"Fahrenheit 9/11" é lixo tóxico. Não por constituir uma poderosa peça de propaganda contra a Administração Bush (esta bem precisa de críticas demolidoras, pelo que fez, pelo que faz e pelo que poderá ainda fazer), mas por continuar a linha de simplificação, primarismo, mistificação, manipulação e mentira que são os piores elementos de uma certa política à americana.
Uns dirão que a imbecilidade residual do filme está bem para a imbecilidade reinante em Washington. Mas não lhe chamem, por favor, obra-prima do documentário. Desde logo seria um insulto à grande tradição do género nos EUA, criado pelo pai de "Moana" e "Nanook", o brilhante e controverso Robert Flaherty, e continuado por nomes mais conhecidos, como (contando do presente para trás) Eleanor Coppola, Fred Wiseman, Michael Apted, Albert e David Maysles, ou mesmo Martin Scorsese (quem se lembra de "A Última Valsa", sobre o derradeiro concerto de The Band?).
Claro que o "documentário", desde o seu radical latino (documentum, docere), incluiu desde sempre, não apenas uma "apresentação objectiva de factos, sem interferência opinativa ou editorial", mas também uma "lição" escolhida pelo realizador, onde o autor deixava uma impressão digital sobre a realidade. Por outro lado, a busca, durante a II Guerra, de nomes maiores do cinema americano, de John Ford a Frank Capra, para produzir "documentários", uniu a liberdade criativa, o talento e a propaganda pura em torno de uma causa.
O pior é quando uma obra pessoal e parcial procura a aura de um produto de laboratório, que se limita a olhar para os factos sem os distorcer, mostrando "apenas" o seu potencial predador. É o caso de Moore. A lista das pequenas e grandes mentiras, das omissões e das interpretações travestidas de "cinema verité" é enorme. Quando foca a alegada falta de reacção de Bush ao atentado às Torres Gémeas, durante uma visita a uma escola primária (o presidente fica minutos a fio a reflectir, ouvindo poesia infantil), procurando decifrar a mente presidencial, Moore consegue um momento de grande impacte. Porém, "esquece-se" providencialmente de reproduzir as palavras da professora presente, que disse aos media ter admirado o comportamento de George Bush, a sua calma quase estóica, e a atitude "correcta" de um "chefe" que procura mostrar aos eleitores a possibilidade de uma vida normal.
Também no episódio da evacuação ultra-rápida da família bin Laden dos EUA, logo a seguir ao 11 de Setembro, Moore é desonesto. Mostra as opiniões do ex-coordenador antiterrorista Richard Clarke, que se transformou num crítico da administração, para dar peso ao "documentário", mas "esquece-se" de dizer que Clarke foi uma das entidades que aconselhou e autorizou aquela saída, para impedir a criação de bodes expiatórios.
No episódio da guerra do Afeganistão, Moore mostra "especialistas" que afirmam ter a Casa Branca perdido demasiado tempo antes de tentar capturar Bin Laden, dando-lhe oportunidade para fugir, nos escombros do império taliban, e adere a essa opinião: Bush terá sido negligente, porque só se preocupava com o Iraque. Mas Moore "esquece-se" de revelar que, durante a campanha contra a al-Qaeda, esteve contra a intervenção, considerando-a errada, desmedida e injustificada.
A explicação da eleição presidencial de Bush por um golpe de estado da televisão "Fox", ou a demonstração visual de um Iraque feliz, com restaurantes cheios e sorrisos nas ruas, antes da chegada dos malvados invasores, são também peças feitas para aldrabar crianças. Mas, na senda da tradição de venda da banha da cobra, "Fahrenheit 9/11" tem coisas boas e originais. Só que as originais não são boas, e as boas não são originais.
Nuno Rogeiro escreve no JN, semanalmente, às sextas-feiras