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O encantamento pela escrita

Costuma fazer comentários a algumas peças. Há quem não considere isso correcto num noticiário...

Procuro não fazer o comentário óbvio. Só o faço se uma peça me suscita atenção de uma forma especial.

Há quem considere o comentário uma forma de manifestação natural do jornalista, que também é um ser humano, em determinadas situações. A Manuela Moura Guedes defende esta ideia.

A Manuela escolheu um estilo quase editorial, um estilo que lhe advém da sua própria personalidade e também do facto de pertencer à estrutura hierárquica da TVI. Criou esse caminho e acho que está completamente no seu direito. Terá, certamente, o seu público. Acho legítimo que o pivô escolha o seu caminho. O público pode aderir ou não. Nos chamados jornais de referência isso também acontece. A televisão é sempre um alvo mais fácil de atacar.

Dizia-me há pouco que já não fica nervoso antes de apresentar o "Jornal da Noite".

A experiência é muito importante nesta profissão. Mesmo nos jornais em que às oito horas se faz o alinhamento previsto, há sempre também a defesa própria do pivô. Costumo sempre pensar, é o meu mecanismo mental, que é hoje que vai cair o projector. Se isso acontecer, o que é que eu vou dizer? Esta metáfora explica o nível de atenção que se exige a um pivô.

Não se dedica apenas ao jornalismo. Neste momento, está a ser rodado um filme que tem um argumento seu. Escreveu também uma série que será exibida na RTP. A escrita de ficção é um escape ao contacto diário com notícias, relatos da realidade?

São coisas completamente diferentes. Há muitos jornalistas que entram na área da ficção por não resistirem a escrever sobre o seu campo de trabalho. Comigo não se deu nada disso. Nunca escrevi sobre jornalistas. A minha paixão pela ficção começou muito antes de ser jornalista. Escrevi um romance com 20 anos, que acabou por ser publicado mais tarde. Portanto, o jornalismo aconteceu a par dessa paixão. Tenho a certeza absoluta que, se por questões académicas, tivesse ido para medicina ou engenharia, manteria intacta essa paixão pela ficção, que começou pelo romance e que, mais tarde, quando o meu irmão enveredou pelo cinema, seguiu esse caminho. Foi ele que me desafiou a escrever para cinema. Para muita gente pode parecer que só comecei agora a despertar para o mundo da escrita. O jornalismo aconteceu-me na vida, como me poderia ter acontecido ser médico ou engenheiro. Escreveria de qualquer dos modos. Escrever é uma coisa que me dá prazer. Também há quem goste muito de cozinhar. Eu gosto de escrever. Já publiquei um livro, consegui que uma peça de teatro minha fosse encenada, e os outros aí estarão para dizer se gostam ou não. Concorri em igualdade de circunstâncias com dois argumentos ao ICAM (Instituto que fornece os subsídios) e ganhei. Fui desafiado pelo Paulo Branco para escrever uma série.

Está já a ser rodada a longa metragem "Coisa Ruim". É um salto em frente na sua carreira nesta área?

Não, de todo. Já vi longas metragens de pouco valor e já vi curtas metragens brilhantes. Eu nem sequer comecei pelas curtas. Apenas ajudei o meu irmão numa, na base de rever uns diálogos. Depois, escrevi com ele já uma longa metragem. Seguiram-se três argumentos que são longas metragens, sendo que dois deles já estão em andamento. Há um outro ainda em preparação. Como é que surgiu a hipótese da série para a RTP?

Foi simples. Das inúmeras conversas que tenho tido com o Paulo Branco.

Nasceu de uma aliança?

O Paulo Branco viu algumas coisas do meu irmão e foi ele que lhe apresentou dois projectos que tinha para cinema, e depois as conversas continuaram. Numa delas comentei que aquilo que eu gostaria de fazer era um filme sobre a figura mais apaixonante da nossa história - o D. João II. Era um daqueles projectos que iria ficar na gaveta, se ele não nos desafiasse.

Ccomo é que gere este dois estilos de escrita: jornalismo e ficção.

A parte de leão do meu tempo tem de ser para a SIC. Depois, o que tenho é uma boa capacidade de esquematizar quer em papel, quer mentalmente e vou maturando as ideias. E quando escrevo, faço-o muito rápido. É um trabalho muito árduo. Agora estou a escrever outro argumento. Estive dois meses à procura do anzol, como costumo dizer, que vai buscar o resto da meada e agora é só escrever.

Faria da escrita a sua profissão se tivesse dado para viver dela. Foi isso?

Pois, sabia disso. Uma coisa é ter paixão e outra é provar que se consegue fazer alguma coisa. Também tinha essa dúvida. Quanto mais via filmes bons, mas pequeno me sentia. Quando começo a perceber que estou a fazer alguma coisa, volta o encantamento da infância que estava adormecido.

Hoje já conseguiria viver só da escrita. Põe-se a hipótese?

Estou um pouco cansado do jornalismo, mas também não estou cansado a esse ponto. Nada disso. Mas, claro, o acto de escrever para ficção é muito libertador, abre um campo de possibilidades.

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