Os direitos dos homossexuais regressaram à agenda política dos EUA, depois da resignação do governador de Nova Jersey ao assumir a sua homossexualidade. Após aceso debate no Congresso, no início do mês, em torno de um projecto de lei Democrata destinado a proteger os gays dos "crimes de ódio" que a maioria Republicana, liderada pelo ultraconservador texano John DeLay, tentou travar sem êxito, a abordagem da questão do casamento gay pelos candidatos presidenciais no último debate televisivo inflamou activistas conservadores e homossexuais.
Se a posição de George W. Bush já era conhecida - pretende que o Congresso passe nova emenda à Constituição para explicitar o casamento como contrato exclusivo entre homens e mulheres -, a opinião de John Kerry, que também se opõe ao casamento gay, embora admitindo que cabe a cada Estado decidir, "desiludiu um bocadinho, principalmente quando falou a despropósito na filha lésbica de Cheney. Mas percebemos que não pode assustar o eleitorado mais conservador e, no fundo, sabemos que é a favor da união de facto. Só não pronunciou a palavra 'casamento'", sustenta Heath Riddles, director do Lóbi dos Direitos dos Gay e das Lésbicas do Texas, sediado em Austin.
Atarefado no escritório da vivenda que partilha com o companheiro Chuck Smith, de 48 anos, e um cão preto irrequieto, na parte Leste da cidade, o jovem de 33 anos, que descobriu "a diferença aos 14", levando à "reacção violenta" do pai, não acha, porém, que o casamento seja o mais importante. "A maior preocupação é a falta de leis que protejam os gays no local de trabalho e estabelecimentos de ensino", declara.
Ele, que abandonou a Universidade da Oklahoma natal a convite da Reitoria ao saber que era gay, conhece bem a descriminarão, assim como Chuck, nunca promovido enquanto contabilista numa empresa de electrónica de Dallas, embora tivesse mais experiência e qualificações. "No Texas, é legal despedir alguém só por causa da sua orientação sexual", afirma Chuck, que assistiu à vitimização do anterior companheiro, morto há três anos por um tumor cerebral.
Por isso, parte do orçamento anual da organização com mais de 2000 membros - cerca de 300 mil dólares de donativos - é canalizada para manter em permanência um jurista gay no Capitólio de Austin, "para pressionar os legisladores a mudar as coisas, e tentando explicar-lhes que não queremos tratamento especial - porque isso seria descriminar - mas tratamento igual. Afinal, partilhamos da maioria dos valores da sociedade, excepto no que respeita à discriminação sexual", diz.
Queixam-se de que o Texas, à excepção de Austin (o Condado de Travis é democrata) é pouco liberal, mas esperam que o facto de celebridades gay como Elton John, que tem residência em Houston, e George Michael, que mora em Dallas, ajudem a mudar mentalidades - "porque no Texas ainda se mata muitas pessoas por causa da sua opção sexual" - assim como a eleição de Kerry, que a organização, por ser apolítica, apoia apenas de forma oficiosa. "Já fizemos opções difíceis na nossa vida particular. Agora não podemos arriscar optar politicamente, porque todos os apoios são necessário", diz Chuck.