Preocupação é a tónica geral de programadores e agentes culturais relativamente à crise instalada no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. A tudo isto, o Ministério da Cultura responde que "os administradores Miguel Vaz e Adelaide Rocha continuam em funções até ao final do mês", não confirmando Guta Moura Guedes e Vítor Ruivo como sucessores daqueles dois elementos, exonerados. Nenhum responsável do CCB esteve, ontem, disponível para prestar quaisquer declarações.
As dúvidas adensam-se também no que respeita às consequências que as convulsões no CCB possam ter na programação para o próximo ano.
Orçamento por aprovar
"Estamos quase em Novembro e não acredito que até Janeiro se possa arranjar uma programação nova", admitiu, ao JN, Miguel Lobo Antunes. O ex-administrador para a área da programação cultural do CCB (exerceu o cargo entre 1996 e 2001), foi sucedido por Francisco Motta Veiga, entre 2001 e 2004. Mais fugaz foi a passagem do seu sucessor, Miguel Vaz - oito meses em funções.
Um dos sinais de que a programação irá necessariamente sofrer com a actual situação de crise foi dado por António Pinho Vargas que, desde Junho, era assessor para a área da música e que, entretanto, também se demitiu, solidário com Miguel Vaz.
Desde o início, Pinho Vargas manteve uma postura crítica face à situação. Em declarações públicas, garantiu que a programação musical está feita "no essencial". Não se sabe é com que verbas poderá contar, dado o orçamento do CCB ainda não estar aprovado.
Ainda segundo Pinho Vargas, a crise interna levou ao cancelamento da que seria uma das grandes novidades da programação de 2005, os Concertos em Órbita. "A questão ética fala sempre mais alto. E penso que o meu filho, João Miguel, que estava a tratar do assunto e que tinha apresentado um projecto ao CCB, fez muito bem em retirá-lo", disse, ao JN, Jorge Gil, criador dos Concertos em Órbita, iniciativa que, há mais de 30 anos, tem uma legião de espectadores fiéis.
Outra das iniciativas de marca do CCB, a Festa de Música, uma co-produção com o CREA de Nantes, poderá também vir a sofrer com a exoneração dos dois administradores do CCB .
"Moura Guedes sem perfil"
A Festa da Música, que, em 2005, conhecerá a 6.ª edição, é uma ideia do francês René Martin que organiza, há anos, a Folle Journée. A versão portuguesa, que consiste numa série de concertos de música erudita a preços acessíveis e com grandes intérpretes mundiais - um incontestável êxito de público -, foi trazida para o CCB ainda no tempo de Lobo Antunes.
O JN sabe que Miguel Vaz tinha agendada para ontem uma reunião preparatória com René Martin. Mas, face ao sucedido, o programador francês cancelou a viagem. A Festa da Música é uma versão adaptada da Folle Journée, que decorrerá, em Janeiro, em Nantes, sob o signo de Beethoven. A Portugal, chegará em Abril. Resta saber se, até lá, há tempo suficiente para o CCB honrar compromissos que têm de ser assumidos com bastante antecedência e que implicam questões de agenda dos vários artistas envolvidos, contratos e alojamento.
Entretanto, Rui Vieira Nery, primeiro responsável, em 1991/92, pelo projecto do então designado Centro de Espectáculos, afirmou, ao JN, "estar solidário com Miguel Vaz, que tinha sido uma excelente aquisição para o CCB e cujo trabalho estava a surtir efeito. É uma grande perda".
Sobre a eventual nomeação de Guta Moura Guedes para administradora cultural, o ex-secretário de Estado da Cultura salienta que, "apesar dos méritos que ela tem na sua área de intervenção, não tem o perfil adequado para a função".
"E se pensarmos que no CCB já esteve alguém como Miguel Lobo Antunes, nota-se que a estatura do nome apontado é menor", acrescenta.
Crise ameaça Festa da Música e projecto de Concertos em Órbita foi retirado Ministério não confirma Guta Moura Guedes e Vítor Ruivo
Programação do CCB em risco
fundação nasceu por causa da ue
A construção do Centro Cultural de Belém foi decidida em 1988. A ideia era criar uma estrutura que acolhesse, em 1992, a presidência lusa da UE, permanecendo como pólo de actividades culturais. O projecto é do consórcio dos arquitectos Vitorio Gregotti (italiano) e Manuel Salgado. Dos cinco módulos previstos - centros de reuniões, de espectáculos e de exposições, zona hoteleira e equipamento complementar -, só foram levantados os centros. O modelo organizacional do CCB foi revisto no decreto-lei 391/99, de 30 de Setembro, que estabeleceu a criação da Fundação Centro Cultural de Belém, "por forma a permitir maior flexibilidade de gestão, uma mais clara assunção das responsabilidades por parte do Estado, a captação de apoios mecenáticos e a geração de receitas próprias". Os estatutos dizem ainda que importa "reforçar a definição do CCB como espaço privilegiado de articulação entre grandes instituições estatais de produção artística e entre estas e os promotores culturais privados".
Cronologia
27/10/2004
Ventilado nome de Guta Moura Guedes, promotora da ExperimentaDesign, para administradora cultural, em substituição de Miguel Vaz
26/10/2004 Anúncio de que António Pinho Vargas, assessor para a música do CCB, abandona o cargo, devido à demissão dos administradores Miguel Vaz e Adelaide Rocha, da área financeira
23/10/2004 Demissão de Miguel Vaz e de Adelaide Rocha, por divergências com o presidente do conselho de administração, Fraústo da Silva21/10/2004 Fraústo da Silva admite diferendo, devido à eventual criação de uma biblioteca para as artes performativas
15/10/2004 Miguel Vaz e Adelaide Rocha chumbam proposta de criação da biblioteca