Jorge Sampaio chamou a Belém Marcelo Rebelo de Sousa para ouvir de viva voz as razões por que o ex-líder do PSD abandonou os comentários políticos na TVI. Nada transpirou da reunião que durou cerca de uma hora e depois da qual Marcelo saiu sem prestar declarações aos jornalistas.
O presidente da República quis, com esta audiência, dar um sinal ao Governo de que se mantém vigilante sobre a governação e o regular funcionamento das instituições. E isso mesmo fez questão de manifestar na audiência habitual com o primeiro-ministro. Nesse encontro, mais longo do que o habitual, Sampaio que já fora informado por Marcelo dos contornos das pressões a que foi sujeito, revelou o seu descontentamento pela forma como o Governo tem actuado.
À saída do encontro, Santana estava visivelmente preocupado e dirigiu-se aos jornalistas, em particular à TVI para afirmar: "Fazer disto um caso para o país é um insulto", protestou, alegando que "tem é de governar o país".
Começou por recusar comentar o silêncio do ex-líder do PSD e o facto de o Presidente da República ter recebido de manhã Marcelo, mas acabou por afirmar que Sampaio "não recebeu o presidente da estação de televisão", Paes do Amaral. Aliás, o JN sabe que o "patrão" da TVI está interessado em ser recebido pelo Presidente, mas o seu pedido ainda não chegou a Belém.
A seguir, quando confrontado com as críticas ao comportamento do Governo vindas do interior do PSD, Santana afirmou: "Todas as pessoas que se pronunciaram estiveram contra a minha indigitação como primeiro-ministro". "Há 20 anos que oiço críticas, quem acusa tem de provar", protestou, com irritação evidente.
O Presidente da República quis lembrar que está atento à actividade do Governo, como prometeu quando anunciou que não iria convoca eleições antecipadas. Ontem, o primeiro-ministro deu sinais dessa chamada de atenção de Belém. "Ou o caso é político e só tem uma consequência", começou por afirmar, hesitando depois face à reacção imediata da Imprensa, e sem concluir a frase, acrescentou: "ou não é e tem a ver com uma empresa".
"Se houvesse censura em Portugal as instituições não funcionariam. Basta ver todos os dias os telejornais para saber que não há", retorquiu, refutando a acusação de que o Governo terá exercido pressões para Marcelo abandonar a TVI.
Deputados contra Santana
As críticas à atitude do Governo no interior do PSD aumentaram. Já não só Pacheco Pereira (que ainda ontem sugeriu a demissão do ministro Rui Gomes da Silva e até do Governo "se se provar que houve pressões") e Marques Mendes que marcaram o tom dos protestos. A voz forte do antigo primeiro-ministro, Cavaco Silva, e das antigas ministras - actualmente deputadas do PSD - Leonor Beleza e Teresa Gouveia fez-se ouvir, ontem à tarde, nos corredores do Parlamento, designadamente contra as declarações controversas do ministro dos Assuntos Parlamentares acerca do comentário de Marcelo. As deputadas, "marcelistas", ponderam mesmo a tomada de uma posição pública em defesa do ex-líder do PSD e contra a direcção do partido. Durante a votação de um voto do BE em defesa da liberdade de expressão, estas deputadas, bem como Marques Mendes, ausentaram-se, tal como muitos outros deputados sociais-democratas, em sinal de incómodo com as palavras de Gomes da Silva (ler pág.4).
Curiosa é a posição do CDS. Enquanto o vice-presidente, Pires de Lima, criticou duramente a acção de Sampaio - de ter chamado Marcelo a Belém - já nada disse em defesa do Governo ou de Rui Gomes da Silva, ao contrário do líder parlamentar do PSD, Guilherme Silva, que defendeu o Executivo e considerou "natural" que Marcelo tenha sido recebido pelo presidente
Pires de Lima distanciou-se do caso, considerando a saída de Marcelo da TVI uma questão "entre empregador e empregado".