A sua pergunta era uma armadilha para o presidente da Câmara do Porto?
Não, não era. Fui a essa conferência e criei alguma expectativa. Depois de uma execelente introdução, correu particularmente mal, porque o dr. Rui Rio aproveirou a ocasião para fazer um exercício de pré-campanha eleitoral. Parece-me que, no discurso que desenvolveu, em que deu conta da sua visão do Porto, entrou numa contradição evidente. Porquê? Porque disse que o Porto não pode combater Lisboa da forma que o fazia - e eu estou de acordo - e que não pode considerar que o futebol é a coisa mais importante do Mundo, o que também me parece fazer sentido. Só que depois falou naqueles que são os grandes atributos do Porto e referiu que continua a ser a segunda cidade portuguesa por causa de uma coisa que é a marca Porto. E que é por causa disso que a cidade tem condições de atractividade. Parecia-me óbvio que lhe fizesse a pergunta, não em termos do Futebol Clube do Porto (FCP), mas em termos do futebol. Ou seja, até que ponto o futebol tem contribuído para essa imagem.
O que está a dizer é que procurou, apenas,explorar uma contradição?
Sim, sim… Contradição essa que penso que tem estado nos discursos do dr. Rui Rio. Parecia-me que era importante perceber o papel que ele reserva ao futebol. Se acha, ou não, que é um veículo de promoção da cidade, embora a cidade não tenha que estar agarrada à estratégia do futebol, algo que, de resto, me parece bem. Ele não respondeu a isso. E só não abandonei logo a sala porque tinha dirigido a mesma questão ao presidente da Associação Industrial do Minho [António Marques] e não me pareceu correcto.
Ficou indignado com aquelas palavras?
Em primeiro lugar, foi um desrespeito para com a assembleia, porque quando se faz uma pergunta é suposto as pessoas tentarem responder. Depois, achei que era um auto de fé, estava a queimar alguém na fogueira, aproveitando o momento oportuno para o fazer.
Não acredita que Rui Rio fez apenas considerações genéricas?
Penso que ele quis atingir o presidente do FCP e o major Valentim Loureiro. Claramente. Ao falar principalmente em Gil y Gil, atendendo a que era um presidente da Câmara que foi para um clube, fazendo a ligação entre futebol e política... Até me parece mais evidente que atingiu mais o major Valentim Loureiro do que o senhor Pinto da Costa, o que é surpreende nte.
Porquê?
Porque o dr. Rui Rio é o responsável por o major Valentim Loureiro - que tem as ligações que tem ao futebol - ser, ainda hoje, presidente da Junta Metropolitana do Porto (JMP) e, também, ainda que não esteja em exercício, presidente da Empresa do Metro do Porto. Pareceu-me que havia ali um comportamento eticamente reprovável.
Rui Rio tem dois pesos e duas medidas em relação a isso?
Provavelmente. Em termos éticos, eu não gosto de ser representado por gente dessa. Como aquilo se tinha transformado num comício, apesar de ele ter dito que ia fazer um discurso pedagógico, achei que não estava lá a fazer nada. Foi mais visível porque estava na primeira fila, porque cá trás já tinham saído algumas pessoas.
Acredita que Pinto da Costa vai, de facto, ser candidato à Câmara do Porto, ou que o que disse resultou de uma resposta emotiva às palavras de Rui Rio?
Não conheço suficientemente o senhor Jorge Nuno Pinto da Costa para lhe dizer isso. Não conversei com ele. Admito que neste caso ele tenha sentido. Quem não se sente não é filho de boa gente. Que se tratou de uma resposta emotiva. Aliás, não recomendaria ao presidente do FCP candidatar-se à presidência da Câmara do Porto.
Não é viável?
Não digo isso. Admito é que ele diga que, perante o combate que tem sido feito pelo dr. Rui Rio à instituição FCP, ele não vá ser neutral em relação às eleições. Acho normal que o faça. Mas não faço futurologia.
Sendo conotado politicamente com a área do centro-direita, e face às críticas que faz a Rui Rio, podemos depreender das suas palavras que o presidente da Câmara do Porto não está a ser coerente com esses valores?
Não sei se tenho sido visto como do centro-direita. O presidente da Câmara do Porto até pensa que eu sou do centro-esquerda.
Onde se situa, então?
Neste momento, não me revejo certamente nos partidos que estiveram no Poder [PSD e CDS/PP]. Ainda não tomei uma decisão em relação às legislativas. Aquilo que me parece fundamental na cidade, e relativamente a esta gente que tem passado pela Câmara, tem sido, mais do que as medidas que tem tomado, o estilo. Creio que, quer na questão dos arrumadores, na habitação social e na mania que ele [Rui Rio] cultiva da perseguição - o que faz com que depois persiga outras pessoas - tem tido um comportamento eticamente inaceitável. Faz a política de uma forma que eu acho que não deve ser feita. O que aconteceu com este Governo em relação à Comunicação Social penso que teve no dr. Rui Rio um dos instigadores. A guerra que ele tem feito aos jornalistas leva-o, muitas vezes, a confundir as coisas.
Como por exemplo?
Quando se diz que "as coisas no Porto estão mal", ele acha que as pessoas estão a dizer mal do Porto. Mas não estão. Quando se diz assim "o meu amigo está mal, está doente", isso não quer dizer que eu não goste do meu amigo. Como ele confunde as coisas, porque tem esse drama pessoal, não tem qualidades éticas para ser presidente da Câmara do Porto, numa cidade profundamente liberal como é o Porto - não no sentido económico, mas no sentido em que as pessoas sempre se sentaram à mesa a discutir, independentemente do que pensam. Eu acho que ele não gosta deste Porto, que tem um problema de carácter. E isso incomoda-me.
