Valdemar Pinheiro
Amulher detida anteontem no Brasil por alegado envolvimento num caso de tráfico de menores é, afinal, avó da criança, que se encontra em Portugal e bem de saúde. Antes de fugir para o Brasil, há pouco mais de dois anos, juntamente com o neto, Maria Cecília Menezes, 53 anos, apelou ao Presidente da República, Jorge Sampaio, narrando-lhe a "injustiça" de que estava a ser alvo . Tinha sido condenada a sete anos de prisão por falsificação e burla agravada aos CTT.
Na missiva, de nove folhas, enviada à Presidência da República, Maria Cecilia pedia a Jorge Sampaio "que não ignore uma situação de injustiça, em que uma inocente foi condenada". Cecília acrescenta: "Não queira, senhor Presidente,sentir-se responsável pela tragédia que, infelizmente, vai ter oportunidade de ver se não acudir nesta aflição".
Juntamente com a carta, a mulher enviou fotos de família. "Estas são as caras da família que a nossa Justiça está a destruir, cometendo um erro muito grave. Estas são também as caras que V. Exª vai ver nos jornais e nos canais de televisão quando for emitido um mandado", escreveu.
Nas fotos surgem, além de Maria Cecília, os dois filhos - Tiago, deficiente e então o único detido no âmbito do processo, e Roberto, de 16 anos - e do neto, de 3 anos, cuja custódia lhe estava confiada provisoriamente.
O primeiro nome da criança é Emanuel, precisamente o mesmo nome que Maria Cecília usou para a registar no Brasil, embora com os apelidos Gonçalves Brandão de Menezes, que a mulher adquiriu depois de ter casado com um cidadão daquele país. A criança sofria, na altura em que foi levada, de problemas graves de saúde e estava em tratamento no Hospital de D. Estefânia, em Lisboa.
Nove meses depois de escrever a Jorge Sampaio e com a liberdade por um fio, Maria Cecília Gonçalves, psicóloga, também a trabalhar nas áreas da naturopatia e hemeopatia, vendeu a casa que possuia no Alto de S. João, em Lisboa, e fugiu para o Brasil. "Se vou parar a uma prisão o que é que vai ser dos meus filhos e do meu neto? questionava Maria Cecília, numa entrevista, em Janeiro de 2002. "Prefiro morrer a uma cadeia, ainda para mais inocente", concluiu.
Cumpriu o que prometera e chegou ao Brasil a 1 de Setembro de 2002. Agora, aguarda que se conclua o processo de extradição para Portugal, onde deverá cumprir a pena a que foi condenada.