Um sentimento de desilusão e de desconsolo percorreu a grande parte do mundo dos media, quando, sem qualquer contestação que se esperava a partir de Ohio, se deu por adquirida a vitória de G. W. Bush para exercer o seu segundo mandato presidencial.
Os grandes jornais americanos e europeus, incluindo o circunspecto "Le Monde", que quebrou a tradição editorial de não tomar partido nas eleições nos países estrangeiros, manifestando o seu apoio ao senador Kerry, viram as expectativas frustradas, porque "o líder mais poderoso do Mundo" continua a ser o mesmo que eles desejariam removido da Casa Branca. Devido ao défice de qualidades intelectuais e culturais atribuído ao presidente reeleito, misturado com um excesso de voluntarismo e imponderabilidade nas grandes decisões que influenciam não apenas os EUA mas, directa ou indirectamente, as grandes potências da Europa e da Ásia, a maioria dos analistas, comentaristas e editorialistas viam no senador de Massachussets uma oportunidade para reconciliar a agenda da política norte-americana com os princípios que as democracias europeias, sobretudo as do Continente, têm como fundamentais na conjuntura contemporânea.
O unilaterismo, a teoria da guerra, a secundarização, quando não o esquecimento do recurso à ONU e ao seu principal órgão, o Conselho de Segurança, para declaração da guerra, a incompatibilidade entre os motivos justificativos das acções bélicas e o verdadeiro fundamento destas decisões, a violação das regras do Direito Internacional vigente quanto aos prisioneiros de guerra, a mais escandalosa violação dos Direitos do Homem quanto aos presos suspeitos de pertencerem à rede de al-Qaeda, ou os tratamentos infligidos nas prisões iraquianas, que não podem ser aceites pelos governos e opiniões públicas dentro e fora da potência mais forte do Globo, poderiam ser modificados com a alternância presidencial. A divisão do eleitorado americano em duas partes sensivelmente iguais demonstra que o primeiro mandato, o mais controverso das últimas duas décadas, ainda merece o favor da maioria dos americanos.
Bush teve mais votos do que na primeira eleição, o que lhe confere uma legitimidade popular indiscutível e ganharam as teses que defendeu desde os acontecimentos de 11 de Setembro. Não se deve também menosprezar que o antiamericanismo militante e radical das extremas-esquerdas, dos saudosistas da União Soviética, dos bem pensantes pós-modernistas políticos, dos neocomunistas e das esquerdas tradicionais, prejudicou grandemente um diálogo franco e aberto com a Administração Bush, por parte das grandes potências europeias, como a França e a Alemanha, e dividiram a União Europeia.
Uma coisa é certa: a grande controvérsia sobre a mentira das armas de destruição maciça de Saddam parece ter ficado definitivamente enterrada, depois desta reeleição de G. W. Bush com mais votos do que na eleição anterior. Depois da vitória do primeiro-ministro australiano, Tony Blair tem razões para estar animado quanto à sua possível reeleição. Pelo menos, ficou bem patente que nada tem de "científico" o slogan que tanto entusiasmou os nossos antiamericanistas caseiros de pacotilha: eles mentem, eles perdem.
Narana Coissoró escreve no JN, semanalmente, aos sábados