Carla Sofia Luz
Cancelas encerradas à entrada do tabuleiro, tábuas da linha férrea pintadas de verdete, margens cobertas de ervas, de silvas e de lixo. É esta a imagem de desolação da Ponte Maria Pia ao completar hoje o 127º aniversário. Continua à espera de ser, de novo, útil às cidades do Porto e de Gaia desde que os comboios começaram a passar-lhe ao lado em Junho de 1991.
A velhice condenou-a. As composições trocaram de travessia e passaram a atravessar o rio Douro pela Ponte de S. João, com desenho do engenheiro Edgar Cardoso. A ponte, projectada pela Casa Eiffel e reconhecida, em todo mundo, como uma construção única de engenharia, manteve-se como peça decorativa e património da cidade, merecendo, em 1982, a classificação como monumento nacional. No entanto, a distinção não lhe trouxe vitalidade nem permitiu, até ao momento, a concretização das diferentes ideias de aproveitamento da centenária travessia. Continua a ser vista de longe pelos portuenses e pelos turistas.
Acordo data de Março
O mais recente projecto foi impulsionado pelo Governo Civil do Porto. Após três meses de debate, celebrou-se, no passado dia 5 de Março deste ano, um protocolo para reconverter a Ponte Maria Pia numa pista ciclo-pedonal, subscrito pelo ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação, Carmona Rodrigues, pela REFER e pelas câmaras municipais do Porto e de Gaia. Então, previa-se que a obra de recuperação e de readaptação da travessia, calculada em dois milhões de euros, começasse este ano.
No entanto, a pouco menos de dois meses do final de 2004, os trabalhos ainda não arrancaram, o que torna quase impossível cumprir a meta do Verão de 2005 para a entrada em funcionamento da nova pista.
"Gostaria que a via ciclo-pedonal fosse aberta no Verão de 2005. Mantenho o desejo que isso aconteça, mas já não depende de mim. Como governador civil, tentei impulsionar o debate para que se encontrasse uma solução para a ponte, antes que deixasse de ter recuperação. Penso que o projecto estará a seguir a tramitação normal. A REFER ficou de apresentar uma candidatura aos fundos comunitários", explica Manuel Moreira, governador civil do Porto. Além da candidatura à União Europeia, a REFER tinha, ainda, a seu cargo a tarefa de desafectação do domínio público dos terrenos nas duas margens do Douro, junto à ponte, para que as câmaras do Porto e de Gaia pudessem construir novas vias de acesso. As propriedades ainda não estão nas mãos das autarquias.
"De essencial, nada aconteceu. Penso que a desafectação dos terrenos ainda não ocorreu. O projecto é liderado pela REFER, mas não tenho indicação para avançar com o arranjo da margem do rio. Nós demos o nosso contributo e estamos empenhados neste projecto, que é de inegável interesse intermunicipal", sublinha Jorge Queirós, vice-presidente da Câmara Municipal de Gaia. O JN tentou ouvir a REFER, contudo não foi possível obter esclarecimentos em tempo útil.
Amigos com esperança
Apesar das diferentes propostas de utilização da antiga travessia, avançadas ao longo de 13 anos sem comboios, a Liga dos Amigos da Ponte Maria não perdeu a esperança.
"A ponte estava desprezada e, mercê da nossa acção, foi iluminada e integrada no circuito panorâmico do Porto.Tem havido diligências para que a ponte seja utilizada. Quem se tem interessado muito pela recuperação da ponte, é o governador civil. Ainda não ocorreu, mas acredito que há uma congregação de esforços. Não vamos desistir deste projecto nem deixaremos de insistir junto daqueles que têm poder", garante José Manuel Pavão, presidente da Liga dos Amigos da Ponte Maria Pia, que se tem dedicado, também, à assistência de crianças vítimas da guerra.
Ainda sem um novo fôlego, contam-se 127 anos da data de inauguração da Ponte Maria Pia em 1877. A festa de abertura da travessia foi presidida pelo rei D. Luís I e pela rainha Maria Pia. Os trabalhos de construção iniciaram-se a 5 de Janeiro de 1876 e ficaram concluídos no final de Outubro de 1977. Na Internet, encontram-se dezenas de referências e imagens da travessia (o despacho real que autoriza a construção pode ser lido em www.civilium.net/infocil/dmaria.shtml).