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"Resistentes" de costas voltadas para o Vaticano

Ruas desertas, lojas fechadas, locais turísticos com pouca gente o centro histórico de Roma parecia, ontem de manhã, um cenário de cinema montado para alguns grupos de turistas e para os poucos italianos resistentes e revoltados pelas exéquias que classificam de "fanáticas".

"A televisão foi sequestrada pelo Papa, não há nenhum pluralismo depois da morte de João Paulo II, isto é escandaloso!", afirmava, indignada, Michaela Caruso, em plena Piazza Navona, em frente do "Pasquin", uma das estátuas "falantes" de Roma, utilizadas no século XV para exprimir o descontentamento contra o poder e afixar panfletos. A estátua estava, ontem, coberta de inscrições coladas pelos "contestatários" "Um Papa morre e de seguida aparece outro!"

As lojas de roupa e os cafés do centro da cidade permaneciam fechados. Apenas alguns comerciantes resistiam a esta unidade, não por ideologia, mas pelo aspecto financeiro.

"As grandes cadeias não têm qualquer problema em fechar hoje. Eu sou um pequeno comerciante e gravei em video as exéquias para as ver mais tarde", justifica-se Francesco Rogano, gerente de uma loja de carteiras. A única que ontem estava aberta na sua rua.

Os raros italianos a andarem pela rua ou no "desemprego" forçado pelas exéquias mostram-se, por vezes, muito críticos perante o "culto da personalidade" visível, dizem, desde o dia seguinte à morte do Papa.

"Nós trabalhamos no Tribunal de Contas, em Roma. O nosso escritório está fechado, como todos os serviços públicos, devido às exéquias de João Paulo II, por isso passeamos longe desta loucura adoradora", dizem Gabrielle De Angelis e Fausto Pederzoli, citados pela agência France Presse.

Este casal, que se diz laico, não compreende "como se pode aceitar que o presidente Bush e Condoleezza Rice estejam ali a rezar, enquanto continuam a matar tanta gente". "Estamos fartos de toda esta hipocrisia", acrescenta Gabrielle.

O mesmo cepticismo chega pela voz de Paul Birrini, um professor universitário, de 68 anos, que vive a dois passos da Piazza di Spagna, no centro de Roma "É revoltante! Todos estes jovens vêm como se se tratasse de um concerto de rock ou de um jogo. Quantos deles respeitam os preceitos do Papa, quantos deles não usam preservativo, quantos deles já se divorciaram", lança, ironicamente, este romano.

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