Director
José Leite Pereira

Director Adjunto
Alfredo Leite

Subdirector
Paulo Ferreira
 

O tenor

Nos tempos em que o burgo era um alfobre de indústrias e uma cidade em que parte da população estava ligada ao trabalho fabril, Lordelo do Ouro - como Campanhã e zonas de Massarelos, Cedofeita e Paranhos - constituía uma das freguesias mais marcadamente operárias. Com a desindustrialização, essa característica (e milhares de postos de trabalho) desapareceu. Ficaram, no entanto, marcas, concentrações habitacionais (como o Bairro Operário da Arrábida) e, muito especialmente, memórias. Quero dizer, memórias dos sobreviventes, espécie de guardiões da lembrança da cidade que foi e do espírito dos lugares que já não são.

A um desses guardiões chamavam-lhe Zé Ferrugem, Fernandes e, ainda, Azenha. Leitor do JN, escreveu um livrinho que intitulou «O proletário que fui, o mundo do trabalho que vi e vivi». Como não possui tecnologia pós-modema, escreveu à mão. Como não tem herdeiros, fez de mim fiel depositário das suas evocações. Como não tem quem o ouça, procurou-me para contar histórias duras, ou deliciosas, amáveis ou dramáticas da sua experiência de operário nas oficinas lordelenses.

Uma delas tem a ver com o personagem fascinante a quem chamavam «O Tenor Metalúrgico» e conta-se assim: o artista cantava à proa dos barcos durante o trabalho, para os presentes e para os que paravam diante do estaleiro do Ouro. Era em 1945 e aquela gente - humilde, para não dizer pobre - gostava de o ouvir, porque ninguém tinha rádio. O «tenor» improvisado ajudava-a, sem querer, no dia-a-dia das amarguras. Era espécie de conforto ou compensação. E, para isso, faziam silêncio quase absoluto, só interrompido pela passagem dos eléctricos e, mesmo assim, os guarda-freios abrandavam e pediam aos passageiros que acompanhassem o lá-rá-lá-lá-lá do «tenor que cantava para o povo».

O homem possuía uma estrutura física semelhante à dos tenores famosos da época. Aprendeu a imitá-los, porque tinha grafonola e discos, além da voz potente. Diziam os oficiais da Manutenção Militar que era uma pena não ter ido para a escola de canto, só que a vida dele era o mar e a metalurgia - duas paixões em que era competente. Animador nato, imitava na perfeição as vozes de Enrico Caruso (no «Otelo»), Tomás Alcaide (na «Aida»), Mário Lanza (na «Granada»), Mário del Mónaco (no «Nabuco»), Alfredo Kraus (nos «Palhaços»), Benjamino Gigli (na «Avé Maria», de Gounod), Lauritz Melchior (no «Sê Feliz»). E outros.

Os ouvintes não sabiam quem eram tais artistas, mas gostavam. «Alguns até ficavam de pele arrepiada pela emoção» . Como a música pimba não tinha sido inventada e o nacional-cosmopolitismo só se manifestava na linha Lisboa-Cascais, esses tenores e respectivas interpretações ouviam-se com frequência, através de discos, nas colectividades recreativas. De todos, o mais popular, por causa dos filmes que protagonizava, era Mário Lanza cantando a «Granada». Então, o tenor metalúrgico pedia: «Ó pessoal, atenção!», e começava: «Granada, tierra sonãda por mim» e «Tierra ensangrentada en tarde de toros» e vinha, digamos assim, a casa abaixo. Depois, continuava o recital: «Ri-te palhaço, la-ra-lá-lá-lá-lá», ou «Ó mama mia te quiero tanto / Ó mama mia te amo tanto», em italiano, francês ou espanhol à moda do Ouro.

Mas, por vezes, o tenor descaía para o apimentado. «Tarantela, tarantela, quando acabar o trabalho eu vou p'rá bouça com ela», e apontava para uma rapariga na assistência. Mas levava resposta também cantada: «Tenho aqui mas não é para ti». Enfim, com todos os problemas e dificuldades da época, o trabalho era uma festa, pelo menos nos estaleiros do Ouro, onde, animadas pelo tenor, as pessoas faziam comentários e imitações, em espécie de teatro ao vivo. Nos tascos em frente, um assistente já com três copos de tinto do pipo no bucho dizia: «Vou cantar a «Granada!». «Granada, trá-la-rá-lá-la-rá» e o pessoal vinha a correr para a rua ouvi-lo. Só visto.

Agora, olhando por aí, desta humanidade nada resta. Indústrias e operários eclipsaram-se. Um dia, os restos dos estaleiros do Ouro serão, eles próprios, património da memória. Tudo nos parece como se se tivesse passado há uma eternidade, perdido no esquecimento. Mas não e, a tal respeito, apetece-me citar um extracto do Corão (II, 261): «E Deus fê-lo morrer durante cem anos, depois reanimou-o e disse-lhe: Quanto tempo passou desde que isto aconteceu? - Um dia, ou uma parte do dia, respondeu.»

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