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"Políticos preferem RTP para se fazer ouvir"

Ricardo Paz Barroso textos

José Rodrigues dos Santos dirige a Informação dos sete canais da estação pública há quase dois anos. Afirma que não são as audiências que movem a sua equipa, mas revela-se satisfeito com o "prémio" dado pelos espectadores, liderando as audiências com o Telejornal, que também apresenta. Sobre eventuais excessos cometidos por jornalistas durante o Euro 2004, confessa: "Eu próprio cheguei a ter vontade de dizer alguma coisa, mas sempre recusei fazê-lo".

[Jornal de Notícias] O que é um serviço público de informação?

[José Rodrigues dos Santos] É uma informação que não é influenciada pela questão do mercado, pela pressão dos investidores, de grupos comerciais. Outra das características do serviço público de in- formação é o de tratarmos temas que não "vendem". Diariamente, o Telejornal põe informação da bolsa. Muitos di- rão que o tema é maçador, mas nós consideramos importante que a informação esteja lá porque pensamos que assim prestamos um serviço às pessoas.

Numa lógica de concorrência pelas audiências, colocar números da bolsa no ecrã não afastará o espectador?

Desde que assumimos funções, em Setembro de 2002, a nossa opção foi a de fazer uma boa informação sem estar a olhar paras as audiências. Os espectadores premiaram esta nossa postura. Em Abril, o Telejornal assumiu a liderança. Se amanhã as audiências caírem, então, paciência. A liderança em termos de audiências não é o nosso objectivo primordial. É, isso sim, uma consequência.

Falando em termos de públicos, têm consciência de quem vos selecciona?

A RTP lidera na classe A/B. Talvez desde a guerra do Golfo. Talvez para isso também influa o facto de que, hoje em dia, os políticos, do Governo e da oposição, no geral, preferirem claramente a RTP para se fazer ouvir. Talvez porque reconheçam que somos mais credíveis para o fazer.

E quanto ao facto de ter um público considerado mais idoso?

Temos, de facto, um impacto menor sobre crianças. Mas quanto mais subimos na escala social, mais somos vistos. Quanto mais subir nas idades, mais a RTP é vista. E nós não temos produtos de novela que nos permita competir em certas faixas.

Os telejornais sofrem muitas variações como efeito das telenovelas?

Sim, mas parcialmente. Acontece muitas vezes o Telejornal não partir da liderança, mas atingi-la pouco depois de começar.

Tendo a conta o que se viu no Euro 2004, não terá havido directos em excesso?

O problema é que a actualidade não tem o ritmo da ficção. Nela está sempre a acontecer alguma coisa. Quando estamos em directo pode estar prestes a acontecer... Quando nada acontece, é difícil preencher os espaços.

Como comenta a situação de apoio explícito à selecção nacional de alguns jornalistas em conferências de imprensa?

Eu próprio tinha alguma vontade de dizer alguma coisa, mas sempre recusei fazê-lo. Toda a gente sabe que, ao nível dos princípios, há uma separação entre a visão do jornalista e a do cidadão. Quando está a exercer a sua profissão não estará a comportar-se da melhor maneira se confundir as coisas. Mas admito que, naquele clima emocional para todos, eu incluído, houve uns que tiveram menor controlo de emoções que os restantes.

Director de Informação diz que as boas audiências são consequência e não um objectivo

Pode o jornalista fazer juízos de valor?

Se calhar, até pode. A Cristiane Amanpour, da CNN, sobre a guerra da Bósnia, diz que não pode tratar um genocida e uma vítima indirecta desse genocida da mesma maneira. Por hipótese, se tivesse que fazer o momento de libertação dos judeus do campo de Auschwitz, não sei com que objectividade eu poderia fazer aquele trabalho, tendo em conta as imagens de horror conhecidas. Até os mais puristas teriam a mesma reacção. Durante o Euro 2004, as pessoas mudaram muito, até na maneira como olhavam para os símbolos nacionais.

Mas não será o futebol um fenómeno fútil, atendendo às comparações que fez?

As coisas têm a importância que lhes quisermos dar. O futebol não tem importância nenhuma e tem toda a importância. Depende do valor que lhe atribuirmos.

Cabe às televisões medir esse grau de importância?

As pessoas reagem aos fenómenos e as televisões têm que reparar naquilo que capta a sua curiosidade e focar a atenção nisso. Amplificámos o Euro 2004, mas nunca conseguiríamos fazer o mesmo com a morte de uma formiga nos jardins da RTP!

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