Pensa que as declarações de Pinto da Costa vão ter qualquer tipo de efeito na luta política pela Câmara do Porto? Que o PS, por exemplo, poderá tirar partido dessa situação?
Não sei se este episódio vai ter efeitos duráveis. Uma coisa parece-me óbvia.Sempre que o dr. Rui Rio pensa dar mostras de uma ligeira inflexão, participando em debates, por exemplo, atira uma pedrada.
Não partilha a ideia de algumas pessoas que dizem que, em matéria de relações entre política e futebol, Rui Rio diz aquilo que muitos pensam mas ninguém assume?
O dr. Rui Rio tem razão quando diz que a relação entre a política e o futebol, em muitos casos, tem sido excessiva. Mas acho que ele também devia dizer que a intervenção dos políticos na esfera da Comunicação Social também é má. E ele tem sido uma das pessoas que tem defendido o controlo à liberdade de opinião. Já existe aí uma contradição.
Mas voltando ao futebol...
Se ele tem razão em relação a essa matéria, depois olhamos para a prática e não se vêem resultados. Basta ver o caso do major Valentim Loureiro, que se transformou em presidente da JMP. O presidente da Câmara do Porto devia, pelo menos, tentar ser presidente dessa estrutura, até para tentar ter o protagonismo que o Porto tem dentro da Área Metropolitana. Aquilo que o dr. Rui Rio tem é um recalcamento forte contra o FCP, que é uma das grandes instituições da cidade além-fronteiras. O dr. Rui Rio tem tido é sorte, porque foi eleito presidente da Câmara numa altura de estagnação do país e não se ter percebido que o Porto está ainda mais deprimido do que outras cidades.
O senhor é líder de uma das mais prestigiadas instituições do Porto. Vai assumir as suas responsabilidades e avançar para a Câmara?
Aquilo que já disse era que não diria não a uma situação dessas. E aí recorria ao que o professor Cavaco Silva disse no "Expresso", que é algo com que eu concordo. Neste momento em que há tantos problemas na classe política - e o exemplo do dr. Rui Rio é peculiar, porque nos afecta a todos -, a sociedade civil tem que estar preparada para, se for chamada, intervir em projectos desta natureza. Não estou à espera que isso aconteça, mas se me convidassem era uma situação que consideraria como possível.
Falou num movimento da sociedade civil, mas coloca de fora completamente a hipótese de concorrer numa lista partidária? Do PS, por exemplo?
Não, não coloco, mas se tivesse oportunidade de escolher, de intervir na formação da vereação. Mas teria que medir essa liberdade. Porém, não é algo que coloque completamente de fora.
Tem feito algum tipo de contactos?
Não, não, a minha disponibilidade....
... é apenas na qualidade de espectador?
Exactamente. Se alguém quiser falar comigo não direi que não. Porei condições e pensarei. Mas não vou a bater às portas de ninguém, até porque, ao que sei, o PS tem vários candidatos. Mas sob o ponto de vista teórico não digo que não a uma candidatura à Câmara do Porto nas listas do PS.
E sob o ponto de vista prático?
Já há tantos candidatos do PS que não me parece que isso seja uma probabilidade.
Mas gostaria de enfrentar Rui Rio num acto eleitoral?
Não é ir a votos com ele que me atrai. Acho é que tenho algumas ideias para a cidade que contrastam com as do dr. Rui Rio e que a cidade não aguentará mais cinco anos do consulado do dr. Rui Rio.
Mas tem sido "normal" os presidentes da Câmara fazerem, pelo menos, dois mandatos...
Vai depender do candidato do PS e da sua credibilidade.
E que perfil deve ter um candidato que concorra contra Rui Rio para ganhar?
Tem de ser uma pessoa que compreenda bem o eleitorado da cidade e que goste do Porto. Não creio que o Porto possa abdicar da responsabilidade que tem nesta região, onde deve ser o dinamizador de energias. Alguém que se candidate à Câmara do Porto não deve ter as fronteiras limitadas do dr. Rui Rio. Não deve ser alguém para quem a cidade acaba na marginal e na Circunvalação. Tem de ser alguém que assuma que é preciso uma liderança que saiba apresentar alternativas ao Governo. Que saiba fazer a ligação com as universidades, com os pólos industriais fortes. Alguém que tenha um pensamento económico forte.
Já está com um discurso de candidato...
(risos) Talvez, é possível. É um bocado treino de ser presidente da Associação Comercial e estar sempre a confrontar o poder autárquico com este tipo de discurso que as pessoas não encontram num presidente de câmara.
Seria decisivo que, por exemplo, alguém como Pinto da Costa apoiasse a sua candidatura?
Não, não gostaria de ser candidato nesses moldes. Essa questão do culto messiânico é algo que tem marcado a política portuguesa. E não devia ser assim. Mas há cidadãos anónimos que já me interpelaram na rua e me disseram "o senhor é que devia ser o candidato". O que diria é que a cidade do Porto, e algumas das suas instituições relevantes, devem olhar para isto. No caso do PSD, isto deve estar mais do que resolvido. Esse, no fundo, é o remoque que faz Pintoda Costa quando diz que o dr. Rui Rio é o numero dois do PSD e que se as legislativas correrem mal e se Santana Lopes for embora para um síitio qualquer, ele passa a ser o número um do PSD.
Nuno Cardoso é um bom candidato para o PS?
Tenho muitas dúvidas de que o engenheiro Nuno Cardoso, apesar de ter um grande grau de reconhecimento popular, possa ganhar as eleições ao dr. Rui Rio. Teria ganho se calhar se tivesse concoriddo nas anteriores eleições como independente. A prática que ele tem tido neste momento pode abalá-lo numa batalha eleitoral.
E o senhor, tem condições para ganhar Rui Rio?
Isso não me compete a mim avaliar.