Quando no seio das Nações Unidas se trava uma guerra, em que os EUA lideram a facção (na qual Portugal se inclui) que pretende proibir a investigação com embriões clonados, mesmo para efeitos terapêuticos, o medo - incendiado por uma grande campanha de desinformação - "é a maior ameaça" que a ciência enfrenta. Ian Wilmut, o cientista escocês que abanou o Mundo há sete anos ao apresentar Dolly (o primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta), disse ao JN que a "vida humana é o valor mais elevado". E teme que preconceitos infundados travem a descoberta da cura para muitas doenças até agora fatais.
O pioneirismo acarreta sempre preços elevados. Os resistentes à mudança, normalmente em nome de valores éticos que não aceitam discutir, opuseram-se sempre que a ciência se dispôs a desbravar zonas tabu. "Foi assim com o primeiro transplante de coração e com todos os grandes avanços", sublinha Ian Wilmut. O que não esperava, confessa, é que sete anos depois, o fenómeno Dolly ainda perdurasse nos anais da controvérsia.
Complicações sem solução
Passada a euforia, rapidamente se percebeu que a complexidade da clonagem não se resume à produção de um embrião por transferência do núcleo de células adultas fetais. O processo encerra mais variantes do que se supunha no início. "Temos de saber mais sobre os mecanismos moleculares, que são determinantes durante o desenvolvimento normal dos embriões clonados, para perceber porque é que esses animais apresentam doenças e complicações que os outros não têm", explica o professor do Instituto Roslin, Edimburgo (Escócia).
Cada espécie apresenta especificidades e dificuldades diferentes. Por essa razão, já se clonaram porcos, gatos, vacas e gatos, por exemplo, e nunca se conseguiram resultados com cães. Continuam, também, por resolver gravíssimos problemas com os seres clonados. A própria Dolly é disso exemplo.
Perante este cenário, "é fundamental estudar embriões humanos para se perceber os mecanismos de mutação de certos genes que estão na base de várias doenças", sublinha Ian Wilmut. E assegura "Não é possível atingir esse objectivo estudando apenas embriões animais".
O trabalho realizado por uma equipa de Seul - que conseguiu criar, pela primeira vez, uma cultura de embriões clonados que se desenvolveram até à fase do blastocisto (cinco ou seis dias e cerca de 200 células) - é considerado, por Ian Wilmut, como "muito encorajador". Foi a prova de que é possível desenvolver embriões clonados até à fase em que já contêm células estaminais (que darão origem a todas as células, tecidos e órgãos de adulto). Um enorme avanço para o estudo de diversas patologias genéticas.
O investigador realça, contudo, que o estudo, tal como foi conduzido na Coreia, não seria possível no Reino Unido, já que foram usados ovócitos de mulheres que trabalham na instituição onde o projecto de investigação foi realizado. Por outro lado, para optimizar os resultados, a equipa usou ovócitos e células da mesma mulher para criar os embriões, isto é, o núcleo de uma célula de uma mulher (onde está o seu património genético) foi transferido para o interior de um seu ovócito, previamente esvaziado do núcleo. Uma variante da técnica desenvolvida por Wilmut, que fundiu núcleos provenientes de animais diferentes.
O projecto que o Instituto Roslin apresentou à apreciação da Autoridade de Embriologia e Fertilização Humana do Reino Unido visa estudar a doença do neurónio motor com recurso a embriões humanos, de onde serão extraídas células estaminais. Wilmut justifica a opção pelo facto de ser uma doença hereditária, genética e neurológica, ainda mal conhecida, e que, na maioria dos casos, depois de ser diagnosticada, conduz rapidamente à morte.