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O sonho e a política

por francisco josé viegasescritor

De vez em quando há umas boas almas que se lamentam sobre a falta que faz gente nova na política. A queixa, propriamente dita, é compreensível - basta olhar em volta para, à primeira vista, considerar que o panorama não é muito edificante. O artigo do prof. Cavaco, num "Expresso" de há semanas, independentemente dos efeitos que teve no cenário político e das suas intenções menos subtis, não andava longe disso, pedindo para substituir a má moeda pela boa moeda e os maus políticos pelos bons políticos. No domingo passado, em artigo no "Público", um grupo de professores da Faculdade de Economia do Porto ia no mesmo sentido, lamentando dificuldades inesperadas à entrada das máquinas partidárias. O texto levanta alguns problemas sérios e constitui uma denúncia clara do caciquismo mental e geracional que devora os aparelhos políticos, que, por sua vez, se devoram a si próprios.

No entanto, houve uma menção que me fez olhar para a biblioteca acerca dos "mais sonhadores", a quem as portas dos partidos, naturalmente, se fecham com mais estrondo. Por princípio devíamos estar todos de acordo acerca da mais-valia transportada por "jovens políticos mais sonhadores". É da nossa tradição intelectual (e moral) defender essa perspectiva; a nossa cultura moderna valoriza os sonhadores da mesma forma que lamenta os líderes "cinzentões". Tendencialmente, achamos que os "mais sonhadores" são capazes de coisas fantásticas e que têm, por princípio, mais do que os outros (os menos sonhadores) para oferecer ou transmitir à sociedade. Provavelmente é verdade. Mas convém falar do assunto.

A história política do Ocidente (aquela que conhecemos melhor e da qual recolhemos maior número de exemplos) está cheia de sonhadores que foram responsáveis por catástrofes lamentáveis. O sonho não é bom conselheiro para a política. Está muito bem para a literatura, mas a política é essencialmente devoradora e devorista. Para a minha geração, dizer isto constitui um sacrilégio. Mas a verdade é que não há um único ditador que não tenha sido, também, um sonhador irremediável a ideia de que um projecto de sociedade se deve impor à própria sociedade (porque é melhor para ela) está na base de todas as ditaduras e de muitas das monstruosidades que o século XX produziu em abundância. Dos sonhadores da revolução cubana (com Guevara à cabeça) aos sonhadores do Cambodja, há bastantes exemplos para dar, com muitos mortos pelo caminho e sonhos que passaram a pesadelo. Lenine sonhou, em Londres e na Suíça (na Rússia apenas tratou do pesadelo). Admito que Salazar tivesse um sonho. Mussolini passou por ser um visionário. Os sonhadores do "politicamente correcto" europeu e americano (uma sociedade "limpa" de impurezas e onde os conflitos se dirimem na linguagem até criar um mundo irrespirável e sem confrontos) não são muito diferentes.

Ora, a vida política precisa é de gente decente e com imaginação. Se alguém quer dedicar-se aos seus sonhos, admito que há várias portas abertas - mas não me parece que as da política ou das máquinas partidárias sejam as mais adequadas. A ideia de transportar os sonhadores para a política, que pode ser generosa, acaba por provocar depressões e abandonos prematuros da actividade. Para a política seria desejável ter gente dedicada e competente, capaz de tomar decisões que, pelo menos, não prejudiquem os cidadãos.

Nos últimos tempos, a política portuguesa tem vindo a ressentir-se de um excesso de projectos não realizados. Agora, que vêm aí eleições, eu achava preferível que os políticos respondessem a questões concretas sobre educação, justiça, Administração Pública, nomeações pós-eleitorais e outras minudências. No ponto a que chegámos, isso já não era mau.

Francisco José Viegas escreve no JN, semanalmente, às quintas-feiras

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