Há sete anos - desde a retrospectiva realizada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa - que Paula Rego não apresentava uma exposição tão ambiciosa como a que é inaugurada, amanhã, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto.
São 150 trabalhos produzidos, na sua esmagadora maioria, desde 1996, que têm a particularidade de comportar uma elevada percentagem de obras jamais apresentadas em público.
Na véspera do arranque da exposição que poderá suplantar os actuais recordes de afluência de público em Serralves, a artista recusa ver-se como uma figura unânime e confessa atribuir à crítica uma importância enorme.
[JORNAL DE NOTÍCIAS] Para preparar esta exposição teve que revisitar parte da sua produção mais recente. Que sentimento a domina quando volta a confrontar-se com a sua obra?
[Paula Rego] Se estivesse a falar de trabalhos da década de 50, era natural que houvesse distanciamento. Não é o caso. Como são trabalhos produzidos, na sua maioria, nos últimos seis anos, vejo-os como um último capítulo e não como uma revisão.
Mas qual é a relação que estabelece com os seus trabalhos? Quando os conclui, deixam de lhe pertencer ou continuam a estar, de algum modo, dentro de si?
Procuro limpar o ateliê e pensar no trabalho seguinte. O que ficou para trás, ficou. Mas quando os encontro, mais tarde, vejo-me ali representada. Sou eu. E é por isso que fico magoada sempre que vejo obras minhas maltratadas.
Não deve ser muito frequente…
Olhe que sim.
Ficou surpreendida com a quantidade de trabalhos inéditos que possui?
Sim, e muitos não vieram por outros motivos, tais como oposição ao empréstimo de obras por parte dos actuais donos. Sobretudo o que gosto é de os ver cá. Nunca se proporcionou a oportunidade de expor num museu com estas dimensões.
Quando a convidaram, o que pensou?
Fiquei com medo! Só me lembro de ter comentado "Ai, meu Deus"… Tinha receio de não ser capaz de encher o espaço todo, com tanta luz… Mas agora, ao entrar na sala, sinto que o desafio valeu a pena. É fantástico.
No catálogo da exposição, é sugerido que esta mostra acrescenta um ponto aos múltiplos contos (ler novas possibilidades narrativas) em que assenta a sua obra. Concorda?
Talvez seja mais um ponto e vírgula. O ponto é demasiado taxativo e implica, a seguir, o começo de uma frase.
É tremendamente meticulosa no acto da montagem. Deve-se isso ao facto de ter noção de que cada possibilidade de montagem implica uma leitura distinta da sua obra?
Concordo totalmente. Há histórias que se constroem em função de determinado alinhamento dos trabalhos. Tive uma experiência semelhante na Tate, em Liverpool, e reforcei-a agora.
A importância que atribui à crítica não é muito vulgar em Portugal, país onde um artista, quando atinge um patamar elevado de prestígio, tende a considerar-se imune a qualquer comentário acerca da sua obra.
Mas claro que a crítica é importante! Como não haveria de o ser a opinião que os outros têm a respeito da nossa obra? Eu leio tudo, sobretudo as más críticas, pois são essas que ficam. Como é impossível saber se o visitante comum aprecia ou não aquilo que vê, os jornais cumprem essa função, além de influenciarem as pessoas. E devemos estar gratos por, hoje, existir mais crítica de artes plásticas do que quando eu era jovem. Felizmente, o interesse pela arte tem aumentado.
Ainda se surpreende com comentários feitos à sua obra?
Sim. É sempre útil, quanto mais não seja como sugestões.
A forte aceitação da sua obra não estará ligada à capacidade de tocar vários públicos, cada qual com diferentes leituras?
Essa reacção universal só vem provar que as pessoas são parecidas. Afinal, todos temos medos, anseios… Os desejos e receios que revelo nos quadros não são únicos e têm a felicidade de serem partilhados pelos outros.
Concorda que uma das principais novidades da exposição é a exploração que faz entre o desenho e a pintura?
Para mim, a maior novidade da exposição é o facto de eu fazer os bonecos que pinto. Anteriormente, fazia tudo a partir da minha cabeça, agora pinto o que está à minha frente.
A infância é um território ao qual regressa com grande assiduidade. Onde reside o fascínio dessa época?
Nem é preciso regressar com muita força, pois ela está sempre em nós. Gosto muito de brincar. Não no sentido de entreter, mas de fingir que é verdade. O fingimento passa, mas a verdade fica. Tenho cinco netas e, quando as vejo a brincar, sinto que aquilo é a realidade. Até o quarto onde brincam fica com um cheiro especial de intensidade. Elas contagiam-me com o seu envolvimento.
Não sofre, então, quando produz?
Claro que sim. A brincadeira não retira dificuldade à tarefa. A ilusão da realidade é muito difícil. Temos que olhar com muita atenção.
É por isso que trabalha diariamente com tanta intensidade?
Sim, menos ao domingo. Ultimamente tenho abrandado o ritmo, até porque tenho substituído os modelos pelos bonecos.
Preocupa-a a forma como a sua obra irá ser vista no futuro?
Não tenho nenhum controlo sobre essa matéria, portanto, nem sequer penso nela. Já faço isto há 50 e tal anos. Ao olhar os meus trabalhos, vejo alguns que considero uma borrada e outros de que gosto. Sabe-se lá o que futuro vai dar...
Não se identifica com tudo o que produz?
Há coisas antigas que detesto. E novas também, às vezes. Fico imensamente envergonhada só de olhar para elas.
Sente-se uma artista unânime?
Não me sinto sequer consensual! Há muita gente que não gosta mesmo nada do que eu faço. Acham que só pinto mulheres gordas...
Gosto de brincar; não no sentido de entreter, mas de fingir que é verdade
"Desconheço o Portugal de hoje"
Ao fim destes anos todos, concorda que Portugal es-tá sobretudo presente no seu imaginário?
Talvez seja por ainda ler muita literatura portuguesa. Autores que já ninguém lê, como Guerra Junqueiro, sobretudo "Os simples", "A velhice do padre eterno"… Vejo as coisas do Bordalo Pinheiro com particular atenção também. Mas também procuro ler autores modernos.
Foi a forma que encontrou de conservar um pouco de Portugal em si?
Não. Leio-os, porque isso me faz lembrar a minha meninice. O meu pai, a minha avó… pessoas que, para mim, ainda existem. Dá-nos conforto e coragem pensar nas pessoas de que gostávamos muito. Quando penso em Portugal, recordo-me da Ericeira e das ruas do meu tempo. Como não sei bem como Portugal é agora, penso no antigamente. Não penso tanto nos políticos. Mas estou a par do que acontece. A questão do aborto, por exemplo. Os trabalhos que fiz foram a forma que encontrei para protestar contra a hipocrisia que há por cá. Enviar navios de guerra para parar um barco! É por causa dessa proibição incrível e ridícula que tudo continua a ser feito às escondidas.
Será esse episódio sintomático do estado do país?
Sempre foi assim. Apesar de todas as revoluções e da liberdade, as coisas continuam iguais. Deve ser por influência da Igreja e dos políticos reaccionários que não desistem de tentar mandar nas mulheres, de certeza.
Continua a ver-se portuguesa na forma de sentir, mas inglesa quanto ao modo de pensar?
É uma questão para a qual não consigo ter resposta. Penso da maneira como penso… (risos)