A vitória do PS nas europeias de domingo passado transforma Ferro Rodrigues no candidato natural dos socialistas a primeiro-ministro ? "Não é óbvio", responde, surpreendentemente, Mário Soares.
O ex-presidente da República argumenta que "primeiro ainda há eleições regionais e autárquicas". E aí, "há problemas" para a liderança de Ferro Rodrigues. "Há escolhas que são importantes, e é preciso ter coragem de as fazer", disse ontem ao subdirector do JN, António José Teixeira, no programa Sociedade Aberta, na SIC-Notícias.
Para o socialista, as europeias "vão ter mais reflexos nas presidenciais do que nas legislativas" (Ler texto nestas páginas). Ou seja, o caminho que o PS ainda tem de percorrer até às legislativas não lhe permite dizer já que a actual liderança está de pedra e cal.
"Foi o PS que as ganhou e portanto ele (Ferro Rodrigues) evidentemente aproveita", afirmou Soares, acrescentando: "Toda a gente sabe que quem fez a campanha realmente foi Sousa Franco até à sua morte".
A seguir disse: "Mas, se ele for eleito secretário-geral no congresso de Novembro é normal que possa vir a ser primeiro-ministro". E rematou: "Não me pronuncio sobre isso porque seria entrar numa gestão que me toca um pouco de perto na medida em que o meu filho já anunciou que será candidato".
Seja como for, Soares entende que "o PS deve ser muitíssimo mais acutilante" a partir de agora. E dá um recado aos dirigentes: "devem fazer uma oposição séria, permanente, continuada. E criar uma alternativa". Em suma: "É preciso dar um novo élan ao PS e ultrapassar o peso de certos aparelhos partidários".
Continuando a sua análise das eleições, o histórico socialista viu no resultado mais o "demérito do Governo" do que o mérito do PS. Isto porque, explicou, "existia uma forte onda anti-Governo" que "aumentou" nos últimos meses. E que transformou a eleição de domingo "uma banhada" (usou a expressão de Marcelo Rebelo de Sousa) para o Executivo. "Não tinha dúvidas de que isso iria acontecer, percebi que havia um descontentamento grande".
Soares defendeu, depois, que o Governo "escusava de ter ido em coligação" com o CDS-PP às eleições. "O que se viu foi que mais por mais deu menos".
O socialista entende que "a coligação é um peso extremamente duro" para o primeiro-ministro e o PSD, mas do qual, "tendo-se amarrado não se vê agora como é que ele possa sair, mesmo quando grande parte do partido começa a sentir-se penalizado e a reclamar disso, como se viu na noite das eleições". Segundo Soares, "faltou coragem" a Durão Barroso para dizer "vamos concorrer sozinhos já que estamos em agrupamentos diferentes na Europa".
O que sucedeu, acrescentou, "é que o PSD perdeu dois deputados no PPE e o PP manteve". Para Soares o eleitorado "iria entender que os dois partidos poderiam ir separados, à semelhança dos sociais-democratas e Verdes na Alemanha" que, estando coligados no Governo, foram separados nas europeias.
Por outro lado, prossegue Soares na sua análise, Durão Barroso "não se comprometeu com uma remodelação" na noite eleitoral. "Como é que ele vai fazer a remodelação, e para quê, e com quem?". O que significa que "está amarrado" ao parceiro, o CDS-PP.
Soares não acredita que seja uma remodelação que vá pôr o Governo a "funcionar melhor", a não ser que se desse "uma grande volta" que seria "deixar de ser um Governo de coligação". Mas o labirinto em que se pôs o PSD e Durão Barroso, segundo a sua análise, mostra que "se deixar de existir a coligação, o Governo cai". "Aí é que está o problema em que eles se puseram (...) Foi a imprudência de ir em coligação às eleições".
Na opinião do antigo chefe de Estado, o PSD "teria força suficiente" para formar um Governo minoritário" em 2002. "Na situação de aperto em que se estava quem é que ia deitar o Governo a baixo?". "Um Governo só do PSD não tinha de fazer as concessões que fez à extrema- direita ou à direita revivalista que representa Paulo Portas". Este foi o primeiro erro. O segundo, continuou, foi "terem ido às europeias em conjunto".
No programa Mário Soares defendeu que Durão Barroso deveria propor a sua continuação de António Vitorino como comissário.
Noutro capítulo - o caso Casa Pia - Soares considerou "um grande desaire para a Justiça, o ministério Público e a Polícia Judiciária" o desfecho do caso. Mas sugeriu que Paulo Pedroso deveria"ser prudente e discreto" no regresso à política.
As campanhas eleitorais são um "folclore que tem de ser repensado", defende Mário Soares. Não só "estão comercializadas", como "não transmitem nada" aos eleitores. "Colam-se os cartazes, pagando a empresas para os colarem; levam-se camionetas com pessoas para assistir aos comícios para mostrar na televisão que está muita gente a apoiar"... É contra este panorama que protesta o histórico socialista, aproveitando os comentários que fez aos desacatos vividos durante a campanha eleitoral do PS na lota de Matosinhos.
"É possível que o modelo que se inventou com as primeiras eleições, e que se explica pelo entusiasmo extraordinário que trouxe o 25 de Abril às campanhas, esteja esgotado", assumiu.
