Oneurocientista Alcino Silva, radicado nos EUA, explica nesta entrevista os passos que os seu laboratório tem dado para o entendimento de uma das funções mais misteriosas do cérebro: a memória.
[Jornal de Notícias] Qual o campo das suas pesquisas?
[Alcino Silva]A memória e as doenças da memória. O nosso laboratório e outros da mesma área conseguiram provar qual o processo fundamental que ocorre quando animais e pessoas aprendem informação.
Que processo é esse?
Durante a aprendizagem, há processos moleculares que controlam a comunicação entre células. Quando os animais aprendem algo, essa comunicação entre as células muda. De tal modo que, mais tarde, um indivíduo pode reconstruir a informação aprendida.
Na aprendizagem há, então, uma mudança real no cérebro?
Há mudanças físicas acontecendo nas sinapses, as estruturas que regulam a comunicação entre células. Mudanças físicas onde as células se tocam. Isso ocorre, por exemplo, enquanto falamos. No laboratório, estudamos essas mudanças nas sinapses. Temos provas do seu envolvimento na aprendizagem e na memória.
E isso é completamente novo?
Em ciência, uma descoberta é feita muitas vezes, sob diferentes perspectivas. A primeira pessoa a sugerir esta ideia foi um espanhol, no começo do século XX. Mas uma coisa é propor uma ideia, outra é acumular provas. Nos últimos dez anos, reunimos um conjunto de provas de que, durante a aprendizagem, há mudanças nas funções sinápticas que mais tarde podem ser usadas para parcialmente se reconstruir o que foi armazenado. Tal como o laser muda um CD.
Explique melhor.
O nosso laboratório quer saber que mudanças moleculares e celulares ocorrem na aprendizagem. Com manipulações genéticas em ratinhos podemos mudar a fisiologia do cérebro, a fisiologia celular e, depois, observar o comportamento. Antes, isso não era possível.
Crianças com problemas de aprendizagem e idosos podem beneficiar do vosso trabalho?
Não estamos só interessados em saber como a memória é armazenada. Num modelo animal com mutação de gene idêntica à que provoca a neurofibromatose tipo I nos humanos, afectando a aprendizagem e a memória, descobrimos que a comunicação celular estava inibida. Ora, no cérebro, temos comunicação que excita as células e outra que as inibe. É como as luzes vermelha e verde no trânsito. Com demasiada inibição, não há aprendizagem. Poderemos inverter tal défice, manipulando o que diminui a inibição.
Que tipo de manipulação?
Genética e farmacológica. Mostrámos já que podemos inverter esse défice de aprendizagem. Desenvolvemos agora fármacos toleráveis a longo prazo, como tem de ser o tratamento. E estamos cada vez mais próximos .
E a aplicação a pessoas idosas com problemas de memória?
Com a idade, as células cerebrais excitam-se menos, têm maior dificuldade em "disparar". Como não são activadas, muita informação perde-se. A informação atinge o cérebro, mas as células não respondem. No laboratório, procedemos a uma mutação em ratinhos jovens, a qual aumenta a excitabilidade das células, a níveis idênticos aos de jovens humanos.
Estamos programados para a perda progressiva de memória?
Penso que sim. À medida que envelhecemos, acumulamos informação que nos ajudou a sobreviver e deve ser protegida. Uma maneira de a proteger é tornar as células menos excitáveis. Tudo o que seja acrescentado a essa "biblioteca" tem que ser mesmo importante. O cérebro protege a sua sabedoria.
Como se forma essa "biblioteca", a da memória acumulada?
Há uma série de filtros que o cérebro usa antes de armazenar dados no hipocampo e em pontos diferentes do neocortex. Esse processo é gradual. No meu laboratório admitimos que a informação recente é armazenada no hipocampo onde, em segundos, são produzidas alterações sinápticas. Du- rante o sono, o hipocampo "rebobina" alguma informação, ensinando ao cortex a que considera importante e que se vai misturar à que já lá existe. O hipocampo armazena muita informação detalhada, porque o cérebro não sabe quanto dela irá precisar. Verificámos que, se se bloquear o hipocampo, o indivíduo não vai recordar uma conversa recente, mas pode lembrar informações de há 20 anos. Se se bloquear áreas específicas no neocortex, dá-se o contrário: as memórias recentes ficam inalteradas, mas as remotas desaparecem.