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Parque da Arrábida mártir em ano de mais incêndios

Paulo Morais *

Repete-se o sempre temido e ainda por evitar cenário do país em chamas. E os números não permitem que se acredite, para já, que o balanço trágico do ano passado seja irrepetível. De acordo com números da Direcção-Geral dos Recursos Florestais, este ano (até 18 do corrente) a área ardida é superior à do período homólogo do ano passado, em mais de cinco mil hectares.

Ainda em comparação com o ano passado, a única diminuição é a do número de fogachos (menos de um hectare). Quanto aos incêndios florestais, os realmente devastadores, cresceram. Ontem mesmo, os bombeiros estavam a braços com dez ocorrências de vulto, como os incêndios de Monchique ou Torres Novas.

Ao fim do dia, era especialmente preocupante a situação no Parque Natural da Arrábida (PNA), onde um violento incêndio deflagrou ao início da tarde de ontem. Arderam vastas áreas de mato, e os bombeiros continuavam sem conseguir controlar as chamas, de tal forma se conjugavam factores adversos: altas temperaturas, vento, vegetação muito densa ou a própria morfologia da serra davam muito que fazer aos 200 homens no terreno, de 24 corporações, auxiliados por 62 viaturas e um helicóptero.

Três frentes

O fogo deflagrou pelas 13.45 horas, na Herdade dos Arneiros (Alto das Necessidades), e progrediu rapidamente para Sul. Lavrava em três frentes, a mais problemática das quais era a de Vale da Rasca, onde se procedeu, durante a tarde, ao corte da EN 10 e da estrada da Figueirinha. Duas instalações agrícolasficaram destruídas, e as praias da Figueirinha, Galapos e Arrábida tiveram de ser evacuadas, bem como algumas habitações.

A segunda frente, na zona de Picheleiros, era a única que estava controlada, ao início da noite. Aí, foram evacuadas casas e o parque do Clube de Campismo do Barreiro. Quanto à terceira frente, lavrava na vertente sul da serra. As chamas chegaram à praia entre a Figueirinha e Galapos, e os bombeiros tentavam, a todo o custo, evitar que as chamas se propagassem para para as zonas de reserva integral do PNA, a poente.

"Catástrofe ambiental"

No combate às chamas, três bombeiros sofreram ferimentos ligeiros, tendo já recebido alta do Hospital de Setúbal, de onde já tiveram alta. No alto da serra, pudemos testemunhar a violência do incêndio, que, a dada altura, obrigou uma coluna de bombeiros a inverter a marcha, tal a velocidade com que as chamas se aproximavam. Dali não se viam as praias, encobertas pelo fumo. O ar era quase irrespirável, o rasto negro na serra era desolador.

Lá no alto, Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Quercus, olhava, desanimado, para o triste espectáculo que se desenrolava a pouca distância. "Isto só foi possível porque, logo de início, não houve uma grande capacidade de actuação rápida, nem, se calhar, conseguia haver", desabafou, acrescentando: "Um pequeno incêndio, a cerca de cinco quilómetros do cume, está agora a destruir uma das partes mais importantes da serra; vamos ver se a zona de reserva integral consegue ser preservada". Qualificando o sucedido de "catástrofe ambiental e humana", Francisco Ferreira diz que a situação só poderia ser evitada "com mais meios de vigilância e de intervenção rápida", algo que não se conseguia, no alto da serra, porque os bombeiros estavam no Vale da Rasca a proteger as casas.

No dia 6 do corrente, as chamas tinham já destruído uma vasta área do PNA, na zona de Vale de Barris, junto a Palmela.

*com Pedro Olavo Simões

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