Apresença de um pesticida potencialmente cancerígeno no SG Ventil e no SG Filtro ensombrou, ontem, a comemoração do Dia Nacional do não Fumador. A substância, proibida na Europa há três anos e nos Estados Unidos há 21, foi detectada numa investigação conduzida por Maria Teresa Vasconcelos, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, segundo a qual a dialdrina foi encontrada nas folhas do tabaco e nas partículas resultantes da queima dos cigarros daquelas duas marcas nacionais.
De acordo com Pedro Amaro, professor catedrático especialista em pesticidas, a dialdrina foi proibida em Portugal, em meados da década de 70, na mesma altura em que também se decidiu pela proibição do DDT. "Concluiu-se que era muito persistente nos solos, degradava-se lentamente e acumulava-se nas gorduras do solo", explicou, lembrando que, segundo a classificação internacional, a substância "tem evidência de alguma cancerização duvidosa".
"É preciso perceber como é que uma substância proibida aparece no tabaco português", alerta Pedro Amaro, lamentando que as proibições adoptadas nos países mais avançados não sejam postas em prática nos subdesenvolvidos. "Agora, temos de saber a origem da matéria-prima, bem como a quantidade de tabaco que está contaminada".
A questão da dose encontrada no SG Ventil e no SG Filtro é também determinante para perceber os potenciais efeitos nefastos da dialdrina na saúde dos fumadores. "Como todos os pesticidas, existe o risco decorrente da exposição diária e durante longos períodos", concluiu o investigador.
A Tabaqueira SA, que comercializa o SG Ventil e SG Filtro em Portugal, recusou, em declarações à Lusa, responsabilidades na eventual presença de dialdrina no tabaco. Nuno Jonet, director dos assuntos institucionais da Tabaqueira SA, que integra o grupo Philip Morris International, disse desconhecer o estudo em causa, mas adiantou que o pesticida "não é certamente um componente que seja da responsabilidade da Tabaqueira, porque não cultiva tabaco".
No entanto, na página da Internet da Tabaqueira SA a empresa sustenta: "Apesar da Philip Morris International não cultivar tabaco, estamos empenhados em garantir que o tabaco que compramos é cultivado em condições que protejam o ambiente e garantam colheitas sustentadas".
"Excesso legislativo"
As conclusões do estudo de Maria Teresa Vasconcelos ensombraram o Dia do Não-Fumador, aproveitado pela tutela para anunciar uma série de medidas restritivas ao consumo de tabaco em locais públicos. De fora do diploma, que deverá ser apresentado em Conselho de Ministros ainda esta semana, ficou um outro intuito legislativo - o de proibir a venda de tabaco a menores de 16 anos.
José Manuel Esteves, secretário-geral da Associação de Restauração e Similares de Portugal (ARESP), lamentou, em declarações ao JN, "o excesso legislativo do país", que não raras vezes deixa escapar excelentes oportunidades para sensibilizar os jovens. "Mostrámo-nos disponíveis para dinamizar uma grande campanha de sensibilização e informação. ", disse, lembrando o efeito perverso da proibição do consumo de bebidas alcoólicas a menores. "Foi uma oportunidade perdida", adiantou, garantindo que os empresários não estão disponíveis para se substituírem ao Estado na fiscalização. "Não aceitaremos ser os polícias do Estado português, tanto mais que estamos impedidos de pedir identificação".
O secretário-geral da ARESP considera, no entanto, que o novo fulgor anti-tabágico pode ser aproveitado para efeitos de marketing, através da oferta de locais "limpos de fumo", amplamente publicitados.
Fumadores têm baixa auto-estima
Os fumadores têm níveis de auto-estima mais baixos do que os não fumadores. As conclusões constam de um estudo, realizado pelo Departamento de Psicologia e Sociologia da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), e que inquiriu um universo de 731 pessoas, entre os 18 e os 80 anos. "Os não-fumadores apresentam níveis de auto-estima positiva, em comparação com os fumadores, que apresentam níveis de uma auto-estima baixa", explicou Odete Nunes, directora-adjunta do Departamento de Psicologia e Sociologia da UAL.
Segundo a investigação, os fumadores privilegiam mais os valores ligados ao hedonismo (valores estéticos associados ao prazer e à sensualidade), à criatividade (humor e imaginação) e à imagem social do fumador. Já as mulheres fumadoras valorizam mais os seus próprios valores do que as não-fumadoras. Nos homens acontece o contrário: os não-fumadores prestam mais atenção aos seus valores do que os homens fumadores. Entre homens e mulheres não se verificam diferenças entre os seus sistemas de valores, conclui, ainda, a investigação da UAL.