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Há 653 prédios em mau estado na Zona Histórica

CARLA SOFIA LUZ, MANUEL VITORINO

Cerca de 36% dos edifícios do Centro Histórico do Porto estão em mau estado ou em ruína. Entre os 653 prédios, alguns encontram-se na ruas de Trás e dos Caldeireiros, marcadas pela pobreza, desemprego e por alguma marginalidade em contraste com o novo pulsar dos Clérigos.

A reabilitação urbana da Capital Europeia da Cultura em 2001 que cruzou a Cordoaria e as novas vocações comerciais dos Clérigos não contagiaram a zona esquecida sob a sombra da torre, onde ontem morreram quatro pessoas. O retrato das ruas de Trás e dos Caldeireiros é fiel à realidade da freguesia da Vitória com pouco mais de 3000 habitantes. Um número em queda. Grande parte dos jovens partiu e a maioria da população é idosa. Muitos vivem, conta o presidente da Junta, Fernando Oliveira, dos cheques do rendimento de inserção social.

A culpa, clama Manuel Trindade, é a falta de emprego. O proprietário do café Kakély, com frente para o imóvel que ruiu após o incêndio, lamenta o "viver muito difícil" dos moradores daquelas ruas. "As pessoas sobrevivem, na sua maioria, à base de subsídios", continua. Nos anos 70, a zona era território de prostituição. Hoje, ainda por lá mora, embora com reduzida intensidade. A toxicodependência e o tráfico de droga viaja até às ruas, cada vez que a vigilância policial aperta na Sé. Mas é a degradação dos edifícios que mais preocupa.

"Moro há 43 anos nos Caldeireiros e sempre foi assim. A maior parte das casas está a cair. São em madeira e não tem condições. Dói-me a alma ver os edifícios neste estado", confidencia Joaquim Pereira, que partilha a pequena habitação com a mulher e quatro filhos. A Junta e o pároco da Vitória, Jardim Moreira, garantem que já alertaram, repetidas vezes, para a deterioração do edificado. "Um barril de pólvora", acentua o padre, certo de que esta "é a freguesia em que a Câmara do Porto menos investe".

Há muito tempo que a Vitória é o "parente pobre" do Centro Histórico do Porto, sublinha Fernando Oliveira. "O parque habitacional esta numa lástima. Vivemos constantemente preocupados. A reabilitação da Baixa ainda não chegou à Vitória por falta de vontade política", critica. O autarca lembra que o esquecimento não é de hoje, mas também não foi invertido por Rui Rio em sete anos.

E não tem dúvidas de que a Autarquia deveria usar a ferramenta legal da posse administrativa e recuperar os edifícios que não oferecem condições de habitabilidade, quando o senhorio, após notificação municipal, se recusa a fazer a obras. "As zonas mais críticas da freguesia são as ruas dos Caldeireiros, de Trás, de S. Bento da Vitória, de S. Miguel e da Vitória", acrescenta ainda.

Olhando para os números do Plano de Gestão do Centro Histórico do Porto, divulgados no final do ano passado, resulta claro que mais de um terço dos 1796 edifícios desta área, classificada pela Unesco, encontra-se degradados ou em ruína, mas apenas 17% dos imóveis estão vazios. Contam-se 649 prédios em estado médio e 443 em bom estado. Na área de intervenção da Porto Vivo delimitada na Vitória, a maioria dos prédios (107) apresenta más condições. Ainda assim, 45% dos edificado da freguesia está totalmente ocupado. Há 95 parcialmente ocupados e 53 vazios.

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