"Há que tirar consequências" dos acontecimentos ocorridos na lota de Matosinhos no dia 9 de Junho, diz, por outro lado, Soares, evitando contudo associar a morte do cabeça de lista do PS às europeias, Sousa Franco, ao sucedido. "Foi uma pressão enorme que ele teve, um esforço, até físico, a que ele não estava porventura habituado".
"Não me surpreendeu a forma como fez campanha. Eu conhecia os seus dotes de comunicação, a sua capacidade, a sua alegria ao falar com as pessoas, a maneira fácil como falava com as pessoas", recordou.
Soares apoia a decisão dos dirigentes do PS de instaurar um inquérito sobre os acontecimentos em Matosinhos e "sancionar quem tem de ser sancionado". "Foi uma má prestação, quer de um, quer de outro", afirmou, referindo-se a Narciso Miranda e Manuel Seabra.
Sobre as campanhas, Soares defendeu ainda que devia haver "mais empenho em explicar ideias políticas".
"Folclore" das campanhas "tem de ser repensado"
Frases
Ele (Sousa Franco) morreu muito feliz. A campanha foi para ele verdadeiramente uma campanha alegre".
A modificação das políticas (do Governo) vai ser muito difícil, e a remodelação (dos ministros) ainda mais".
Se eu fosse Cavaco Silva - não sou, claro - estudava bem estas eleições e talvez tirasse algumas conclusões..."
Há um candidato que está aí (António Guterres) e é preciso que ele se defina".
A esquerda vai necessariamente ter um candidato que possa ser aceite não somente pela Esquerda PS, mas por toda a Esquerda".
Era necessário que os partidos se pusessem a fazer uma campanha mais sobre ideias e menos sobre 'faits-divers'. Menos sobre os adversários e mais sobre o que querem fazer".
No meu tempo eram os sindicalistas que colavam os cartazes. Agora paga-se a quem os cola".
Eu aguentei muito bem isso (campanhas eleitorais) porque dormia nos intervalos e era pouco acanhado".
Cheguei a fazer trinta, quarenta, às vezes mais, comícios num dia (...) Às vezes trocava os nomes das terras..."
O dr. Durão Barroso, que é um homem corajoso, não ficou amedrontado com a derrota, assumiu-a relativamente. Mas não se comprometeu quanto a uma remodelação..."
A abstenção foi um voto de protesto. Em certa medida contra o Governo, em certa medida contra a tibieza do PS".
Se em vez de ter sido Miguel Portas o candidato, tem sido Louçã, os resultados teriam sido ainda melhores".
Antigo presidente aconselha Cavaco
Na opinião de Mário Soares o resultado nacional das eleições europeias terá um "efeito directo" nas próximas presidenciais. Mais até do que nas legislativas.
A argumentação do ex-presidente da República é a de que nas europeias, a Esquerda mostrou que "continua a ser maioritária em Portugal, como sempre mais ou menos foi", pelo que, "se o Governo continua a derrapar, é óbvio que a Esquerda vai ficar ainda mais fortalecida".
O que significa que "um candidato de Direita que seja apresentado pela coligação, dificilmente conseguirá obter uma maioria".
Mesmo sabendo que o candidato previsível do Centro-Direita seja Cavaco Silva, e que a Esquerda ainda não tem um candidato definido, Soares considera "difícil" ao ex-primeiro-ministro social-democrata vencer as presidenciais em 2006 e recomenda a Cavaco Silva que "estude bem" os resultados de domingo passado.
Foi uma "derrota da Direita que desagradou profundamente ao partido do centro-direita que é o PSD", sublinhou.
"Se o Governo não se modificar - e a modificação das políticas vai ser muito difícil e a remodelação ainda mais - é certo que as legislativas vão ser perdidas pela coligação, mais do que as autárquicas e regionais porque estas eleições estão muito dependentes dos candidatos e das circunstancias de cada município e região", argumentou também Soares.
"Se a coligação não for capaz de mudar cem por cento - e não vejo como - as suas políticas, é evidente que o PSD e o CDS vão apresentar-se a eleições numa má postura", concluiu.
Guterres deve definir-se
À Esquerda, Soares recordou o nome de António Sousa Franco que era o seu preferido para as presidenciais, se não tivesse morrido subitamente. "Sagrou-se nestas eleições como um possível, mas infelizmente morreu".
Em seu entender, Ferro Rodrigues deve providenciar um candidato "quanto antes". "A partir de agora começa a tornar-se necessário um esclarecimento", defende o militante, referindo-se ao antigo primeiro-ministro socialista António Guterres, que, na perspectiva de Soares, é o candidato mais nomeado pela Esquerda.
Neste momento, a Esquerda não tem candidato e perdeu a hipótese Sousa Franco. Além disso não tem calendário definido para a divulgação do apoio e da estratégia presidencial.
Na Direita há um candidato praticamente assumido e um calendário estabelecido no último congresso do PSD, que decorreu em Maio passado em Oliveira de Azeméis.
Mas Soares está convicto de que a Esquerda vai "facilmente" preencher o espaço de descontentamento que há nos eleitores que apoiaram o Governo.
Um descontentamento expresso na noite eleitoral por dirigentes como Dias Loureiro, ou analistas como Marcelo Rebelo de Sousa - que "classificou o resultado de 'banhada' - ou Pacheco Pereira.