Carla Sofia Luz
Adroga voltou à Viela do Anjo, no Bairro da Sé (Porto). Tábuas, tijolos e portadas fechadas não travam os intrusos que destroem os edifícios, renovados em 1999, e semeiam insegurança entre os vizinhos da praça. A viela é a imagem do abandono. De nada valeu o investimento de cerca de 1,87 milhões de euros na reabilitação do espaço. Sem ocupação, o consumo de estupefacientes e o vandalismo tomaram conta da viela.
Só a Associação Portugal-Moçambique (que ocupa um dos estabelecimentos) traz animação ao deserto. Há um outro espaço ocupado pelo Centro Social e Cultural da Sé. Na janela, lê-se apoio pedagógico e ATL, mas está de portas encerradas. Tudo o resto é um cenário de desolação. "As lojas estão fechadas. É uma miséria. Partiram as portas e tiraram de lá de dentro tudo o que lhes apeteceu. Há um prédio recuperado, com as traseiras para a viela, onde os toxicodependentes se metem. Durante o Euro, os polícias não saiam da Sé. Agora, acabou-se o Euro, acabou-se a segurança", lamenta uma moradora. Por receio, prefere o anonimato.
Posto da PSP não voltou
O restaurante, que estava totalmente equipado e possuía grandes janelas para a praça, foi entaipado com tábuas de madeira. A falta de uso e a negligência facilitaram o vandalizado e o assalto.
Outros dois edifícios renovados mantêm as portadas trancadas e continuam sem uso. O projecto de instalação do Museu do Brinquedo num dos prédios da praça nunca se concretizou. Na parte superior da viela, os intrusos conseguiram furar as resistências de madeira, que tapava a entrada, e criaram um abrigo clandestino imundo onde se trafica e consume droga. "Nós vemo-los passar de dia e de noite. Não querem saber das pessoas do bairro", acrescenta um comerciante, nascido e criado há 60 anos na Bainharia.
Mantém uma loja nesta rua mais por amor ao bairro do que por oportunidade de negócio.
"Quando começaram a fazer as obras na Viela do Anjo, tínhamos esperança. Mas a Sé está muito abandonada. Há dias em que não vendo nada. Ontem, fiz cinco euros todo o dia", garante o comerciante, que olha e vê um bairro repleto de casas degradadas e de prédios entaipados, ruas sujas também por falta de civismo de alguns moradores e com uma grande preocupação: a insegurança.
Depois do Projecto Piloto Urbano da Sé e mais recentemente dos cinco meses de plano de emergência (ler Cronologia), regressam o abandono e a degradação. O bairro precisa de mais segurança, assegura a Junta de Freguesia da Sé.
"Havia um posto móvel da PSP na Rua dos Pelames que foi retirado antes do Euro. Nós entendemos essa situação, porque eram precisos muitos agentes para manter a segurança durante o campeonato. Mas, depois do Euro, não foi reposto, o que causou algum avanço do tráfico de droga na própria Rua dos Pelames e na Viela do Anjo", indica Barreto Ramos, presidente da Junta da Sé, que já alertou a PSP do Porto, a Câmara e a Assembleia Municipal.
O autarca ainda se lembra da inauguração da praça nova com festa espanhola. "Ficou lindíssima", conta. No entanto, nunca houve investidores interessados e a Câmara também não deu outro destino aos espaços comerciais que permitisse trazer pessoas ao bairro e animar a praça, tornando mais difícil o vandalismo e o retorno da droga.
"Gastaram-se centenas de milhares de contos. Quando entaiparam o restaurante com madeira, era uma verdadeira sala de chuto", sublinha o autarca. Depois de 1,87 milhões de euros investidos, uma eventual reabertura dos espaços comerciais obrigará a arranjar os estragos, o que será um custo adicional para o município.