Avoz off provocava a multidão, apresentando Britney Spears como "escritora, cantora, bailarina e actriz e uma das artistas mais completas e bem sucedidas". Momentos depois, a loura mais apetecida da noite pisava o palco e, perante 60 mil pessoas - segundo a organização - ao rubro, o fracasso total.
"Toxic", tema inaugural do concerto, desmascara a prodigiosa norte-americana e revela o recurso ao playback. Cerca de cinco segundos de silêncio desastrado interromperam a música, enquanto Britney e o colectivo de bailarinos prosseguiam a performance.
Ultrapassado o lapso, o disco volta ao ponto que nunca deveria ter deixado, para descanso dos fãs que acorreram aos milhares até à cidade do rock, em Lisboa, num dia manifestamente mais leve.
Se o dia de anteontem se firmou como a viragem radical à estética negra e metálica, ontem, ocorreu nova transfiguração na audiência - uma "invasão" infanto-juvenil cor-de-rosa. O carácter homogéneo manteve-se. Argolas plastificadas, pulseiras e colares multicolores, cintos berrantes e descaídos, penteados pueris, jeans e t-shirts rosa delimitaram as possibilidades visuais de um público renovado, essencialmente feminino e escoltado pelos pais.
Desta feita, o móbil musical, garantido por Britney Spears, Black Eyed Peas e Sugababes, motivou "um passeio de sábado diferente", afirmou Ana Melim, a professora e mãe de 38 anos que não perdia Anaís, com 12, de vista. O cardápio é de cariz familiar: "Há concertos pa-ra as duas, porque eu vim ver Daniela Mercury e a minha filha está ansiosa pelo espectáculo da Britney", explica.
Pares similares passeavam por outras imediações, com paragens para uma recordação oficial ou para um gelado imprevisto na dieta de dias mais regulares. A entidade paternal até ousou arranjos capilares preferencialmente adolescentes, com lenços radicais e trapos descontraídos a ajudar ao espírito da festa.
A voz e o corpo de "Toxic" ditou grande parte da faixa etária do público. "É uma rapariga espectacular! Gosto de tudo nela!" - o entusiasmo de João Inglês, de 18 anos, coincidia com o desejo de "ver e não ouvir" de André Bizarro, de 16 anos, que preteria a sonoridade de Britney pelos seus atributos físicos e pela sessão do disc-jockey Carl Cox, na Tenda Electrónica.
Kelly Key, de 16 anos, afastava-se do consenso do seu grupo festivaleiro: "Canta bem, mas não gosto da personalidade demasiado provocadora e da atitude vulgar". "São ciúmes da fama e do corpo", espicaçava um amigo. Sempre a referência corporal da artista: "Não me interessa a virgenzinha que se transformou em mulher sexy", manifestava Joana Lúcio, pertencente ao mesmo grupo de idades.
"A produção do espectáculo atrai-me". Depois da animação da Tuna Académica da Faculdade de Farmácia, José Tempero, estudante universitário, vagueava pelo recinto e redireccionava as motivações para assistir ao concerto de Spears. "Curiosidade" - Madalena Melo, de 15 anos, seguia o raciocínio: "É uma oportunidade única para ver concretizada, ao vivo, a fama da Madonna em ponto pequeno que só conheço através da televisão".
Mas, pela incursão jornalística vespertina, também se verificou o apreço pela consistência das Sugababes, em detrimento da vulnerabilidade artística de Britney. "As Sugababes são mais simples e mantêm-se fiéis à sua identidade", afirmava Kelly Key, que, prosseguindo comparativamente, referiu que "Britney ora faz música para crianças, ora para adultos".
Joana Lúcio e João Inglês repartiam preferências pela vertente original e lúdica dos Black Eyed Peas. Além de serem "uma banda nova, que está, pela primeira vez, em Portugal", diz João, "têm mais alegria, energia e bom astral", completa Joana.
Casual, leve e corporal é o mote da proposta do penúltimo dia do Rock in Rio, em Lisboa.
Actuação da norte-americana começou com passo em falso, perante cerca de 60 mil pessoas
Stand de sugestões/ /informações
Está bem sinalizado e o esforço de informar e escutar é meritório. As reclamações vão sendo atendidas e registadas a um ritmo escorreito. O pessoal fixo ronda as quatro pessoas, o que evita aglomerações incómodas.
Divertimento rasca Uma das inúmeras marcas comerciais presentes no recinto do Rock in Rio propõe um passatempo absolutamente execrável. Lambidelas em mamilos desconhecidos, beijos na boca de um qualquer incógnito ou incógnita e apalpões nas nádegas, com cartazes a incitar aos aplausos. É a triste ideia de divertimento.