t?aime"; e, contudo, pintamos (ou pintam alguns). Mesmo que não seja por isso que "o nosso destino, tac, vá mudar".
Porto, 17/08/09
Manuel António Pina
NOTA BIOGRÁFICA
Natural de Vila Real, nascido em 1941.
Curso Superior de Pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1966, com 20 valores. Bolseiro da Fundação Gulbenkian, durante todo o curso e ainda de 1975 a 77 em Paris com Programa de Investigação reconhecido pelo instituto Nacional de Investigação Científica.
Curso de Ciências Pedagógicas da Faculdade de Letras da Universidade Porto.
Professor do Círculo de Artes Plásticas da Associação Académica de Coimbra de 1966 / 1975.
Membro Fundador do Grupo PUZZLE 1974 / 1979.
Membro de La Jeune Peinture, Paris 1974 / 1980.
Membro fundador da APNDC ( Bienal de Vila Nova Cerveira ).
Docente da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto desde 1973 a 1997.
Responsável do grupo de desenho do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, desde a sua criação, 1991 a 1998.
Director da A. R. C. A./ Escola Universitária das Artes de Coimbra de 1994 / 2004.
Responsável da Licenciatura em Artes Plásticas e dos Mestrados da A.R.C.A./ Escola Universitária das Artes de Coimbra.
EXPOSIÇÕES COLECTIVAS
Colectivamente participou em mais de duas centenas e meia de exposições e Festivais de Arte e Performance a título individual e como membro do Grupo Puzzle, em Portugal e no estrangeiro, destacando:
Todos os Salões de La Jeune Peinture, Paris de l975 a 1979; Exposition Dossier, Paris, 1972; Les 6 Jour De La Peinture, Marselha 1975; Semaine d´ Action Arc . Musée D'Art Modern de La Ville de Paris, 1980; Todos os Encontros Internacionais de Arte em Portugal de 1974 a 1978; Simposium Internacional D´Art Performance, 1979, Lyon, L´Information et l´Art Université Toulouse Le Mirail, 1979; Jovem Pintura Portuguesa em Paris, 1976, Moderna Pintura Portuguesa, 1975, S. Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Museu de Lund, Estocolmo, 1976; Artistas Portugueses, 1977, Fundação Gulbenkian, Paris; Arte Portuguesa em Madrid, 1977, Peinture Actuelle Bretigny; Exposition Dossier, 1972 Ville Juif, Paris; Comparaison/Opposition; 1973, Limoges; European Figuration, Turim,
1975; Evidence/Aparence, 1975, Limoges, Châteaurux, Tulles, Paris, Exposição Levantamento da Arte do Séc. XX no Porto Museu Soares dos Reis, 1975, Porto; Galerie Suicidaire, 1975, Nice, Damiron, Dauville; Dixo; Ricatto e Solombre, Galerie Art Extension, 1975, Paris; Recherche D'Identité/Paradis Perdu; 1977, Limoges; Journees D´Action e D´ Information de La Jeune Peinture; Pavillon du Jardim du Luxembourg; 1977, Paris ; Artistas Actuais do Porto na Colecção do Museu Soares dos Reis, 1978; L'éclairage du Discours, Galerie Noire, 1978, Paris; ESBAP/ FBAUP, 1995, Coventry, Porto, Art Exange, 1996; Cinco Estações de Pintura, 1996, Porto; III Bienal de Arte AIP Europarque, 1999; Tesouros de Portugal, Macau, 1999. Grupos no Porto do século XX Galeria do Palácio, e Porto 60/70 os artistas e a cidade Museu de Serralves do programa Porto Capital Europeia da Cultura 2001, etc...
EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
1963 Vila Real | 1965 Galeria Divulgação, Porto | 1966 Galeria Árvore, Porto | 1971 Galeria C. A. P., Coimbra | 1972 Galeria Alvarez, Porto
1972 Galeria Quadrante, Lisboa | 1972 Galeria Dois, Porto | 1973 Galeria S. Mamede, Lisboa | 1974 Galeria L55, Paris | 1975 Galeria Alvarez, Porto
1977 Galeria Diagonale, Paris | 1978 Fundação Engº Antº de Almeida, Porto | 1979 | Fundação Gulbenkian, Paris | 1980 Galeria J.N., Porto
1985 Galeria E.G., Porto | 1990 Galeria E.G., Porto | 1992 Galeria E.G, Porto | 1993 Galeria Y Grego, Lisboa | 1995 Galeria Artesis, V.N.Gaia
1996 Galeria Vandelli, Coimbra | 1996 Y Grego, Feira de Arte | 1997 Y Grego, Lisboa | 1997 Galeria Vandelli, Coimbra | 1999 Galeria Lídia Cruz, Leiria 2001 Casa Municipal da Cultura, Coimbra | 2002 Galeria Por Amor à Arte, Porto | 2003 Galeria São Mamede, Lisboa | 2004 Galeria Sala Maior, Porto
2005 Galeria 9 Arte, Lisboa | 2007 Centro de Artes, S. João da Madeira | Março 2008 Galeria S. Mamede, Porto. | Outubro 2008 Galeria 9Arte, Lisboa. | 2009 Galeria Jornal de Notícias, Porto | 2009 Galeria Diário de Notícias, Lisboa
REPRESENTADO NAS COLECÇÕES DAS SEGUINTES INSTITUIÇÕES
Fundação Gulbenkian ( Centro de Arte Moderna ), Lisboa; Museu Soares dos Reis, Porto; Casa de Serralves ( Museu de Arte Contemporânea ), Porto; Fundação Cupertino de Miranda, Famalicão, Museu de Amarante, Museu Malhoa, Caldas da Rainha, Museu de Ovar e também nas Colecções do Forum da Maia, Câmara de Vila Real, Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, S. Miguel, Açores, e nas Colecções dos Bancos BPA, BPI, CGD, UBP, BCM, Banco de Portugal, Companhia Portuguesa do Cobre, Polimaia, Gec Alsthom, Polimaia.
DAS ENCOMENDAS PÚBLICAS DE GRANDES DIMENSÕES, DESTACA
Instituto Português de Oncologia do Porto; Hospital de Montalegre; Grande Salão de Recepções da Fábrica Flor do Campo, Stº Tirso; Companhia Portuguesa do Cobre, Porto; Câmara municipal de Vila Franca do Campo, S. Miguel, Igreja matriz de Ponta Garça, Açores; GEC ALSTHOM; Câmara Municipal de Vila Real; Associação Académica de Coimbra, Organismo Autónomo de Futebol; Centro Comercial Topázio, Coimbra.